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por Leonardo Amaral
Kinatay, de Brillante Mendoza
por Leonardo Amaral
Esta minha primeira experiência cannoise já me mostra que o cansaço pode interferir bastante, principalmente em um dia em que vi vários filmes e escrevi sobre tantos outros, além de cruzar a orla da cidade para pegar sessões da Quinzena dos Realizadores. Não sei até que ponto isso pode ter interferido em Kinatay: muito, talvez nem tanto, mas uma certeza é a de que o filme precisaria de uma revisão, quem sabe em um outro momento que não a de uma última sessão de um dia realmente fatigante.
Penso que o final da sessão do filme de Brillante Mendoza diga um pouco sobre as questões que passam pela análise de kinatay: um grande silêncio, ausência de comentários, condizentes um pouco com minha não-relação ao filme. A câmera ágil e na mão que se infiltra entre as pessoas, invade o cotidiano filipino, a profusão de sons, algo pode ter me retirado dele. Ao mesmo tempo, o debate com a imprensa hoje me devolveu algumas questões que ontem ficaram nebulosas.
Brillante Mendoza parte de um fato social, uma realidade recorrente de violência nas Filipinas, dos assassinatos brutais, para construir seu longa – algo dito na entrevista coletiva. Provavelmente essa forte presença da realidade, uma câmera por vezes documental, que se mistura à diegese, por vezes mais choca que necessariamente instiga. E à medida que os contornos violentos vão ganhando a cena, há uma possibilidade de se dizer que existe uma perda da expectativa, do medo, caros ao horror. Ao mesmo tempo, o choque é inevitável, e o aprisionamento à realidade torna-o ainda mais impactante. Ou ele vai tirar completamente o espectador, ou vai pegá-lo fortemente. Elucubrações de efeito que, cinematograficamente pouco interessam, mas que, sem deixar de sê-lo, podem dizer da própria estética de Kinatay, da iluminação praticamente todo o tempo subexposta que implica em uma falta de referências, contribuindo para um estado seja de pânico, de falta de conforto, de desconhecimento.
Um filme sujo, isso é inegável. Bem provável que por isso, suas cenas mais interessantes, as que realmente pegam o espectador pelo pé, desorientando-o, sejam as do carro e da estrada. Ao contrário, as que seguem dentro da casa, das violências físicas, sexuais e psicológicas, seguidas do escortejamento, são bem mais o choque do que propriamente uma tensão – melhor refletindo, é possível sim pensar o filme como exemplar de horror, por mais que Mendoza não o reconheça totalmente como filme de gênero, e eu também não o tenha percebido tanto assim durante a sessão.
*Visto no Festival de Cannes 2009.
Filme Citado:
Kinatay (idem, 2009 – Brillante Mendoza)







