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por Leonardo Amaral
Le roi d´evasion, de Alain Guiraudie
por Leonardo Amaral
Após a sessão, o amigo Eduardo Valente bem expõs: “Le roi d’evasion é uma ótima resposta a Lars Von Trier”. Se o diretor dinamarquês mostra uma dificuldade imensa de expor as coisas e falta de tato com o humano, Alain Guiraudie adota liberdade e liberalismo total, faz uma comédia escrachada, “sem vergonha”, e com um plano de um homem e um velho em uma cama; diz tudo aquilo que Lars Von Trier só tenta fazer através do choque. Ao contrário, em Le roi d’evasion, tudo é bem natural.
Armand foge durante todo o filme, e essas suas fugas tem diversas razões, sem que, nenhuma dessas seja algo realmente digno (quase em seu sentido biblíco). Bissexual, o personagem corre quase todo o tempo: por ter um caso com uma adolescente de 16 anos, por roubar uma erva (leia-se droga) de conhecidos da vizinhança, como também tenta se livrar de um detetive particular contratado para segui-lo. Com os pudores de uma pornochanchada, Guiraudie, ou melhor, os enquadramentos e cortes do diretor, nos oferece sempre uma situação estranha, improvável, e, acima de tudo, engraçada. Armand não sabe o que quer, muda de ideia por diversas vezes, se envolve até mesmo com o chefe, e, logo depois de pedir férias, sai em fuga com Curly, para também ser caçado pelo pai da jovem. E mais tarde, pela própria garota: em uma montagem em que, durante um travelling, vemos a aproximação certa da moça. Mas o corte resolve tudo: em novo plano, Armand já está escondido, para continuar a fugir. Guiraudie resolve todos os seus problemas filmicos com os artificios do próprio cinema: se Armand e Curly são perseguidos por um helicóptero, bastam que os dois se abaixem, saiam de quadro, para não serem vistos.
Le roi d’evasion constrói suas gags na mesa de montagem e mostra que a elipse é uma das formas mais eficazes de humor. Armand faz proposições sexuais ao patrão: o que a primeira vista seria um insulto, passa, em segundo momento, a uma concordância para, finalmente, em uma elipse, serem mostrados em “trabalho”. Em um bar na beira de uma estrada, um velho senhor sai de um quarto onde estava dormindo: estamos em um plano médio, o corte de cena é um plano detalhe jamais esperado, qual seja, na cueca do velhinho. Se não bastasse todo o jogo de cena de Le roi d’evasion, os diálogos são ágeis e precisos: após alguns dos homens que procuram Armand decidirem seguir um novo caminho (diga-se de passagem, pior) na busca de pistas para chegar ao sujeito, o detetive, com expressão facial irônica que o acompanha em todo o filme, diz: “esportivos vocês?!”.
O grande detalhe a ser dito é: Armand é um cara gordinho que foge quase todo o tempo vestindo apenas uma cueca, por vezes nem ela. Isso já diz bastante do filme de Alain Guiraudie: liberdade total e amoral para falar daquilo que o cinema por vezes se nega (ou teme) mostrar.
Filmes Citados:
Le roi d’evasion (idem, 2009 – Alain Guiraudie)







