por Leonardo Amaral

Werner Herzog: a síntese da ficção documental – parte 3

stroszek

“Em fuga, em uma noite, Bruno entrou em uma estação teleférica abandonada. Era provavelmente novembro. Ele acende a luz, abaixando a alavanca. Durante toda a noite, o teleférico funciona sem razão e fica todo iluminado. De manhã, a polícia pára Bruno. Assim deverá terminar a história.” O fragmento é uma descrição do próprio Herzog, extraído de uma edição de 1979 de Sur le chemin de grace e que diz respeito a esse final de Stroszek. 

 

Essa cena, de alguma forma, funciona como uma espécie de síntese de todo o cinema feito pelo diretor alemão. Bruno S. não é um ator profissional, mas contracena com Eva Mattes, atriz. O cenário do filme é tudo aquilo que se desfaz: em Stroszek tudo é efêmero, fabricado, como a casa que chega, já pronta, trazida por um caminhão, e, da mesma maneira, é levada de volta. A principal característica do cinema de Herzog talvez seja esse eterno deslocamento, uma câmera inquieta, que percorre espaços em busca de respostas para encontrar sempre novas perguntas. Os filmes quase sempre se iniciam de cima, em seu sonho de Icarus, para, posteriormente, chegar ao homem e observá-lo, interpretá-lo de frente, deixar com que os personagens falem, se expressem, com uma opção de retardo do corte, expressão de um cinema que quer sempre um pouco mais, que não teme o imprevisto, o exagero, o erro, ou o politicamente incorreto – como o macaco que fuma ao final de Ecos de um império sombrio , representação ambígua das imagens que permeiam essa biografia-imagética-mediada dos anos de ditadura de Bedel Bokassa na República Centro-africana: imagem em dúvida, confrontamento entre realidade e ficção, entre representação e fato. 

 

Os personagens de Herzog se repetem, se reconstroem: um dos participantes do campeonato mundial de avaliadores de leilão de gado de How much wood would a woodchuck chuck é o mesmo que vai leiloar a casa de Bruno em Stroszek (que também é o nome do soldado desertor de Signos de vida, primeiro longa do diretor). 

 

E aí voltamos a esse filme de 1976 e ao seu final, descrito pelo próprio diretor. Enquanto Bruno, em uma das cadeirinhas do teleférico, sobe e desce, vemos, na dança dos animais no parque de diversões toda a falta de perspectiva que permeia todo o filme. Stroszek é uma tentativa de fuga da realidade que acaba derrotada por essa. O real é tão forte que se torna inevitável, por mais jogo de cena que possa existir na mediação câmera-corpo. Sim, Herzog dissera, a polícia pára Bruno, o detém. No entanto, o filme termina com o adendo ao que foi dito pelo cineasta em entrevista: não vemos a prisão de Bruno e a galinha, em seu automatismo vigente, não deixa de dançar em seu palco no parque de diversões. Ao contrário, o final não é tal qual descrito por Herzog. Vemos uma cadeia de condicionamentos: os animais, enjaulados, que repetem ações a propósito de atrações, Bruno em movimento contínuo no teleférico, o destino de impossibilidades de Eva, Bruno e Sr. Scheitz, desde o momento em que partiram de Berlim para o Wisconsin. O cinema, mais do que atração, está fadado à realidade, como pode ser visto em todo Stroszek, bem como em toda a obra herzoguiana. Porém, uma realidade que encontra na ambigüidade uma forma de expressão. O filme chega ao fim e o último dos cortes permite com que Bruno continue em fuga. 

 

Filmes Citados:

Stroszek (idem, 1976/Werner Herzog)

Signos de vida (Lebenszeichen, 1968/Werner Herzog)

How much wood would a woodchuck chuck (idem, 1976/Werner Herzog)

Ecos de uma império sombrio (Echos au Einem dusteren Reich, 1990/Werner Herzog)