por Leonardo Amaral

Jean Rouch e o olhar sobre o outro

rouch

No início da década de 60, Jean Rouch fez uma série de doc-reportagens na Costa do Marfim, sob encomenda de um centro de pesquisa africano que tinha como intuito estabelecer uma espécie de olhar sobre as atividades socioeconômicas no país. Em Abidjan, Porto da Pesca, o contraponto entre um tipo quase artesanal pesqueiro ao desenvolvimento de novas técnicas para aumento da produção; já O Coqueiro e A Palmeira mostram a importância dos dois na economia e na sociedade costa-marfinense. A África e a Pesquisa Científica é uma espécie de compilação dos outros três filmes, síntese e conclusão sob os diversos aspectos e desenvolvimentos presentes no continente africano. À primeira vista, são apresentações dessas nuances e, em suas camadas mais internas, ambigüidades da construção de um olhar.

 

Em sua narração em off, uma espécie de visão colonizadora, de cima para baixo, do conhecido para o exótico, daquele que detém o conhecimento e necessita passá-lo àqueles que ainda não o têm, ou o possuem de maneira incompleta. É, sobretudo, a presença de um olhar institucional, pois vale lembrar que, em um primeiro momento, os filmes só existem a partir desse impulso. No entanto, as imagens parecem negar aquilo que as palavras querem construir. A câmera de Rouch não está em uma posição de distanciamento, ela se insere, seja nos barcos de pesca, seja em meio a plantação de milho, palmeiras e coqueiros. Ela está de frente aos olhos das crianças que cantam e tenta, mesmo ao seu modo, mesmo diante de suas impossibilidades, adentrar aquele universo cantado.

 

As imagens são, por vezes, de surpresa, descoberta, encantamento para além das palavras narradas, da descrição física. O próprio Rouch fala ao espectador, mas o que está na tela não é necessariamente aquilo que ele apresenta, o conteúdo imagético avança enquanto as palavras restam, o discurso institucional nem sempre se vincula. Enquanto se discursa sobre o desenvolvimento de novas tecnologias de pesca, o que vemos é o velho método a ser empregado, a câmera está nos velhos barquinhos. Perdemo-nos em meio aos coqueiros para depois vermos os antigos métodos de se obter o produto importante para a economia doméstica daquelas pessoas que ali trabalham. O discurso oficial, dado por especialistas, mostra-se vazio frente ao que assistimos na tela.

 

De alguma maneira, são resquícios da fabulação encontrada por Jean Rouch em Eu, um Negro e, posteriormente, em Jaguar. A África não é uma visão oficial de fora, mas, sim, a possibilitada por aqueles que realmente conhecem o território por onde transpassam e pelo qual agora transita essa câmera que se coloca segura em seu caminho, mas que se surpreende sempre com aquilo que decide a captar. Jean Rouch faz, propositalmente ou não, um experimento de negação oriundo de uma imagem que, acima de tudo, discursa de forma extra-oficial.

 

Filmes Citados:

Abidjan, Porto de Pesca (Abidjan, Porte de Peche, 1962 – Jean Rouch)

O Coqueiro (Les Cocotiers, 1962 – Jean Rouch)

A Palmeira (Le Palmier à L’huile, 1963 – Jean Rouch)

A África e a Pesquisa Científica (L’Afrique et la Recherche Scientifique, 1965 – Jean Rouch)

Eu, um Negro (Moi, un Noir, 1958 – Jean Rouch)

Jaguar (idem, 1967 – Jean Rouch)