por Leonardo Amaral

Curtas: "Plano Sequência", "Espeto" e "Um Ramo"

Plano-sequência, de Patrícia Moran

 por Leonardo Amaral

 

Plano-seqüência, artifício cinematográfico do não-corte, da continuidade da ação, da manipulação menor, arquétipo baziniano da realidade filmica, a imagem ontológica. A inversão: em uma cena recortada, ágil, ‘manipuladora’, a morte é construída. O auto-atropelamento, propiciado apenas pelo cinema, pela montagem, pelas possibilidades do recorte. Plano seqüência é um monumento póstumo ao próprio cinema brasileiro da marginalidade, de artesanato ou de garagem. Entre as carcaças de um ferro-velho jaz o corpo, símbolo pleno de um cinema sem fórmulas prontas, inventivo, ‘experimental’. O corpo é de Rubs, uma espécie de alter-ego de Paulo César Pereio, que funciona como a própria presença desse cinema.

 

“Minha vida foi uma merda tão grande que, mesmo depois de morto, ainda virei curta-metragem”. Machado de Assis já havia mostrado na literatura que ao morto é permitido qualquer tipo de despudor. Patrícia Moran constrói um filme-negação: a cada aparição na tela, desde o teórico que analisa a obra de Rubs aos transeuntes que param, observam e comentam a morte do ator, temos, em seguida, uma ironia, uma distorção cínica, um falso testemunho por parte de Pereio. A estrutura propositalmente desritmada (o que vai de encontro ao próprio ritmo de um plano-seqüência) e a presença física de Pereio funcionam como o retrato da própria desordem, uma espécie de Cidadão Kane às avessas, pois, a cada relato e a cada aparição de Rubs temos a negação e a desconstrução do próprio autor.

 

Uma ‘vida de merda’ que virou curta-metragem, uma falsa despretensão que consegue traçar um auto-retrato do cinema brasileiro fora dos circuitos, fora das lógicas narrativas e capitalistas, desprendido de fórmula. Para esse cinema, um curta-metragem que nega o próprio nome, que não se prende a nada. Para esse curta-metragem, Rubs, Paulo César Pereio, a cara e alma desse tipo de cinema, feito, como deve mesmo ser, no meio de um ferro-velho, dentro do caos.

 

(em sua coluna, Fora de quadro, Nisio Teixeira aborda o curta-metragem em texto sobre parte da obra de Patrícia Moran)

 

 

Espeto, de Guilherme Marback e Sara Silveira

 

Por Gabriel Martins

 

Espeto, filme de Guilherme Marback e Sara Silveira, homenageada da mostra, constrói toda sua narrativa em torno da disputa de um garçom de um restaurante peculiar pela ascensão na profissão. Isso significa, para ele, que serve lingüiça, servir o espeto de picanha. Para isso, não se medirá em matar quem se colocar no seu caminho para o topo.

 

Mais que sua narrativa, que se constrói de forma satisfatória, o grande atrativo do curta é uma visualidade que busca extravagância nos figurinos, na fotografia (de Carlos Reichembach) e na direção, que não quer esconder em nenhum momento a sua aparência B. E na diversão claramente visível na forma de contar sua história, Espeto certamente se estabelece como uma proposta criativa, que não vê na limitação de sua história uma limitação na forma de representá-la imageticamente, que consegue tornar o todo bem interessante.

 

Um Ramo*, de Marco Dutra e Juliana Rojas

por João Toledo

 

Embarcando no universo cinematográfico de Marco Dutra e de sua constante colaboradora Juliana Rojas, encontra-se uma imensidão a ser explorada; um espaço de detalhes e minúcias inesgotáveis e de recorrências de forma, estilo, ritmo e tema. É um embarque imperativo, uma quase imposição das circunstâncias, uma injunção urgente de um cinema que merece atenção e avaliação ou mesmo algum tipo de reiteração de seu mérito majestoso.


Em Um Ramo, a incomunicabilidade no núcleo familiar continua sendo central na narrativa, com sua personagem feminina que, na incapacidade de lidar bem com as questões que a acometem, esconde-se cada vez mais em si, como se aceitasse, em estado de depressão oculta, a pena que lhe é aferida. No entanto, ao mesmo tempo em que a personagem esconde seus sentimentos e suas preocupações, suas ações a entregam, como quando ela procura no filho traços do mesmo problema; ela lida com a afetividade com alguma dificuldade, mas não deixa de ser afetiva.


Há nesse filme uma espécie de resposta da natureza (ou da vida) à conturbada relação que o homem estabelece com a própria existência (algo que chamei de manifestação externa em O Lençol Branco). É como se a interiorização das questões não resolvidas quisesse aflorar na pele da mulher na forma de um ramo, chamando a atenção dela para tudo aquilo que ela tenta ignorar. E não apenas brotando dela, mas envolvendo todo o espaço do filme; está presente no pássaro preso no interior do quarto, no peixe que morre e é trocado, mas continua não se alimentando, na reportagem da baleia gigante encalhada em Marrocos. As situações a cercam ao mesmo tempo em que afloram dela.


O fantástico aqui, presente no enredo de maneira fundamental, não explora o fascínio do absurdo, mas naturaliza-o em meio às situações cotidianas, tornando aquilo um mero acaso; o inverossímil tornado verossímil pela mise-en-scène de retalhos íntimos em tom contido. E nesse filme, especificamente, a dupla de realizadores parece chegar à maturidade narrativa, alcançando um apuro na seleção de cenas que, apesar de muito expressivas, nunca ameaçam a sobriedade dada ao momento retratado. Se avaliarmos filme a filme, as famílias retratadas mostram-se cada vez mais longe de uma solução para aquilo que interrompe a rotina trazendo o inesperado para a realidade; estão cada vez mais despreparadas para o absurdo que as surpreende. E não é uma questão de ter respostas para coisas inesperadas e inexplicáveis, mas de buscar solucionar, de buscar apoio no outro, de aceitar o problema e tentar compreendê-lo ao invés de escondê-lo cada vez mais, como já antes parecia fazer com as pequenas complicações.


Quanto mais a mãe ignora os ramos que crescem da sua pele, mais eles se espalham pelo corpo e emergem, tornando cada vez mais difícil a tarefa de escondê-los. Diante da iminente internação na clínica, Clarice inventa uma viagem à sua doméstica de maneira que não precise revelar a verdade. Em seguida volta ao banho. Ali ela se senta e observa seu corpo, aquelas folhas espelhadas pela epiderme. Ela volta seu olhar para a câmera, tornando-nos cúmplices daquele momento – que parece ser definitivo, uma espécie de aceitação, enfim.

As notas finais, esses últimos detalhes de cada um dos três curtas, apesar se soarem sobre a atmosfera de imenso desalento e aflição, dão um ar de esperança aos três; uma espécie de acolhimento da dor e aceitação do inesperado. São pequenos momentos; pontas de uma possível transformação. São instantes decisivos de transformação pessoal (ou coletiva, no caso do primeiro concerto). E essa abordagem mostra que, apesar do invólucro de morbidez, há uma espécie de investigação dos desdobramentos de uma presença indesejada para que dali se encontre formas, talvez não de resolução, mas de superação do medo da morte.


Entretanto, mais interessante que a temática em si, é a resultante direta da maneira como observam essas temáticas: a forma. O traçado particular da dupla, um traçado minucioso, detalhista, que ao mesmo tempo é seco e intimista, que se faz de uma observação delicada e reservada sem nunca interferir no que propõem as personagens, mostra a segurança de ambos na busca pelo retrato que fazem de um certo cotidiano. Os três são filmes que certamente se completam e se potencializam, carregam de um em um a força que envolvia os projetos anteriores – como costuma acontecer com grandes realizadores. Com Um Ramo, além de alcançarem uma certa maturidade de realização, firmam uma posição de destaque no atual panorama da cinematografia nacional, ajudando a compor, com todas as suas particularidades, a miscelânea venerável que é a paisagem do curta-metragem contemporâneo.


* fragmento extraído da coluna Corte Seco de João Toledo

 ** Texto escrito para a 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Filmes citados:

Espeto (idem, 2006/ Guilherme Marback e Sara Silveira)

Plano sequência (idem, 2000/Patrícia Moran)

Corpo Presente: Beatriz (idem, 2007/ Marcelo Toledo e Paolo Gregori)

Um ramo (idem, 2007/ Juliana Rojas e Marco Dutra)