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por Leonardo Amaral
John John, de Brillante Mendoza

por Leonardo Amaral
John John se inicia com um movimento panorâmico de cima para baixo, que sai das nuvens para encontrar uma favela. O plano geral apresenta em quadro um sem-número de coisas que ocorrem ao mesmo tempo, de alguém que conserta a antena de televisão no telhado às senhoras que dão banhos nos filhos ao ar livre. Diferente de Tirador e Kinatay, que têm uma montagem bastante recortada e frenética, esse filme opta por planos-sequências de maior duração que ajudam a melhor construir as imagens antagônicas que Brillante Mendoza propõe dentro do longa.
Mesmo ao investir nessa estética, a maneira de enquadrar, bem como a profundidade de campo darão uma das principais características do cinema empreendido por Brillante: uma grande quantidade de informações em tela, como, por exemplo, no plano em que o marido de Thelma (mãe adotiva de John John) conserta um ventilador enquanto que, ao fundo, podemos ver, em outro cômodo, a esposa que cuida do menino; pode-se ainda ver, por meio da porta de entrada da casa que está aberta, os transeuntes que passam pelas ruelas da localidade de muita pobreza. Ao optar por tal artifício, Mendoza nos oferece a realidade como cenário para essa ficção que a ela fortemente se vincula.
No processo de criação do diretor filipino a câmera se insere como uma espécie de personagem dentro do ambiente onde ela percorre. Em John John ela pode ser vista em dois momentos distintos. No primeiro, quando do período em que a criança é criada por Thelma dentro da comunidade, ela transita como se fosse mais um ali, percorre os estreitos caminhos do local, circula junto de Bianca, a assistente social, e capta instantes de intimidade, como na cena em que John John urina no chão, após tomar banho e correr para o meio dos jovens que ali jogavam basquete. Quando ela é retirada de lá, há sempre uma espécie de estranhamento, como no concurso das crianças do qual John John participa – o enquadramento aqui é sempre uma opção pelo olhar estranho – ou quando o garoto é levado para a família adotiva norte-americana.
E é exatamente ai que o filme encontra seu momento mais belo, quando a mise-en-scène se constrói diante da dificuldade de uma mulher deixar com outra família a criança que criou durante um longo tempo. Existe ali uma situação de incomunicabilidade muito maior do que a diferença de idiomas. Mesmo o desajeito de Thelma dentro do banheiro do hotel luxuoso onde está a família é mais um dos sintomas dessa câmera que antes caminha entre a pobreza total e agora se encontra entre um dos lugares de maior riqueza dentro do país.
Ao final, o supracitado momento, em que Thelma caminha totalmente perdida pelas ruas da cidade, acompanha pela câmera: totalmente desorientada, ela se senta, o choro é inevitável e a câmera pára, registra o instante. John John é sobretudo um filme de uma perda em construção, dada, substancialmente, pela câmera de Mendoza.
*Visto no Indie 2009.
Filmes Citados:
John John (Foster child, 2007 – Brillante Mendoza)







