- “Mulher à Tarde”, “Os Residentes” e “O Céu Sobre os Ombros”: Des-Ordem de representação como crise da identidade
- Bruna Surfistinha e os limites da obscenidade
- Os desdobramentos do corpo e a política na presença: Passe Livre e a obra dos irmãos Farrelly
- A política da juventude: entre a utopia do caminho e a imagem utópica do pensamento singular
- Afinal, onde está o cinema brasileiro?
- A verdade da memória e a escritura do tempo: a trilogia da Ilha de Coudres
- Dos procedimentos do cinema direto de Wiseman à imagem cínica: quando o cinema vira telejornal e o telejornal incita um cinema precário
- Viagem ao princípio do mundo, de Manoel de Oliveira
- Vale Abraão, de Manoel de Oliveira
- Rogério Sganzerla em seis tempos: “Informação H.J. Koellreutter”, “B2”, “Documentário”, “Irani”, “Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica” e “Linguagem de Orson Welles”
- A Bela Intrigante: o quadro sempre como o limite
- As marcas do passado e o olhar embaçado do futuro: a obra de Lucian Pintilie
- “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert
- A imagem da alteridade: “A Falta Que Me Faz”, “Pacific”, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” e “Morro do Céu”.
- O cinema de artifícios de Martín Mainoli
- Distrito 9: entre os desvios e a autenticidade
- Câmera-olho do delírio cotidiano: o cinema de Martin Scorsese
- Almoço em Agosto
- O Pornógrafo: hora de mudar as regras, vamos colocar as cartas na mesa
- Marguerite Duras: construção / destruição do cinema

por Leonardo Amaral
Rien que les heures

Primeiro curta-metragem de Alberto Cavalcanti, realizado em 1926, e que traz, nesse período de avant guarde do cinema francês, uma espécie de passeio de um dândi pela cidade - no caso, Paris. Na primeira cartela do filme uma frase que diz que o que diferencia uma cidade de outra são os seus monumentos. Em seguida, uma sucessão de imagens de Paris, monumentos que se fundem, como se dessa mistura fosse nascer a própria cidade. Em outra cena, pinturas impressionistas vão se contrapondo a obras cubistas, de Renoir a Picasso, de Monet a Dufy, Léger ou Delaunay, visões diferentes de um todo: Paris, em cores e formas, retrato formalista e experimental pintado (ou fotografado, fotometrado) por Cavalcanti.
Ele filma os arredores da metrópole- incursão próxima ao trabalho de Atget -, ao mesmo tempo em que, a cada cartela, insere comentários que a princípio funcionariam como a narrativa do documentário, mas que, é bem verdade, são metáforas que se constroem junto a imagens, contraposições entre belas paisagens parisienses com seus lixos, ratos e pessoas à margem. Um documento sem qualquer tipo de glamour. Não existe um sentido de denúncia, nem de horror ou mesmo piedade, mas um olhar sobre o que nem sempre é visto, o que faz, talvez, uma cidade se parecer com outra. Cavalcanti modifica o posicionamento da câmera, que passa a olhar para o que está no canto, o que estaria no fora de campo mas que agora é reenquadrado para que o anonimato ganhe a tela, para que a cidade seja ela toda personagem e cenário.
Rien que les heures, nada mais do que horas, os vários ponteiros que se sobrepõem e muitos dos planos do filme são a revelação de um olhar que vai descobrindo e constando coisas. A sinfonia urbana de Cavalcanti é bem menos monumental que a de Ruttman, ao passo que é tão plural quanto. Ao realizar várias fusões, ao levar a câmera para as ruas, ao seguir os passos de uma velha senhora que tropeça a cada rua, ao vasculhar o lixo e só encontrar os ratos que ali residem, como as avenidas e marquises que são residência para personagens anônimos, o filme revela uma Paris de desconhecidos, que, no entanto, e como os planos de monumentos como Torre Eiffel ou Bastilha, não vão nunca deixar de negar que estamos em Paris, mas que essa mesma cidade, multifacetada, é igual a tantas outras. E é nessa igualdade que talvez as grandes metrópoles pulsam, essas poucas horas do nada são a constatação descrita por seus monumentos, mas que também se inscreve por seus documentos urbanos anônimos que percorrem sempre ao lado e por vezes são colocados de frente (da câmera).
Filmes Citados:
Rien que les heures (idem, 1926/Alberto Cavalcanti)







