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por Leonardo Amaral
A Mãe e a Puta (La Maman et la Putain)

La Maman et la Putain é o cinema que coloca em questão o próprio filme, que se envereda por caminhos que não necessariamente sabe onde vão dar. Em François Truffaut, Jean-Pierre Léaud é cinema em primeira pessoa. Jean Eustache constrói um Antoine Doinel em terceira pessoa, coloca a câmera distante e, quando opta pelo primeiro plano, o faz de tal forma que o que vemos é um personagem dúbio, não necessariamente interiorizado, particularizado; Eustache filma duras formas de existência.
Ele aposta no duplo, o filme do filme, relações vazias de uma existência ingênua no amor. La Maman et la Putain é um filme sobre as impossibilidades do amor e as consequências da paixão. Alexandre (Léaud) conhece Veronika (Françoise Lebrun), mas ainda vive com Marie (Bernadette Lafon), com a qual divide o apartamento e a cama. Veronika é inviável, uma impossibilidade; Marie, um desconforto cômodo. O retardo nos cortes e, portanto, os longos planos, dizem diretamente de uma encenação de vida; em sua primeira camada, o filme é uma mera representação de sentimentos. Adentrando um pouco mais, Eustache nos oferece o cinema como única possibilidade para que aqueles corpos existam: não por menos, o personagem principal muitas vezes rejeita a sua vida para justificar seus atos pelo próprio cinema; ele nada mais é do que uma compilação de personas cinematográficas e só existe por essas que são por ele compiladas.
Alexandre está com Veronika ao lado do Rio Sena, e ambos estão de costas. Discutem um relacionamento que já nascera condenado, a conversa se dá no escuro, os pequenos contornos são propiciados pela luz que vem dos postes de iluminação de Paris ou, por vezes, pelo bateau mouche que transita pelo canal. Dois movimentos caros a esse cinema aqui empreendido por Jean Eustache: o discurso está também na palavra (no cinema, ele nem sempre é vernacular), o escuro fornece a base para o vocábulo; ao mesmo tempo, o cinema são seus corpos em cena, o cineasta francês nos oferece contornos possibilitados pela luz natural. O filme é seu contato com o mundo, o cinema é possibilidade de enquadrá-lo, ao espectador é reservado o direito de contemplação, mesmo que o diálogo seja filmado de costas, mesmo se fotografia acontece em sub-exposição.
Bernadette Lafon coloca, em uma vitrola, um disco de Edith Piaf. A canção, Les Amants de Paris, na íntegra. Não há cortes, movimentos de câmera, abundância de elementos em cena. Eustache deixa a música invadir o ambiente, colocando a personagem ao canto. O espectador assiste a um plano fixo no qual os pequenos detalhes dizem tudo sobre a cena. Lafon escuta, em estado quase extasiado, à música de Piaf, que fala dos amores da capital francesa como fonte de suas canções – Jean Eustache fala de processo, do filme que se constrói. A atriz leva as mãos ao rosto, o choro é contido: o cineasta descontrói, fala de fragmentos sem um único corte. La Maman et la Putain é o cinema em sua superfície, que não é narrado, mas substancialmente mostrado. O filme o é em cada um de seus planos, em seus pequenos movimentos-ações, na palavra-melodia que é o fundamento narrativo, ao contrário de mero preenchimento cênico.
Cinema, lugar da encenação: Jean-Pierre Léaud e Jean-Noël Picq. O encontro fortuito, em um bistrô, é o abandono temporário da narrativa para a importância única da cena. Picq é não só admirador fascinado de Offenbach, como também confunde a sua vida com as óperas do compositor – assim como Léaud o faz em relação ao cinema. Eustache coloca à mesa cinema e ópera para falar da vida. Mas, para fazer isso, ele encena a própria vida, interrompe a realidade para a criação de um momento. Os dois se cumprimentam, conversam e se despedem: Eustache devolve o cinema ao real.
Alexandre e Veronika caminham pela rua, falam do sofrimento que é se relacionar. Os sons da rua invadem a cena, a câmera se confunde e se mistura entre o real e a cena. Alexandre está farto, ele diz uma frase de Michel Simon em um filme: “observe a mulher infiel, olhe o amigo traidor e a grandiloquência um pouco ridícula que precede o sofrimento”. E se despede. A câmera termina seu movimento de travelling para deixar com que os personagens ganhem seu trânsito de fuga. Léaud se perde em meio à profundidade de campo, Françoise Lebrun só tem o extracampo lateral como caminho.
Um filme em que o passado é o próprio cinema, e o presente é a dor da despedida, representados por um rígido enquadramento que insiste em ocorrer para dar ainda possibilidade a essas pequenas existências marcadas sempre por suas tentativas de ser. O final de La Maman et la Putain, com Jean-Pierre Léaud ao chão, é a comprovação de que o cinema é a arte das impossibilidades, por mais duras que essas sejam.
Filmes Citados:
A Mãe e a Puta (La Maman et la Putain, 1973, Jean Eustache)







