por Leonardo Amaral

O Pornógrafo: hora de mudar as regras, vamos colocar as cartas na mesa

pornógrafo

“A solidão na morte. O começo do fim. As regras mudaram. O jogo é outro. Sozinho contra todos. Sem parceiros. E essas regras novas complicam tudo. O grande jogo da mentira. Gângsters de escritório; burocratas acomodados. Antigamente era mais fácil: a Thompson resolvia tudo. Fácil, fácil. Agora eu aprendi as novas regras. O jogo se renova. É preciso aprender as novas regras. Inventar! É preciso! Meu tempo acabou. O prazo se esgota. O fim não tarda. Um erro é suficiente. Uma jogada errada e você perde o lugar.”

 

Cinema brasileiro que coloca as cartas, mostra os seios em câmera frontal. A imagem é de João Callegaro, o texto é de Jairo Ferreira, o cinema é de invenção e nossa única opção deve ser o de olhar para o futuro na tentativa de enxergar o passado. Miguel Metralha (Stênio Garcia) sai de moto pelas ruas a dizer as palavras supracitadas, a cidade é o ouvido para a profecia do nosso gângster anti-herói. O personagem padece após o passeio pelos labirintos de um trem-fantasma. Um tipo de cinema brasileiro de hoje parece ter se contentado com essa morte e a aceitado – nem sequer paradigma ele se tornou -, a banca estourou, mas há ainda a caixinha de brinquedos – como outrora dissera Orson Welles – para se fazer algo além, e há aqueles que ainda resistem, que pedem o jogo e dele querem participar, mesmo que para isso tenham que subverter algumas regras, mesmo correndo o risco de abrir a caixa e tomar um soco na cara, como também toma, em uma cena filmada de cima pra baixo (cinema sem convenção; invenção, essa é a palavra), o nosso resistente Metralha.

 

O cenário é a editora clandestina de revistinhas em quadrinhos eróticas que, após a morte do chefe de edição, faz reformulação que troca as mulheres de antes pelos homens escolhidos por Peter Áster, personagem-cisão. O Pornógrafo, filme-profético que coloca o cinema em crise: Miguel Metralha, o Al Capone dos pobres, está agora perdido nos meandros do sistema, impossibilitado, travado, tendo de matar a principal investidora dos negócios financeiros para não morrer. A morte é o tema recorrente do cinema moderno porque cinema é crise e morrer sempre é um estado crítico, seja ele redentor ou não, seja fuga ou a mera impossibilidade de caminhar. Em O Pornógrafo, Callegaro nos mostra as faces deformadas do personagem-filme-brasileiro na casa de espelhos. Ao mesmo tempo em que ri, Stênio Garcia está acuado, suas reações são as múltiplas facetas de um destino certo para possibilidades incertas: esse cinema brasileiro que faz de cada plano um discurso político-cinematográfico, que faz do corte e da montagem a possibilidade de vazão do antagônico, do dialético. Montagem-intelectual-tupiniquim às avessas, tradição imperial brasileira.

 

“O script é importante, a mise-en-scène também, mas devem opor-se para gerar um espaço-tempo propício à criação de uma nova realidade, deve ser a função número um do cinema, que por problemas brasileiros virou na atualidade ócio e negócio de débeis mentais.” Rogério Sganzerla, esse trovador das palavras e das imagens vindo de Joaçaba (onde também nasceu João Callegaro), diz de uma dialética que o cinema brasileiro negara e que o de agora, carola e acomodado, parece reforçar a cada filme débil. Sganzerla profeta, como também proféticas são as imagens contrapostas ao “eu ganhei, eu sempre ganho” de Miguel Metralha, diante de uma máquina de pinball – o bom e velho pinball da nouvelle vague, como dissera Alain Bergala a respeito desse joguinho tão utilizado em filmes franceses – enquanto a bolinha insiste em deslizar pela calha rumo ao game over. Metralha sai do fliperama para ganhar as ruas. Assim como Sganzerla, Callegaro sabe que é nela que está a boca... do lixo, é ali que se começa a batalha, mesmo que seja o começo do fim, mesmo estando sozinho contra todos, sem parceiros. Stênio Garcia assume a chefia das revistinhas de sacanagem e bota o pé sobre a mesa.

 

O cinema de hoje – esse cineminha de fórmulas fáceis, que busca no humor barato e no socialmente precário a fuga para as suas incapacidades discursivas e, pior, imagéticas – parece não querer fazer o mesmo por talvez ter medo de sujar os papéis, ou quem sabe por preferir lustrar o sapato. Vivemos uma época do cinema limpinho: graxa, toalhinha de pano gasto, uma lustradinha, e voilà, está pronto, tinindo de brilhante.

 

Miguel Metralha é o gângster paulista que come macarrão ao mesmo tempo em que olha uma revista de mulher pelada. E não tem pudor nenhum de parar a refeição para ir ao banheiro ao lado para se aliviar. O Pornógrafo é o cinema que nada teme, que brinca com a própria perspectiva do plano ao colocar a pequena cobra de plástico que salta da caixinha-surpresa em direção à lente. E o mesmo brinquedo, em enquadramento subjetivo, se apresenta como uma espécie de câmera-falo: o extracampo pode ser até o espectador sacana, por que não?, se é de seu próprio agrado. Callegaro contrapõe a imagem de Metralha a de gângsters do cinema: “os bons tempos vão voltar, a casa vai renascer, nós vamos mandar, dominar”, diz o personagem errático. Cinema de enquadramento preciso, ritmo marginal que transforma a narração em off na própria oração da arte cinematográfica nacional: o mafioso brasileiro só poderia mesmo se encaminhar para a Boca do Lixo: “filho de imigrante nasce marcado, ou é gângster ou é quitandeiro”.

 

“No fundo o que eu quero é poder, só que agora eu estou sozinho, meus irmãos se naturalizaram, abandonaram as origens, apodreceram. Mas o grande jogador aqui está, jogando alto, acertando, o bom.” O anti-herói brasileiro entra no jogo, mas ao final perde: “eu perdi. Senhoras e Senhores, façam o seu jogo! Apostem! Apostem que o jogo continua! Um dia a banca estoura! Quando as regras mudarem, vocês vão se lembrar! Miguel Metralha, o profeta do crime! Miguel Metralha!” O cinema brasileiro jaz junto a mais um de seus queridos boçais, o jogo é complicado, mas a bolinha do pinball sempre retorna à arena. O corpo está lá, mas a montagem e a última cena devolvem ao cinema brasileiro a capacidade de sonhar: em tela dividida em quatro, vemos os fragmentos do próprio filme. “Nada como ser bacana, Miguel Metralha, o gângster, pô, Al Capone dos pobres”, diriam todos nossos poetas de margem, enquanto o espectador reclama na sua velha poltrona poeirenta da sala escura a chance de voltar a rezar nessa cartilha, mesmo que seja para retornar ao começo do fim, sem temer a morte solitária.

 

Filme Citado:

O Pornógrafo (idem, 1970/João Callegaro)