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por Leonardo Amaral
Inglourious basterds, de Quentin Tarantino

por Leonardo Amaral
Inglourious Basterds é, antes de tudo, um filme estranho que, à primeira vista, não faz muito sentido. Não que isso seja um problema, pelo contrário, em determinados casos, pouco importa. Intencional ou não (há comentários que ele pode passar por uma remontagem), isso nem tem tanta importância assim; o novo Tarantino aparece na tela como um cinema que sempre pode surpreender, que não se deixa incorrer em formas, que quer sempre o novo. Inglourious basterds é, em grande parte, Christoph Waltz, Coronel Landa, detetive nazista, o caçador de judeus do III Reich. Na primeira cena, na casa de um francês, por meio de expressões e de um grande timing de atuação - que se mantém durante todo o filme - ele o interroga e a ação dá início a uma sucessão de fatos históricos revisitados à sua maneira por Quentin Tarantino. Nesses primeiros planos, ele se apresenta em francês ao dono da casa, continua falando na mesma língua, e, logo depois, pergunta se ele sabe inglês. Após a confirmação, ele começa a falar em inglês. Solução tarantinesca somente possível graças a agilidade e a multiplicidade do ator alemão. Aliás, nunca se falou tanto em um filme do diretor, em certos momentos ele parece ser uma longa conversa, em especial, em uma cena do bar na qual, só ao final, vemos realmente a ação que se programa todo o tempo.
O universo de Inglourious Basterds é um mundo sem caráter, o exército judeu norte-americano homônimo ao filme e liderado pelo Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) só se difere do comando nazista nos métodos de ataque, tortura e agressão: um de seus atos preferidos é o de escalpelar os inimigos. Não por menos Pitt é conhecido como Tenente Apache. Aqui, enquanto alguns utilizam técnicas indigenas, outros correm atrás de judeus. O filme de Tarantino é do gênero de guerra, como também seria um western, ou mesmo, pelo que se vê mais à frente, uma intriga internacional hitchcockiana ou languiana. Para construir seus plots, Tarantino faz com que uma francesa judia fuja de uma massacre, mas para ligá-la ao grupo dos Inglourius basterds, bom... somente o acaso. E esse acaso é tão tênue quanto uma pluma; na verdade os personagens existem por si só, agem em tela de acordo a instintos e revisões do próprio cinema. Um filme que necessariamente sonha o cinema alemão, de Pabst a Riefenstahl, e desse sonho-pesadelo de guerra surge um Inglourius basterds de muitas filiações (ainda mais que os outros filmes do diretor), e talvez essa multipaternidade exacerbada seja o principal motivador da desorientação.
Depois de tudo isso, melhor mesmo é queimar toda a película, explodir o pesadelo, sem deixar de sonhar. Falar de guerra e falar de cinema são também atos políticos. As marcas podem estar na testa, ou nos corpos, são todos impressões na película. A tela se queima, mas a imagem continua logo após, em outra cena, insiste em sobreviver. Provavelmente, Quentin Tarantino tenha feito seu filme de resistência e não, necessariamente, sua obra-prima.
Filmes Citados:
Inglourious Basterds (idem, 2009 – Quentin Tarantino)







