por Leonardo Amaral

A Noite e Morangos Silvestres: quando os gênios dizem adeus

Morte. O abandono físico, o aprisionamento às lembranças e o apelo através de imagens virtuais. Um velho clichê sempre volta à tona ao se afirmar que a morte é a grande certeza da vida. É evidente que todos um dia irão morrer, mas são várias e infindáveis questões filosóficas que a envolvem. Quando Woody Allen brinca com a morte ao dizer que não a teme, mas que não quer estar lá quando ela chegar, ele demonstra o quanto seus mistérios ainda o afligem (assim como afligem a maioria das pessoas).

É realmente estranho como a morte é capaz de trazer para tão perto alguém que está longe ou que mesmo não conhecemos pessoalmente – como no caso do acidente no Aeroporto de Congonhas há poucos dias. O ser humano tem a capacidade de sofrer pelo próximo, em um sentimento chamado de compaixão. É possível chorarmos por um acidente em que ninguém ali era conhecido e podemos sentir a falta de uma pessoa que nunca esteve presente fisicamente na nossa vida.

De uma tacada só - no mesmo dia - nos foram levados dois gênios. Pela manhã, na Suécia, Ingmar Bergman morreu em casa, no local onde filmara algumas de suas obras. Michelangelo Antonioni faleceu à noite – interessantemente durante a noite, período da jornada diária bastante presente em sua obra. Curiosamente, mesmo que de maneiras bastante diferentes, ambos os diretores faziam da morte também um grande tema a ser discutido em suas respectivas obras. Implícita ou explicitamente, a morte é retratada em seus filmes, como em O Sétimo Selo de Bergman e Passageiro: profissão repórter de Antonioni. A morte é usada como uma metáfora para várias questões filosóficas em relação à vida, mostrando o quanto somos limitados e frágeis.

Não tenho uma ligação muito forte com Bergman, apesar de respeitar e admirar muito sua obra. Mas o primeiro filme dele que vi e que me marcou bastante foi Morangos Silvestres – depois assisti a O Sétimo Selo, ainda mais marcante. Já com Antonioni o diálogo é mais próximo, sendo o diretor italiano um dos grandes responsáveis por minha cinefilia. Seu primeiro filme por mim visto fora A Noite. As imagens de Antonioni exerceram em mim uma pujança fundamental para a crença de que o cinema é capaz de ser melhor que nossa própria vida. Decidi partir das duas obras (Morangos Silvestres e A Noite) para relembrar e homenagear os dois cineastas que com certeza deixarão saudades a todos nós e, principalmente, ao cinema.

Ingmar e seus morangos silvestres

Ser sueco é, acima de tudo, ser alguém conhecedor das intermitências do tempo, ser uma pessoa que sabe lidar com os contornos de efemeridade temporal rara. A Suécia é um país frio em grande parte do ano, além de possuir uma densidade demográfica pequena e uma taxa de criminalidade também assaz reduzida. Há, para a maioria dos suecos, um certo sentimento de nada ocorre ou ocorrerá aos seus arredores e de o tempo é uma coisa que sempre se esticará um pouco mais. A literatura do país escandinavo é fortemente marcada por essa característica – principalmente na literatura sueca moderna inaugurada pelas primeiras obras de August Strindberg.

Woody Allen certa vez disse que Ingmar Bergman fora o maior artista que o cinema já tivera em todos esses tempos. De certo, Ingmar tivera um controle do primeiro plano e um domínio do tempo que poucos outros conseguiram na história do cinema. Seu cinema se volta para si mesmo, busca nas entranhas do ser a explicação de alguns dos sentidos guias da existência, seja ela física, seja espiritual. O cineasta Bergman foi capaz de metaforizar através de imagens todas as inquietações do homem Ingmar. Ao buscar na própria existência, nas próprias aflições, desejos, medos e sentimentos, Bergman consolida uma obra intimista que não teme em hora alguma a exposição e que prima principalmente pela verdade de seu discurso cinematográfico e também de vida.

O diretor sueco recorre, em grande parte de sua obra, ao retrato feminino, centrando-se na filmagem do corpo da mulher, no primeiro plano, no olhar que consegue fazer da câmera um objeto intrusivo e captador de emoções. Entretanto, em Morangos Silvestres, ao invés da figura feminina, tem-se um homem que busca se encontrar ao revisitar seu passado. Ele procura entender como fora sua vida ao viajar para receber um prêmio. Com a morte de Bergman, é impossível não relembrar do filme e usar o mesmo como uma certa revisão da ordem do diretor.

O tempo é lento e imensurável – visto no relógio sem ponteiros em uma das cenas -, a câmera, muitas vezes fixa, contempla as ações do personagem de Victor Sjöström (o diretor e ator sueco é uma grande referência de Bergman). É uma viagem freudiana para se explicar o homem – até porque existe o componente onírico para a construção imagética dentro do filme. O sonho do personagem com a própria morte traz o questionamento do quão a vida passa despercebida. Tudo é enquadrado e montado para dar ao filme um tom fúnebre e de solidão. Mesmo nas câmeras subjetivas temos a impressão da angústia daquele personagem que se encontra em fase de encontro temporal e físico. Há um eterno conflito pessoal e de relação com as pessoas, de compreensão existencial do médico que vê sua vida orientada e garantida apenas por aquela viagem. O clima é, sim, de uma marcha final, de uma finitude próxima.

Se em O Sétimo Selo, Max Von Sydow joga xadrez com a Morte, em Morangos Silvestres, Bergman não encontra o adversário para o jogo. Há uma procura constante, uma explicação existencial para a vida – e que lhe dê suporte. Explicação essa que, de certa forma, Bergman sempre buscou mesmo sem a certeza e a vontade exata de encontrá-la. Foi em um desses dias de uma vida longa que ele encontrou a morte. O tempo passa devagar para o sueco. Bergman compreendia muito bem a força do tempo e, ao longo de toda a vida, fez das articulações do cinema uma alternativa de driblá-lo, mesmo que um dia soubesse que moveria a peça errada e seria vencido.

A Noite de Antonioni

“Almejo mergulhar
Na solidão e no silêncio,
para encontrar-me
e despojar-me de mim,
até que a Eterna Presença
seja a minha plenitude”

O trecho do poema Mergulho, de Helena Kolody, diz bastante da obra de Michelangelo Antonioni. O diretor italiano buscava a reflexão da existência através da poética da imagem e o silêncio e a solidão de cada plano.

“Anos e anos; os fios das estações
atavam-no aos seus nós com a corda da morte
enquanto o silêncio lhe assinava a boca.
Porque fugia entre gritos e alaridos,
da mão que golpeia a mesa faminta no centro da alma.
E em todas as coisas e em todos os homens
O signo da morte que reluz na sombra.”

O poema Homem Massa, do poeta argentino Luis Benítez, corrobora um cinema que se propunha a ir além do discurso do próprio roteiro e imagem, mas sim fazer destes o mote para se filosofar as questões da existência. O cinema de Antonioni traz sempre a reflexão dialética de que nunca se pode discutir a vida sem falar da morte, ou mesmo discursar sobre a presença sem falar da solidão, do amor sem o sofrimento. A estética de cada plano aberto, a poesia da imagem e as articulações recursivas da diegese de cada filme se propunham a essa poesia representativa do homem.

Uma visão bastante simplista coloca Antonioni como o cineasta do tédio, principalmente pelo chamado tempo morto no cinema que ele articula nos filmes da trilogia homônima da qual faz parte A Noite. É muito pouco reconhecê-lo simplesmente por isso, há ali muito mais que somente a questão do tempo. O tema central é o conflito conjugal do casal vivido por Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni. Em uma única noite eles vivem vários sentimentos diferentes, passam da angústia ao desejo, do ciúme ao perdão. Outro simplismo está em afirmar Antonioni como o cineasta da solidão. É evidente a solidão de ambos os personagens, mas não reside só nesse fato a grandiosidade da obra, mas sim de como tudo isso é elaborado pelo diretor italiano.

Antonioni talvez tenha sido o cineasta que mais bem tenha sabido fazer dos espaços e da fotografia algo que realmente estivesse em profunda consonância com a mise en scène, ou como já afirmava Bazin, que fizesse parte e articulasse essa mise en scène. Antonioni, em A Noite, enquadra Moreau quase sempre fora de uma ação central, como se ela estivesse fora daquele mundo, realmente em um estado pleno de solidão, mesmo que acompanhada. Seu olhar fúnebre é realçado por uma câmera que, a todo instante, se infiltra pelos cantos de uma casa onde acontece uma festa e que ao mesmo tempo, por seu tamanho enorme, é silenciosa e monótona.

Marcello Mastroianni se mostra uma pessoa segura quando acompanhada, mas sempre, em seu íntimo, é retratado como alguém que é fraco – assim como é puramente humano ser fraco. A casa possui uma característica dúbia de estar ao mesmo tempo cheia de pessoas, mas com um ar vazio e solitário. Cada personagem vaga ali como uma alma sem destino, sem sentido; todos percorrem aqueles espaços à procura de algo que nem mesmo sabem o que é. As cores são frias, a fotografia demarca o sentimento de cada personagem, principalmente os de Lídia (Moreau), sempre com uma áurea depressiva e desesperançosa.

É fácil demonstrar a eficiência da câmera através de virtuose, por movimentos arrojados e surpreendentes. Não existe nada contra isso, desde que esteja em acordo com a própria forma fílmica proposta ali – o próprio Antonioni faz isso (e muito bem) em Passageiro: profissão repórter. O mais difícil, entretanto, é articular um filme pelos pequenos detalhes. A genialidade reside aí, sem sombra de dúvidas. Em A Noite, cada variação de um plano aberto para um plano fechado não é gratuita, pelo contrário. Há um conjunto articulado com todo o restante da mise en scène que visa o estabelecimento de um sentido de um grito que a todo instante é silenciado e de uma solidão tão obscura como aquela noite.

Mesmo após o diálogo final de Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni, há ainda uma solidão de ambos os personagens que parece ter sido sentenciada com a própria vida – uma característica humana de sempre se encontrar presa a pensamentos quando em silêncio. Antonioni era capaz de fazer desse silêncio e do tempo os versos de suas poesias cujo lápis e papel eram substituídos por algumas luzes e por uma câmera.

Curiosamente, Antonioni morreu durante uma noite – geralmente um horário mais fúnebre e angustiante. Já Bergman morreu pela manhã, horário no qual o dia começa juntamente com a vida. Ambos morreram no mesmo dia e em idade avançada, idade essa em que as pessoas tendem a pensar em tudo o que fizeram durante a vida. Jorge Luis Borges certa vez disse que se vivesse novamente, gostaria de cometer mais erros. Não sei quantos erros cada um dos dois cometeu durante a vida, mas seus acertos com certeza já vi bastante e nunca me cansarei de revê-los.

Filmes citados:
Passageiro: Profissão Repórter (Professione Reporter, 1975/Michelangelo Antonioni)
O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet, 1956/Ingmar Bergman)
Morangos Silvestres (Smultronstallet, 1957/Ingmar Bergman)
A Noite (La Notte, 1961/Michelangelo Antonioni)

Poemas citados:
Mergulho (Helena Kolody)
Homem Massa (Luís Benítez)