por Leonardo Amaral

A aula de sanfona (e de cinema) de Mestre Inácio

por Leonardo Amaral


Gostar de ver filmes é uma coisa, amar o cinema é outra e entender e analisar essa arte é ainda mais diferente. Posso dizer que aprendi a ver e gostar dos filmes com meu pai, na nossa velha televisão de vinte polegadas dos anos 80/90, vendo western e aprendendo a gostar do cinema clássico. Amei o cinema pela primeira vez aos doze anos quando vi, de uma tacada só, em um mês de estaleiro após uma cirurgia, Táxi Driver, Barry Lyndon, Carrie, a estranha e Laranja Mecânica. E, comecei a entender os meandros do cinema, suas peculiaridades e particularidades, quando ganhei, em 2002, o livro Folha conta 100 anos de cinema com textos de Glauber Rocha e Inácio Araújo, dentre outros. É claro que este meu breve histórico cinematográfico é irrelevante e só escrevi esse blábláblá todo para chegar a falar que foi com grande curiosidade que fui ver, pela primeira vez, Uma Aula de Sanfona, de Inácio Araújo.


O resultado foi positivo, Uma aula de sanfona é um filme dos esconderijos, sejam eles de cunho sentimental, sexual, repressivo, repugnância e imagético. Logo em seu primeiro plano vemos da nossa janela, uma câmera nada indiscreta, um prédio com suas várias ações paralelas. Vemos o que os personagens não podem ver e, desde já, sabemos que tudo que, a partir daí acontecer, será uma grande surpresa, ou, até mesmo, uma grande ironia em relação aos questionamentos e arrogância humanos.


Após a apresentação do ambiente diegético, a câmera nos leva até o quarto do casal que se encontra em plena volúpia sexual. As cortinas se fecham e agora podemos compreender as fantasias de uma Nancy que gosta de apanhar, mas que ao mesmo tempo, em seus transtornos bipolares, quer dar fim a tudo. A mesma Nancy que, após ter verdadeiro asco pelo vizinho sanfoneiro, vai se entregar a ele, mesmo após o descobrimento de seu caso de pedofilia. Inácio desmonta, a cada plano, a idéia que temos em relação aos personagens, o que faz com que tomemos um tapa na cara devido a essa espécie de perversão existente em todo aquele jogo confinado naquele pequeno espaço. Rimos das situações esdrúxulas e estranhas, mas nos chocamos por causa dos nossos conceitos e vivência moralista.

Os personagens são volúveis assim como também o somos. Da mesma forma como também somos mentirosos e que escondemos muito bem aquilo que é condenável. No plano final, a câmera segue Nancy, somos guiados até o apartamento do sanfoneiro e percebemos que toda a música que sintetizou toda a narrativa é na verdade oriunda de um disco. Estamos diante da mentira, do homem que esconde no quarto seu segredo condenável. Mesmo descobrindo tudo em relação a isso e ficarmos chocados, agimos tal qual Nancy e não conseguimos nos livrar da nossa perversão. Essa é a grande ironia do filme e é por ela que a maioria do público saiu do cinema em misto de choque e acusação. Foi como ler uma velha coluna de Inácio Araújo no jornal, cheia de excelentes idéias em um espaço pequeno. Curto como o tempo e pequeno como o apartamento daquele prédio.

 

*Visto na 1ª Mostra CineBH.


Filmes Citados:

Uma aula de sanfona (idem, 1982/Inácio Araújo)

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1968/Stanley Kubrick)

Barry Lyndon (idem, 1975/Stanley Kubrick)

Carrie, a estranha (Carrie, 1976/Brian De Palma)

Táxi Driver (idem, 1976/Martin Scorsese)

Livro Citado:

Folha conta 100 anos de cinema (Org: Amir Labaki, 1995)