por Leonardo Amaral

Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski

por Leonardo Amaral

 

“Nenhum homem de boa formação desejaria a morte de alguém. Se bem que, por outro lado, é um a menos”. Essa frase vem logo após uma seqüência que apresenta o assassinato do empresário dinamarco-brasileiro Henning Boilesen, integrante da Operação Bandeirantes do comando militar de São Paulo e homem afeito a uma torturazinha alheia. Quem a disse: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em entrevista para o ‘documentário’ Cidadão Boilesen. O que se esperar de um filme que não esconde em seu material bruto esses dizeres? Ou que não esconde nada, escancara depoimentos da galera do DOI-CODI seguida da patota da esquerda com o único intuito de construir uma imagem de um homem, sendo que, para essa construção, não tem dúvida nenhuma em falar de um período-dinamite no Brasil: a nitroglicerina explode ao som de uma música que mais parece ser a de um doc-surfing-movie.

 

Se existe um período na história brasileira que não cansa de ir visitar o cinema são os anos ‘dourados’ da ditadura militar. Quase sempre o resultado é um desastre, exatamente por se querer sempre o convencional, por ser meio partidário demais, excessivamente exacerbado; o filme acaba se perdendo até mesmo em sua força política. Chaim Litewski não tem pudor algum em pegar frames, fotos de arquivos, retirá-las de seu contexto para recontextualizá-las no agora: o artifício elimina esse olhar romântico e desproporcional dos dias de hoje, ao passo que também reduz às cinzas o conteúdo datado dos filmes de outrora. Trazidos ao olhar de quem vive o presente, fragmentos de Batismo de sangue ou Pra frente Brasil recebem a roupagem de quem não quer necessariamente reproduzir a história, ao contrário, busca um projeto cinematográfico – logo, nada mais coerente do que sujar com sangue fake algumas fotos da época, ou remontar seqüências desses filmes com um novo som, uma inserção musical que vão beirar o non sense que, de alguma maneira, foi essa época na história nacional. Nada mais estranho que um aparelho de tortura de nome pianola Boilesen.

 

Imagens de arquivo, alterações, o filme-ficção-mockumentary-real de Litewski, como não podia deixar de ser, usa a revelia jump cuts. Técnica renegada pela maioria dos documentaristas, em Cidadão Boilesen ela é essencial na construção desse personagem (ou do país) marcados por diversas ambigüidades, que escondem no sorriso os pensamentos mais sórdidos – como o menino que, em Copenhagen, via os coleguinhas de classe apanharem e que mostrava, no sorriso, a satisfação de ver a cena. Litewski constrói a imagem do rapaz pobre que chegou ao Brasil para se tornar um dos empresários mais poderosos do país. Amante das festas, alegre e com um espírito bem brasileiro – diria um dos amigos de OBAN (Operação Bandeirantes). Esse mesmo palmeirense fanático, passional, amante da miscigenação brasileira, malandro que sustentava duas famílias é o mesmo sujeito que criava e importava objetos para se torturar prisioneiros políticos. O filme é a desconstrução de um cidadão para a representação das incoerências de uma nação e um período.

 

Nos primeiros planos do filme, o diretor entrevista citadinos em relação ao nome da rua Henning Boilesen em São Paulo.  A maioria sequer imagina quem tenha sido, um pouco reflexos de como a história realmente envelhece. Ao final, a pergunta retorna: um senhor responde que Boilesen foi um empresário, presidente da Ultragaz, trocado por alguns prisioneiros políticos durante a época da ditadura. A resposta diz diretamente de Cidadão Boilesen: uma profusão de memória e fatos perdidos em seus meandros.

 

Filmes Citados:

Cidadão Boilesen (idem, 2009 – Chaim Litewski)

Pra frente Brasil (idem, 1982 – Roberto Farias)

Batismo de sangue (idem, 2007 – Helvécio Ratton)

*Visto na 4ª CineOP.