por Leonardo Amaral

13 Homens e outro segredo: quando quase nada é levado a sério

Imagine-se produtor em Hollywood. Pense agora que você tem um punhado de dólares para investir em um filme. Você seria capaz de dar esse dinheiro para um diretor se divertir? Diga-se de passagem, um diretor que recentemente fez um filme sério – Bubble - cuja estrutura narrativa e estética está longe de ser comercial, pelo contrário, sua linguagem tem um caráter que dialoga bastante com o experimentalismo de seu outro longa: O Estranho.

Pois bem, Steven Soderbergh recebeu uma nota preta para fazer um filme em que quase nada é levado a sério. Se na década de 1970, George Roy Hill, em Golpe de Mestre, já havia mostrado que o cinema de gênero (principalmente em obras que trazem à tona grandes golpes) pode ser levado para uma vertente mais bem humorada, na qual a câmera compõe a narrativa com zooms, travellings e panorâmicas que fogem um pouco da narrativa clássica – em Butch Cassidy and the Sundance Kid ele já havia levado essa linguagem para esse que é um filme de western -, Soderbergh vai até além, faz brincadeiras com o próprio filme, não se leva a sério, bem como todo o seu cinema na franquia Ocean’s. Em 13 homens e um outro segredo quase nada é poupado, o que se quer ali é mostrar que o cinema pode ser pura diversão, que o zoom quer mesmo ser falso, quer remeter aos filmes de gangster B (mas como Gabriel Martins disse na edição anterior: de uma forma elegante), que a câmera – assim como em Golpe de Mestre – quer participar da ação, quer ser trapaceira, quer desrespeitar (até certo ponto) a própria história, o próprio enredo.

Você, como produtor de Hollywood, enxergaria, lógica e (talvez) unicamente, a grana rendida com o filme. Esse mundo pode até ser uma fábrica de sonhos, uma forma de divertir as pessoas, mas é, acima de tudo, um belo sistema para engordar contas bancárias, um negócio e, como tal, algo bastante sério. O responsável em quebrar um pouco essa seriedade e embarcar em um mundo de certa forma tresloucado é Soderbergh e consegue investimentos suficientes (e não poucos) para fazer isso tudo.

Soderbergh joga às favas a seriedade e a sobriedade narrativa, pois o que quer é brincar com aquilo que mais gosta de fazer, cinema, o mesmo se quer fazer em Shrek Terceiro. Este ano, interessantemente, tem sido marcado por uma grande quantidade de trilogias de blockbusters e, tirante o Homem Aranha 3, muitas produções cuja seriedade não é o ponto mais forte. Antes de 13 Homens e Shrek, Piratas do Caribe já havia apresentado sua terceira franquia. Aliás, o primeiro dos filmes com Johnny Depp já havia se mostrado engraçadinho, mas nada mais que aqueles brinquedinhos legais que durante meia hora são até divertidos, mas que depois voltam para a caixa por se mostrarem um tanto quanto enfadonhos e repetitivos. A narrativa de Piratas do Caribe é inconsistente por querer ser às vezes um pouco mais séria que deveria ser, fato que faz valer bastante a metáfora anterior.

Já em Shrek Terceiro fica claro que, para os produtores, a piada se esgotou, que não há mais tanto espaço para algumas gags e também para certas paródias infantis. Por mais que existam as referências e as brincadeiras anteriores – além de uma certa iconoclastia em relação aos contos de fada -, tentam trazer um pouco de ar mais sério através do personagem do Rei Arthur, o pobre coitado que se torna rei. Deixam de lado o politicamente incorreto das outras duas animações para tentar trazer um sentimento de graciosidade, de que o amor das criaturas muda o mundo. As fábulas, como as de La Fontaine, trazem sempre uma moral, um ensinamento. Moral dessa história: Shrek Terceiro ficou mais careta (e nem adianta usar as vozes de dois Monty Phyton: Eric Idle e John Cleese), mais contido, deixou de lado uma certa característica politicamente incorreta para se implementar mais uma grandiosidade visual que ali não cabe. A principal (e talvez única virtude) anterior se desfez e o conto de fadas foi literalmente por água abaixo.

Sempre querer suscitar o espírito anárquico e sem compromisso, sem querer dizer que a arte não precisa ter um razão sóbria por trás; mas é necessário sim, às vezes, levar a vida de uma maneira mais bem-humorada. 13 Homens, mesmo com todos os seus defeitos, mas também com muitos acertos, serve um pouco como metonímia disso, de um cinema que a última coisa que quer é ser levado realmente a sério.

Filmes citados:
Bubble (idem, 2006/Steve Soderbergh)
O Estranho (The Limey, 1999/Steve Soderbergh)
13 Homens e Outro Segredo (Ocean’s thirteen, 2007/Steve Soderbergh)
Golpe de Mestre (The Sting, 1973/George Roy Hill)
Butch Cassidy and Sundance Kid (idem, 1969/George Roy Hill)
Homem Aranha 3 (Spiderman 3, 2007/Sam Raimi)
Piratas do Caribe: A Maldição da Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003/Gore Verbinski)
Shrek Terceiro (Shrek 3, 2007/Chris Miller)