por Leonardo Amaral

Dona Flor e seus dois maridos (2), de Bruno Barreto

por Leonardo Amaral

Na literatura brasileira, Jorge Amado talvez seja o escritor que mais tenha se aproximado da população sem, necessariamente, sacrificar sua escrita: os objetivos diretos eram os de se aumentar o acesso popular sem menosprezar o leitor. Levado ao cinema por Bruno Barreto, Dona Flor e seus dois maridos funciona um pouco nessa mesma chave: uma obra notadamente popular e ao mesmo tempo bem sofisticada em sua elaboração. O filme fala a língua do brasileiro sem, no entanto, cometer erros boçais.

Em um plano, a câmera, em uma grua, sai das ruas onde ocorre um desfile de carnaval para adentrar a janela da casa na qual Vadinho é velado. O movimento diz muito de uma perda da capacidade do cinema brasileiro em utilizar a rua como recurso cênico e não apenas gratuito como na maioria das comédias brasileiras atuais (como, por exemplo, a franquia Se eu fosse você). Ao partir do carnaval, de fora, para invadir a intimidade de um funeral, Barreto consegue nesse plano – como também em  outro um pouco semelhante, no qual a câmera sai do quarto onde Sonia Braga está na nua para ir ao exterior – uma representação imagética do que é o filme: uma espécie de deboche que, muitas vezes, está no não-visto. De alguma maneira, esses dois movimentos são um tipo de síntese do espírito brasileiro, que festeja ao lado da tristeza e exterioriza seus sentimentos nas ruas. O filme lida quase o tempo inteiro com essa relação interior / exterior.

 Dona flor e seus dois maridos possibilita uma reflexão de que realmente algo se perdeu no meio do caminho do cinema brasileiro. Perdeu-se a capacidade do sarcasmo, do deboche, do escancaramento, vivemos hoje um modo pudico de se fazer filmes: filmes obedientes, educados, sem graça. Mesmo com alguns defeitos – os melhores momentos do filme estão com José Wilker, o filme é, acima de tudo, seu personagem, uma encarnação de um espírito brasileiro que está nas ruas, mas não se vê muito mais nas telas -, Dona Flor estabelece alguns paradigmas: o popular não está ligado ao desleixo narrativo, ao cinema do mais fácil, do banal; o cinema brasileiro cria seu público e não os filmes criam um público, nunca se deve subestimar quem está na poltrona de uma sala escura; há diversas formas de representar o povo, bem como existem vários cinemas que podem apresentá-lo.

Alguns dos filmes exibidos na Cineop são esteticamente muito diferentes, mas refletem, de um modo geral, um tipo de representação imagética que o cinema atual e careta no Brasil parece querer negar. Dona Flor e seus dois maridos, Roberto Carlos – 300 km por hora, A ilha dos prazeres proibidos dizem muito mais respeito de uma realidade do país do que, por exemplo, pretensões realísticas como as de Linha de passe – para ficar em um filme recente que faz esse tipo de opção.

*Visto na 4ª CineOP.

 

Filmes Citados:
Dona Flor e seus dois maridos (idem, 1978/Bruno Barreto)
Roberto Carlos – 300 km por hora (idem, 1971/Roberto Farias)
A ilha dos prazeres proibidos (idem, 1977/Carlos Reichenbach)
Linha de passe (idem, 2008/Walter Salles)
Se eu fosse você 2 (idem, 2009/Daniel Filho)