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por Leonardo Amaral
Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais
por Leonardo Amaral
Castelar e Nelson Dantas no país dos generais apresenta uma forma cinematográfica sem grandes precedências ou semelhanças com qualquer outra obra feita no cinema, pelo menos não que eu tenha visto. Tem sido denominado docu-drama, sendo que o próprio Carlos Alberto Prates Correia, em entrevistas, fez questão de afirmar que a denominação, além de feia, não condiz muito com aquilo que ele realizou. Não, acredito que esse não seja um documentário, ou, pelo menos, não dentro dos conformes dos documentários tradicionais ou mesmo nos mais imaginativos. Também não é uma ficção: o filme parece não querer se guiar por qualquer tipo de linha condutora, ao contrário, ele faz questão de transgredir todos os limites que existem entre realidade, ficção e documento. Se João Moreira Salles, em Santiago, construiu seu documentário a partir do filme que não fez, Prates fez uma espécie de inversão e parte de todos os seus filmes já realizados, mais um bocado do que viu no cinema, para construir um cinema do “eu” – não necessariamente egocêntrico, mas bastante particular e por vezes de difícil acesso.
Carlos Prates promove o suporte de sua memória afetiva através das imagens que ele concebeu ou viu durante a vida. Recorre ao cinema para buscar – possibilitado por uma visão lacaniana – a expressão de um “eu cinematográfico” que evoca o passado com muitos objetivos implícitos e misteriosos – principalmente por se tratar de um filme bastante pessoal que pretende desvendar um pretérito que ao mesmo tempo é nostálgico, mas também é visto com cargas de ironia. Prates monta seu quebra-cabeça pessoal por meio de imagens dos filmes que fez durante toda a carreira, além de outros filmes que fizeram parte de sua vida de alguma forma – estão vários filmes de Joaquim Pedro de Andrade, como O Padre e a Moça, Os Inconfidentes, O Aleijadinho – obras que marcaram a cinematografia mineira -como também Bang Bang de Andrea Tonacci e Canto da Saudade de Humberto Mauro – sem contar as influências do western metonimizados pela figura emblemática de John Wayne, registrado em primeiro plano em foto. As imagens desse registro histórico do cinema brasileiro se combinam com encenações de passagens da vida do diretor, junto a citações de jornais, revistas e livros da época – junto às anedotas dos fatos que ocorreram em várias fases da vida do cineasta – tudo dentro de todos os períodos em que, de uma forma ou outra, o cinema brasileiro se encontrava ameaçado por alguma coisa qualquer dentro de um desses contextos.
Castelar e Nelson Dantas no país dos generais é, acima de tudo, um filme de difícil análise impressionista e rápida por, principalmente, se tratar de uma obra de grandes complexidades fílmicas e por seu caráter deveras pessoal. A compreensão de certos aspectos do filme passa pelo entendimento de muitos dos meandros do pensamento do autor, de suas experiências, sejam estéticas ou de vida – a primeira é passível de estudo e desvendamento (mesmo que em partes), a segunda envolve fatores que estão aquém de qualquer que seja a inferência.
O que é inegável é o fato de o filme ser uma expressão verdadeira de alguém que tem o cinema como fonte inesgotável de questões, sendo possível extrair dele questões humanísticas e estéticas que desafiam os paradigmas da imagem. Serão essas imagens anacronicamente combinadas a construção de espécie de cinema metafísico? Prates, ao estabelecer essa combinação, adentra uma dialética da própria imagem que ao mesmo tempo se revela como lapsos da memória e uma espécie de autocrítica e auto-análise.
*Visto na 1ª Mostra CineBH.
Filmes Citados:
Castelar e Nelson Dantas no país dos generais (idem, 2007/Carlos Alberto Prates Correia)
Santiago (idem, 2007/João Moreira Salles)
Canto da saudade (idem, 1952/Humberto Mauro)
O Padre e a Moça (idem, 1965/Joaquim Pedro de Andrade)
Os Inconfidentes (idem, 1972/Joaquim Pedro de Andrade)
O Aleijadinho (idem, 1978/Joaquim Pedro de Andrade)
Bang Bang (idem, 1971/Andrea Tonacci)







