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por Leonardo Amaral
Zodíaco: metalinguagem em consonância
A revista eletrônica Filmes Polvo oferece uma grande vantagem ao redator que escreve por aqui: a possibilidade e liberdade de escolha do objeto a ser analisado. Esse objeto – com exceção à cobertura de mostras e festivais, ou em edições temáticas – é abordado da maneira que o colunista entende ser a melhor para a análise teórica, desde a narrativa às várias concepções imagéticas e ideológicas que podem existir dentro de um filme. A configuração desse ciberespaço (discutido por vários teóricos) abre um novo paradigma para o exercício crítico (seja ele cinematográfico, político, etc). Em muitos casos (como em Filmes Polvo), essa ‘liberdade’ rompe com algumas barreiras editoriais vistas em outros órgãos, principalmente nos da mídia impressa. De certa forma, pode-se dizer que nesse espaço cibernético talvez exista uma opinião mais sincera em relação ao objeto estudado, ou talvez ali não existam limitadores quase totalitários que, na maioria das vezes, impossibilitam uma melhor reflexão acerca do tema.
Falo isso por dois motivos: o primeiro é o da liberdade que tenho de recorrer a temas – novamente voltarei, mesmo que apenas de passagem, a André Bazin -, bem como da possibilidade de maturação de uma determinada idéia em relação ao meu objeto de estudo a cada edição. Ter quinze dias para se pensar sobre alguma coisa é um luxo tremendo, mesmo com as outras atividades do cotidiano. (Espero um tempo em que poderei acordar meio-dia e me dedicar durante a tarde, noite e madrugada ao estudo, leitura e filmes, mas esse dia ainda está muito longe do meu alcance, talvez seja apenas um devaneio momentâneo do agora). Saindo do onírico e voltando ao real, esses dois motivos supracitados serão entendidos ao longo desse texto que pretende ter um caráter metalingüístico, mas também analítico, em relação ao filme mais recente de David Fincher.
Uma coisa pode-se afirmar em relação ao Fincher: não dá pra negar que ele é um sujeito bastante contumaz naquilo que quer dizer, ou melhor, naquilo que quer colocar à nossa frente. Me desagrada uma abordagem superficial de que David Fincher quer causar o choque, apresentar o caos urbano e a destruição humana. Trata-se de um reducionismo assaz irritante. Não dá para se falar de um filme ou de um tema ao se pegar apenas um aspecto da coisa. Mais do que isso, o Fincher de O Clube da Luta é o ser humano em seu transtorno sim, é o homem reduzido, diminuto, kafkaniano, que não sabe se é ou quem é a barata a ser esmagada. Na dúvida, o melhor é esmagar (ou explodir) tudo.
Mas agora vem o Fincher e nos joga na frente esse Zodíaco. E aí, antes de falar do filme, tenho que recorrer a duas premissas que serão minhas muletas durante o restante dessa crônica-crítica. A primeira delas é o cinema gênero. Bazin já havia destacado como os EUA têm seu cinema fortemente marcado pelo gênero: a primeira análise do teórico francês é acerca do western, que para ele é uma espécie de metonímia maior da cultura norte-americana de expansão das fronteiras. Se para Bazin o western era, por excelência, a representação americana da época, o thriller, com contribuições de Alfred Hitchcock e do cinema noir, representa hoje uma sociedade muitas vezes marcada pela violência e pelo medo em um contexto que começa a se formatar a partir dos anos 1920 em consonância com a Lei Seca. O assassino que mata em série, que age por alguma psicopatia, é algo que, de certa maneira, é mais freqüente na sociedade americana. A segunda premissa é a da atmosfera criada pelo cinema, a ambientação motivada pela projeção. É evidente que todo filme projetado terá uma maior riqueza de detalhes que em qualquer outro suporte. Porém, alguns têm um impacto estrondoso quando jogados na tela grande. A amplitude, os detalhes, a movimentação da câmera, os grãos, tudo isso ajuda a criar um ambiente que joga com a emoção do espectador.
Vi Zodíaco no cinema há pouco tempo e a meu ver não há dúvidas de que o filme tem o impacto que tem muito pela projeção, além do formato escolhido pelo diretor, que privilegiam em muito a direção do mesmo. Hitchcock certa vez disse que percebia que havia feito o certo quando o público começava a segurar com mais força a extremidade da poltrona e se a encolher levemente na mesma à medida que a cena de suspense fluía. Nesse quesito, ponto para David Fincher que consegue imprimir ritmo narrativo tenso e frenético em vários momentos de Zodíaco. Outra vantagem do filme é a de não se apegar completamente ao roteiro e de dar a ele uma importância que no cinema ele não tem.
A maioria dos thrillers cai nessa armadilha e acabam por se tornar um velho clichê do filme que tem um misteriozinho e faz desse artifício fraquíssimo o centro da mise en scène – o que é, quase sempre, lamentável. O mais interessante de um longa-metragem com um assassino serial é a exploração de nuances psíquicas dos personagens, de jogar com os sentimentos de medo, culpa, remorso dos mesmos, de fazer da câmera uma espécie de cúmplice do crime e não de ater-se meramente ao que estava escrito no roteiro e reproduzir somente isso; é evidente que se deve ir muito além.
Zodíaco não dá respostas claras, e sim as sugere. A câmera acompanha os fatos, dinamiza as ações, sejam elas de contornos físicos ou psicológicos e muitas vezes é seca (como no assassinato do casal por meio de uma faca), mostra a violência, a brutalidade ou mesmo os bastidores da imprensa, o funcionamento da notícia, o que pode ou não ser manipulado. Ainda há o cinismo que aparece em Seven e O Clube da Luta, só que agora existe uma forte análise social, da crise que se impera não só por um serial killer, mas pela violência em geral, do quanto esta pode acarretar um pânico de proporções maiores.
Fincher faz da transitoriedade temporal sua narrativa, percorre o tempo com elipses e legendas que criam a ambientação histórica que funciona como arcabouço para as ações – desde as das mortes em série até as investigações que se dão durante a trama. A câmera do filme é intrusiva, uma espécie de cateter que invade o antro da sociedade americana, fundada e fundamentada pela cultura do medo e da violência – não se pode negar isso de forma alguma, mesmo que visto pelo olhar de um brasileiro (no meu caso). Fincher percorre a relação imprensa/polícia/sociedade, media essa relação, mostra, em sua elegância de filmar, as nuances e anseios de cada um, numa história em que não há final moralista, simplista, feliz ou infeliz - na verdade ele pouco importa, o que vale é a imagem e a análise, quase weberiana, das instituições e da sociedade norte-americana como um todo.
E ainda tem esse Jake Gyllenhall, muito bom ator. E não somente por Zodíaco e O Segredo de Brockeback Mountain, mas é por uma carreira que vem se mostrando assaz sóbria. O rapaz sabe escolher bem os personagens para interpretar. É interessante como é um ator de detalhes, de movimentos sutis, quase imperceptíveis – uma movimentação de sobrancelha, um sorriso às vezes tímido ou nervoso – que funcionam muito bem para a mise en scène não só no sentido de atuação, mas como um todo, bem à francesa (novamente eu retorno a Bazin e sua definição de filmagem realista).
Os planos e a tensão de Zodíaco são altamente cinematográficos, algo que somente o cinema é capaz de estabelecer com seu público. Quando no fim da sessão, saí com um sentimento de que não era isso tudo, que havia problemas na narrativa (às vezes um pouco extensa, com planos pouco funcionais) – não se podem esconder esses problemas. No entanto, o tempo de pensar no filme, a maturação da idéia (graças ao meu espaço em Filmes Polvo), fez com que eu pudesse estabelecer um canal de ligação com o filme, que pudesse recordar seus signos e montar todo o quebra-cabeça estabelecido por David Fincher. Queria ter o dom de Inácio Araújo, que com poucas linhas consegue adentrar e analisar todo o universo de um filme. Gastei bem mais linhas, bem mais tempo, bem mais sofrimento (o do escritor em frente ao papel em branco) para poder ser mais sincero comigo mesmo e com meu leitor, de poder mostrar a angústia que existe no paradigma crítico/objeto/análise, de não simplesmente dizer que o plano é interessante, a fotografia é bonita e jogar um monte de estrelinhas vazias e enrolar o leitor, pensando que ele é tolo. Levei tempo e linhas para compreender que Zodíaco tem um grande impacto, principalmente dentro de uma sala de cinema, mundo que eu sempre insisti em adorar, no mínimo para esquecer meus anseios e medos, ainda que em interface com os medos e anseios dos personagens que naquele momento também fazem parte da minha vida, do meu cotidiano.
Filmes Citados:
Zodíaco (Zodiac, 2007/David Fincher)
Seven (idem, 1995/David Fincher)
O Clube da Luta (Fight Club, 1999/David Fincher)
O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, 2005/Ang Lee)







