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por Leonardo Amaral
Almoço em Agosto

O filme de Gianni di Gregorio preza por uma simplicidade de execução e impressiona bastante em como é bem resolvido dentro de sua proposta cênica. O espaço são dois: as ruas de Roma e a casa onde residem Gianni, um solteirão que ainda mora com a mãe e ambos devem aluguel, contas de luz e afins, sendo que ele sempre consegue amarrar uma notinha no armazém, onde compra os ingredientes para cozinhar uma boa pasta al forno. O cinema italiano sempre se dá bem ao explorar o ambiente cenográfico simples (como as ruas romanas) e suas personas cotidianas. Almoço em Agosto é exatamente isso.
Temos o mcguffin: Gianni deve os aluguéis e precisa abrigar a mãe e a tia do senhorio; o simpático homem também tem uma pequena dívida de favores com o médico da família e fica impossível recusar mais uma hóspede, a mamma de doutor Marcellino. O ferragosto (feriado de 15 de agosto na Itália) de Gianni será cercado por quatro velhinhas para as quais ele deve preparar um bom jantar e também o almoço do outro dia. Em Almoço em Agosto não existe muito uma objetivação dentro do plano, mas sim um gosto pelo momento, o que há é um apreço à palavra, ao dito, e a opção para se captar isso é a mais simples possível: uma câmera que vai ao close sem receios para pegar a palavra que sai daquelas pessoas, os respingos de saliva que saltam da boca da mãe de Gianni, as faces que se embriagam com o vinho, o carinho por aquelas rugas e personagens que ali estão. A outra alternativa são os planos de grande duração (por vezes fixos, como o inicial, em que Gianni vai ao armazém, pede uma taça de vinho e senta-se, de frente ao estabelecimento, para tomá-la junto ao amigo Viking – em questão ali, a morosidade do tempo, a capital romana parece ter exatamente o timing daquelas pessoas que nela são mostradas, é a cidade sempre a serviço do cinema e sendo modificada por ele): o importante no filme de Di Gregorio é substancialmente a ação, e o que vemos é uma fórmula simples e bem-sucedida de narrá-la.
Tudo naquele universo soa como orgânico: desde a mãe do médico que não pode comer macarrão, mas aproveita a noite para roubar um pouco de pasta que havia sobrado do almoço; a tia do dono do prédio, que não se cansa de se autoelogiar e não se furta em carregar uma placa dada pelos netos na qual diz ser o macarrão da nonna o melhor de todos, mesmo aos 80 anos; ou mesmo dona Marina, que foge à noite para fumar e beber em um bar. Ali, toda a atmosfera é natural, e isso somente existe pelos atores e pela convicção que passam cada um daqueles personagens que estão em cena. Alguns cinemas atuais têm perdido essa capacidade de lidar com o simples e de bem executá-lo (Marcelo Miranda expôs muito bem o tema na edição anterior em sua coluna [aqui] ao falar do cinema de Howard Hawks). E o que vemos em Almoço em Agosto é uma câmera leve que sabe muito bem onde encontrar seus personagens, e esses nos são tão carismáticos, que, de alguma forma, também nos sentimos presentes naquela mesa de comemoração do ferragosto.
Filme Citado:
Almoço em Agosto (Pranzo di ferragosto, 2008 – Gianni Di Gregorio)







