por Leonardo Amaral

Rien que les heures

rien

Primeiro curta-metragem de Alberto Cavalcanti, realizado em 1926, e que traz, nesse período de avant guarde do cinema francês, uma espécie de passeio de um dândi pela cidade - no caso, Paris. Na primeira cartela do filme uma frase que diz que o que diferencia uma cidade de outra são os seus monumentos. Em seguida, uma sucessão de imagens de Paris, monumentos que se fundem, como se dessa mistura fosse nascer a própria cidade. Em outra cena, pinturas impressionistas vão se contrapondo a obras cubistas, de Renoir a Picasso, de Monet a Dufy, Léger ou Delaunay, visões diferentes de um todo: Paris, em cores e formas, retrato formalista e experimental pintado (ou fotografado, fotometrado) por Cavalcanti.

 

Ele filma os arredores da metrópole- incursão próxima ao trabalho de Atget -, ao mesmo tempo em que, a cada cartela, insere comentários que a princípio funcionariam como a narrativa do documentário, mas que, é bem verdade, são metáforas que se constroem junto a imagens, contraposições entre belas paisagens parisienses com seus lixos, ratos e pessoas à margem. Um documento sem qualquer tipo de glamour. Não existe um sentido de denúncia, nem de horror ou mesmo piedade, mas um olhar sobre o que nem sempre é visto, o que faz, talvez, uma cidade se parecer com outra. Cavalcanti modifica o posicionamento da câmera, que passa a olhar para o que está no canto, o que estaria no fora de campo mas que agora é reenquadrado para que o anonimato ganhe a tela, para que a cidade seja ela toda personagem e cenário.

 

Rien que les heures, nada mais do que horas, os vários ponteiros que se sobrepõem e muitos dos planos do filme são a revelação de um olhar que vai descobrindo e constando coisas. A sinfonia urbana de Cavalcanti é bem menos monumental que a de Ruttman, ao passo que é tão plural quanto. Ao realizar várias fusões, ao levar a câmera para as ruas, ao seguir os passos de uma velha senhora que tropeça a cada rua, ao vasculhar o lixo e só encontrar os ratos que ali residem, como as avenidas e marquises que são residência para personagens anônimos, o filme revela uma Paris de desconhecidos, que, no entanto, e como os planos de monumentos como Torre Eiffel ou Bastilha, não vão nunca deixar de negar que estamos em Paris, mas que essa mesma cidade, multifacetada, é igual a tantas outras. E é nessa igualdade que talvez as grandes metrópoles pulsam, essas poucas horas do nada são a constatação descrita por seus monumentos, mas que também se inscreve por seus documentos urbanos anônimos que percorrem sempre ao lado e por vezes são colocados de frente (da câmera).

 

Filmes Citados:

Rien que les heures (idem, 1926/Alberto Cavalcanti)