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por Leonardo Amaral
Das Weisse Band, de Michael Haneke
por Leonardo Amaral
Nem sempre o uso do preto e branco faz muito sentido. Em Das Weisse Band ele é essencial. O universo ali encontrado não existe em cores. Hitchcock diz que usou o p&b em Psicose porque não queria que o vermelho fosse tão forte na cena do chuveiro. O efeito é contrário, os cortes, o sangue, o monocromático, tudo em conjunto funciona para um maior impacto. E mesmo em Cannes esse ano, na sessão Classics, no filme Os Olhos sem Rosto, de Franju. Um bisturi que corta, em primeiro plano, a pele de uma face. Sem as cores, a sensação é a de que o diretor francês nos arranca a epiderme, tamanha a força da imagem, tamanho o resultado da fotografia.
Michael Haneke faz investigações do estado de espírito humano de maneira acromática. Cores podem, em algum momento, dizer algo, sua ausência pode significar uma completa desorientação. Em Caché, Haneke lida com o que não se pode ver, nem sabemos o que realmente existe, se há algo. Já Das weisse band há, mas essa existência está ainda mais chachée (do verbo francês cacher, que quer dizer esconder). O cenário é uma pequena cidade da Áustria em 1913, às portas da Primeira Grande Guerra.
Os personagens são a metonímia do período, uma narração em off, uma sucessão de fatos que vão marcando aquela sociedade, sem, no entanto, que as coisas sejam explicadas. O cinema não tem obrigação de explicar, pelo contrário, ele deve lançar questões, deixar com que elas induzam o espectador a olhar para os seus próprios medos. Das Weisse Band é um belo filme sobre o medo, iminente, próximo, mas sem prenúncios, quando pensamos estar próximos, eis que somos outro vez desviados, obnubilados. Aquelas crianças do filme estão marcadas para sempre, a História mundial diz isso. Mas elas não sabem o que realmente acontece, nós também não, talvez os vizinhos saibam, no entanto, nunca se sabe. Mesmo Haneke possa, quem sabe, não saber.
O filme não deixa de ser um retrato do mundo no início do século XX, com perspectivas para o medo, que pode estar ao seu lado. Nesse sentido, o crítico Kleber Mendonça, logo depois do término do filme, teve uma boa lembrança sobre O Bebê de Rosemary. Há semelhanças de atmosfera com o filme de Roman Polanski. O mundo de Des Weisse Band é, acima de tudo, assustador, sem cores, escondido no meio da Áustria, deixado, quem sabe, dentro de um sótão, ainda a ser descoberto, mas não se sabe em que tempo.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filmes Citados:
Des Weisse Band (idem, 2009 – Michael Haneke)
Caché (idem, 2009 – Michael Haneke)
O Bebê de Rosemary (Rosemary’s baby, 1968 – Roman Polanski)
Os Olhos sem Rosto (Les yeux sans visage, 1960 – Georges Franju)
Psicose (Psicho, 1960 – Alfred Hitchcock)







