por Leonardo Amaral

Bazin e Fritz Lang: entreato

Para qualquer estudante de cinema é quase uma obrigação ler André Bazin. Ler Bazin é para um cinéfilo a descoberta de um novo mundo, é o mesmo que enxergar a humanidade por uma lente de uma câmera. É perceber o quanto o cinema é talvez a forma de arte mais completa. É de suma importância sua leitura para o entendimento não só da formação de quase todo o cinema como também para conhecer os vários elementos cinematográficos que estão além da própria montagem. Para o teórico francês precursor da Nouvelle Vague, o ritmo do filme não está somente ligado aos conceitos e desenvolvimentos de montagem; há, para ele, uma vasta gama de outros elementos que dão uma maior unidade fílmica.

Bazin valoriza o plano, seus elementos construtivos: o jogo de lente com alternância de foco, os constituintes visuais, as expressões e movimentação dos atores em cena, o movimento ou não da câmera, o silêncio ou forma de se dizer cada parte dos diálogos. Todos os códigos que juntos formam aquilo que é conhecido como mise-en-scène. O sentido cinematográfico dessa expressão extrapola seu próprio sentido etimológico oriundo do francês, que se liga a aspectos mais gestuais que propriamente técnicos. Pela teoria francesa dessa época, a mise-en-scène não está restrita somente a isso, pois se liga a toda uma elaboração técnica de cada plano.

O teórico francês chega a afirmar que determinado movimento da câmera ou de algum personagem pode se constituir como algo praticamente semelhante ao corte no que tange à narrativa cinematográfica. Um grande exemplo disso seria o plano-seqüência em que, ao invés do corte, é o movimento da câmera o responsável por guiar o olhar do espectador. Além desse elemento de ‘montagem’ dada pela mise-en-scène, há também, através dela, uma relação de transmissão de sensações através de sua forma fílmica. Isso pode ser exemplificado e visto principalmente nas obras de Ozu e Antonioni, sendo conhecido no cinema como ‘tempo morto’. Nesse caso, mais uma vez limita-se o corte e a câmera - às vezes parada e outras em movimento –, para se retratar uma situação cotidiana do personagem. Geralmente, esse tipo de plano consegue expressar o momento sentimental daquele personagem.

A mise-en-scène, entretanto, não objetivava a supressão do corte na montagem, pelo contrário, ela serve para reforçar o sentido do mesmo – mesmo em Festim Diabólico, considerando-se o filme em plano seqüência, Hitchcock maquia os cortes e faz uso dos vários elementos de cena para dar ritmo e unidade para a obra. A conjunção de mise-en-scène, corte e montagem se constitui na base construtiva do que, principalmente após Griffith e Porter, convencionou-se chamar de narrativa clássica no cinema. André Bazin, por meio de sua teoria, fez uma análise profunda de tais elementos tendo como um dos principais objetos de estudo o cinema clássico americano. Esse cinema dos EUA foi fundamental para o desenvolvimento da teoria de Bazin. O crítico francês foi um dos responsáveis pela análise do cinema de gênero, que marca fortemente a cultura cinematográfica ianque.

Foi escrevendo pela revista francesa de cinema Cahiers du cinema que Bazin pôde escrever grande parte de seu trabalho intelectual. Na mesma revista o movimento da Nouvelle Vague pôde ser desenvolvido, bem como politique des auteurs desenvolvida por François Truffaut. Além de Truffaut, nomes como os de Jean-Luc Godard e Claude Chabrol surgiram por meio da figura de Bazin. Antes de tudo cinéfilos, eles, por meio da teoria do auteur, reconheceram a genialidade de diretores dito ‘comerciais’, como Hitchcock e Hawks. Certa vez, Chabrol afirmou: “Se Hitchcock erra, o cinema erra”. É através do cinema de gênero americano e pela politique des auteurs que o nome de Fritz Lang surge na discussão. Lang não só percorreu com grande excelência por vários dos gêneros, como também, pode-se dizer, não errou muito em sua carreira.

O primeiro acerto de Fritz Lang se deu no contexto da Alemanha Nazista. Convidado por Goebbels para ser o cineasta da propaganda nazista, Lang recusou e imediatamente colocou seu tapa-olho e zarpou para terras do Tio Sam. Se a Alemanha lhe proporcionara a criação da ficção científica Metropolis e M, o vampiro de Dusseldorf dentre outras várias obras fundamentais, a América também possibilitou ao diretor alemão o exercício de uma vasta quantidade de temáticas e abordagens. Lang se adaptou muito bem ao modo americano de se fazer cinema, passando por vários períodos e maneiras de produção – do cinema mudo ao star system.

Apesar de ter realizado uma obra contundente na Alemanha, grande parte do reconhecimento da fase americana do diretor germânico se deu pela análise feita pela turma do Cahiers du cinema. A politique des auteurs mostrou o quanto autorais eram as obras de vários cineastas antes renegados a um modelo comercial de cinema. Truffaut principalmente observou o quanto era bem construída a mise-en-scène – o que retorna a Bazin – dos filmes de Alfred Hitchcock, Howard Hawks, Samuel Fuller, Nicholas Ray e também Fritz lang. Truffaut, no livro Hitchcock-Truffaut, faz uma retrospectiva de toda a obra do diretor britânico, apresenta vários dos elementos fílmicos presentes em sua obra e discute com o mestre Hitchcock acerca da câmera discursiva.

Para Alfred Hitchcock o cinema só se transforma em uma arte completa e independente no exato momento em que a câmera é capaz de dizer tudo no plano, bastando apenas ela para que toda a unidade dramática e narrativa possa ser realizada. O diretor de Um corpo que cai afirma que plasticidade e virtuose da câmera só deve existir se esses elementos se constituem como funcionais para o filme. O próprio filme em questão serve como exemplo para o mestre Hitch: na seqüência da escadaria, o movimento da câmera de cima para baixo em convenção com um movimento de zoom contrário só foi realizado porque objetiva demonstrar o momento psicológico do personagem ‘Scottie’ Ferguson, de James Stewart.

Se Truffaut buscou reconhecer toda a genialidade de Hitchcock, mostrando o quanto o mesmo se constituía como autor, Bazin soube muito bem enxergar em Nicholas Ray todos os elementos que fazem de um filme uma grande obra. Dentre os vários filmes de Ray, Johnny Guitar recebeu grande atenção do crítico francês. Johnny Guitar é um western no qual a mise-en-scène de cada plano pode e deve ser analisada profundamente. Foi exatamente o que Bazin fez – Ray sabe fazer de cada plano do filme uma peça importante para a montagem final desse quebra-cabeça. Nesse longa-metragem, o diretor americano soube os exatos momentos de retardar o corte, de criar conceitos com a câmera que são a mise-en-scène levada às suas minúcias. A montagem do final do filme com a troca de tiros é uma forte representação da teoria realista de André Bazin.

Se Hitchcock e Nicholas Ray eram cineastas autores, Fritz Lang nada fica atrás, tendo, inclusive, percorrido por vários dos gêneros do cinema americano. E é aí que se fixa toda a discussão e análise. Os gêneros cinematográficos possuem suas regras próprias – elas até podem ser quebradas, desde que se tenha consciência do porquê e o propósito disso, vide Joel e Ethan Coen. Pode-se dizer que, nesse aspecto em questão, Fritz Lang se apresenta bastante polivalente – à semelhança de Howard Hawks -, pois dirigiu desde westerns a comédias de costumes. Na maioria dos filmes sua direção sóbria consegue se encaixar perfeitamente na temática na qual está enveredado.

Lilion, cujo título em português é Coração de Apache (em Paris, o termo apache era dirigido a homens que levavam uma vida de gigolô), não é um filme da fase americana do diretor alemão, mas sim de uma escala francesa do mesmo. O filme, um drama em língua francesa bem construído em uma narrativa simples na qual estão presentes traços de realismo fantástico, além de um olhar acerca das mazelas humanas, foi o último do diretor antes de seu carimbo no passaporte para a América. É exatamente essa fase, às vezes um pouco desvalorizada, que se deve e se pretende discutir. Foi o que Peter Bogdanovich propôs em seu livro de entrevistas Fritz lang en Amérique (versão traduzida para o francês de não muito fácil acesso) – algo que pode ser comparado ao próprio Hitchcock-Truffaut. O cineasta germânico é um dos exemplos de quem se deu muito bem no modo de fazer cinema americano, ou seja, um cinema de gênero – posteriormente analisado por Bazin e, em seguida, por todo o pessoal da Nouvelle Vague.

De todos os gêneros, Fritz Lang liga-se muito ao western, realizando, dentre outros filmes, Os conquistadores. É interessante notar o quanto o diretor tem o domínio desse tipo de narrativa. Lang concatena seus planos nos quais a mise-en-scène é de suma importância para a unidade fílmica – no filme está presente a clássica cena de confrontos de bang bang na qual a linguagem é realizada pelos planos/contraplanos, pelo ritmo, pela localização através de um plano geral, seguido pela contextualização por meio de outros mais fechados, dentre esses o detalhe (em faces e, principalmente, em pistolas). Os conquistadores é um faroeste de uma câmera clássica que insere o espectador na narrativa a cada plano e que, assim como já dito em relação a Hitchcock, é capaz de dizer muito mais do que o roteiro por si só diria – isso é o que diferencia o diretor de talento daquele mero reprodutor de um script. Além disso, vários dos elementos do western também estão lá: o forasteiro que chega para causar o conflito interno, a figura feminina como um dos artifícios centrais da trama, os confrontos com pistolas. Lang, com certeza, pode ser colocado no patamar dos grandes construtores do faroeste norte-americano, sendo influência para cineastas que, muitas vezes, o resgataram, casos de Clint Eastwood e do próprio Sérgio Leone.

Outro filme de sua fase americana no qual se pode perceber toda a desenvoltura de Fritz Lang na condução narrativa cinematográfica é O segredo da porta fechada. O longa de uma orientação freudiana se assemelha até certo ponto com Rebeca de Hitchcock. Existe ali um mistério de uma porta e esse se constitui em um elemento fundamental para toda a narrativa que se desenvolve segundo esse aparato. A fluência do filme é agradável – um deleite para qualquer cinéfilo -, Lang sabe como conduzir toda aquela mise-en-scène para algo psicológico. A câmera que percorre os arredores de uma casa vai dando o tom de todo o segredo daquele quarto, do que está por trás daquela porta, da mulher que desconfia dos atos e do passado do marido. São elementos que juntos se configuram em um filme no mínimo prazeroso de se ver.

Fritz Lang ainda fez seu passeio pelos filmes do universo dos tribunais como no caso de A volta de Frank James ou pelo debate histórico anti-nazismo em O Homem que Quis Matar Hitler. São apenas mais algumas das provas do quão bom foi o velho Fritz, do quanto sabia usar os elementos narrativos, de como dominava a câmera e do quão era capaz de criar e recriar histórias, episódios, inclusive nessa sua fase americana. A tendência de muitos é uma certa desvalorização dessa sua fase em relação à alemã, o que se constitui em uma certa heresia, já que, em vários desses exemplos citados, fica comprovada a genialidade desse cineasta que um dia recusou o papel que acabou sendo executado por Leni Riefenstahl. Bazin e a turma de Truffaut já haviam ensinado a todos o quanto certos elementos devem ser valorizados nos filmes, de como gênios como Hitchcock e o próprio Lang acabam tendo uma parcela de sua obra renegada por muito tempo. Bazin ensinou a importância de sempre ver, rever e discutir um filme.

O convite fica feito para aqueles que nunca viram os filmes de Fritz e também para aqueles que por ventura já tiveram o prazer de vê-los. A discussão está sempre em aberto. Boa sessão a todos.

Filmes citados:
Festim Diabólico (Hope, 1948/Alfred Hitchcock)
Metropolis (idem, 1927/Fritz Lang)
M, o vampiro de Dusseldorf (M, 1931/Fritz Lang)
Um corpo que cai (Vertigo, 1958/Alfred Hitchcock)
Johnny Guitar (idem, 1954/Nicholas Ray)
Coração de apache (Liliom, 1933/Fritz Lang)
Os conquistadores (Western Union, 1941/Fritz Lang)
Rebeca (idem, 1940/Alfred Hitchcock)
O segredo da porta fechada (The secret Behind The Door, 1948/Fritz Lang)
A volta de Frank (The return of Frank James, 1940/Fritz Lang)
O Homem que Quis Matar Hitler (Man Hunt, 1941/Fritz Lang)

Livros indicados:
Hitchcock/Truffaut: Edição Definitiva (Hitchcock/Truffaut: Édition Définitive, 1983/François Truffaut)
Fritz Lang en Amérique (versão traduzida para o francês, 1967/Peter Bogdanovich)

Revista citada:
Cahiers du Cinéma (www.cahiersducinema.com – versão online em francês)