por Leonardo Amaral

Curtas Série 3: "Um filme de Cao Guimarães", "Eu que nem sei francês", "Pretinho Babylon", "Tira os óculos e recolhe o homem" e "Os filmes que não fiz"

 por Leonardo Amaral

                                                                                                                         
Um filme de Cao Guimarães, de Fábio Carvalho

 

Conta Fábio Carvalho, que ele estava em sua casa em uma tarde qualquer, quando sua sala foi invadida por um besouro. De posse de uma câmera de celular, ele filmou o momento e, instantes depois, montou tudo no Windows moviemaker. E, após terminar o vídeo, de pouco mais de três minutos, telefonou para Cao Guimarães, pela semelhança com seu trabalho como videomaker. Fábio Carvalho trabalha a imaterialidade e plasticidade do vídeo, utilizando, a seu favor, a baixa resolução da câmera usada e a precariedade do próprio programa de edição. É, basicamente, um filme processo, o som e a proximidade com o inseto que se cruza aos elementos da própria sala, como a música que incide no ambiente e os elementos que se encontram no espaço. Um vídeo sobre a própria precariedade da imagem digital, sem qualquer nuance depreciativa, pelo contrário.

 

Eu que nem sei francês, de Erly Vieira Jr.

 

Uma televisão, uma espécie de programa de auditório com Charles Aznavour cantando e um reflexo de uma espectadora no vidro da tela. Erly Vieira Jr estabelece um diálogo entre a imagem e a espectadora, que evolui da admiração à cólera, evolução essa potencializada pelos limites impostos pela barreira entre público e imagem. A mulher interage com o conteúdo, a imagem se distorce e ela traduz, à sua maneira, o francês da canção. A não-interação causa a irritação e a espectadora se comunica, em todo instante, com o que é transmitido. Seu reflexo se funde a própria imagem, montagem no próprio quadro, com uma comicidade ocasionada pela incompreensão da própria língua francesa,  mas também pela própria situação nonsense.

 

Pretinho Babylon, de Emílio Domingos e Carlos Vinícius

 

Partindo de uma estética que, de alguma forma, lembra Jean Rouch, pois Emílio Domingos e Carlos Vinicius usam atores não-profissionais, filmam um material e a dublagem é realizada pelo improviso feito pelos próprios mc’s, personagens do filme. Aliás, um dos pontos de Pretinho Babylon é a de que esses personagens encenam suas próprias vidas, por mais que exista todo um roteiro e uma estrutura narrativa por trás.

 

O filme é uma espécie de musical e narra o percurso de um mc independente que sai às ruas procurando distribuir o seu trabalho. Na medida em que encontra parceiros e pessoas, ele as oferece o disco. A câmera percorre ruas, constrói a realidade desses músicos, que, em grande parte, se dá por meio da própria inserção realizada pelos cantores de reagge. O curta-metragem dá literalmente voz aos personagens, que, por sua vez, constroem, à sua maneira, aquela que eles consideram sua melhor representação. A praticamente ausência de encenação é, ao mesmo tempo, resultado e causa de um filme que faz de sua proposta (bem sucedida) uma espécie de filme-processo.

 

 

Tira os óculos e recolhe o homem, de André Sampaio

 

Esse poderia ser apenas mais um filme-de-ditadura-de-visão-romantizada-e-clichê se não fosse um curta-metragem de André Sampaio – que, em Conceição – autor bom é autor morto, junto aos outros diretores do filme, já mostrara que ao cinema brasileiro uma dose de anarquismo é sempre bem-vinda -, se seu personagem central não fosse Jards Macalé e sua estética não fosse constituída de um certo ‘desleixo histórico’ retratado no próprio tema (prisões aleatórios durante os anos de governo militar) da música de autoria de Macalé e seu ‘cúmplice’ (como pode ser visto no filme) Moreira da Silva. Tira os óculos e recolhe o homem é um filme anárquico em tudo aquilo que a expressão tem de benevolente e significativo, em que,.a todo instante é possível perceba um teor de desordem e de caos.

 

O ano é o de 1977, o crime a melodia “Tira os óculos e recolhe o homem”, fruto do encontro fortuito entre os músicos populares Jards Macalé e Moreira da Silva. O curta-metragem constrói, por meio de enquadramentos inclinados (quase sempre em dutch - em que a câmera é colocada com algum grau de inclinação), referenciais e anárquicos, o fato, em uma narrativa em que Macalé é tema, personagem, ator, compositor e narrador. Em determinado momento, sentado em uma poltrona, trajando uma camisa do América do Rio (o velho e simpático Ameriquinha), o músico carioca relata o ocorrido, em uma transição ficção/documentário, para depois desse instante digressivo, fazer com que nós, espectadores e cúmplices, voltemos à ação do filme. Como na cena citada, Tira os óculos e recolhe o homem não teme ser uma ironia ao próprio período – rompendo com o romantismo idealista da época que é apresentando na maioria dos filmes -, o filme mostra como tudo ali se deu por mero acaso, como acontece com muitas das grandes obras. O curta de Sampaio brinca com a própria figura de Macalé ao mesmo tempo em que faz uma homenagem a esse personagem ‘folclórico’ do Rio de Janeiro: o compositor é o grande símbolo do filme, tanto que toda a ação da mise- en- scène se centra nele.

 

Uma visão descompromissada, sutil e lírica de um período histórico e do próprio Rio de Janeiro e do Brasil, em suas contradições, desorganizações e processos artísticos, em que, uma prisão por engano traz consigo a criação de um samba, meio ao acaso, zombeteiro e malandro: Tira os óculos e recolhe o homem é o retrato disso tudo, para a sorte do espectador.

 

Os filmes que não fiz*, de Gilberto Scarpa

 por Mariana Souto

 

A partir de poucos filmes, já é possível perceber um estilo recorrente dos realizadores ligados à produtora Camisa Listrada e, agora, à Abuzza Filmes. Alguns traços unem nomes diferentes e, apesar das singularidades, vemos a marca do grupo.

 

Os filmes que não fiz parte de uma premissa interessante, que usa de forma criativa as próprias frustrações misturadas com as paixões e anseios de uma classe artística, fazendo uma metalinguagem autocrítica e perspicaz. Há dentro do filme vários gêneros em um, como a opção pelo formato de falso documentário para a narração do protagonista, misturado com episódios de sátiras a romances, dramas sobrenaturais, mas com o tom predominante de comédia. Nas atuações, sobretudo do frustrado diretor, interpretado pelo próprio Gilberto Scarpa, e do Zelvis, um jeito canastrão cativante. O filme, de alto padrão técnico, com fotografia e arte muito bem cuidadas, tem forte apelo popular e agrada o público, mas engancha em algumas piadas fracas e momentos de diálogo pouco inspirados.

 

Em comum com 5 frações de uma quase história, há um toque modernoso e dinâmico, que quase esbarra numa pretensão de esperteza. Contudo, o ritmo episódico e as transições rápidas aqui cabem melhor ao tom cômico de Os filmes que não fiz do que ao longa citado. O filme de Scarpa chega a ter características de prólogo, colagem, o que faz sentido quando se pensa que provavelmente há nele, de fato, fragmentos de idéias que surgiram em tempos diferentes, em contextos diversos. Sendo assim, o curta parece uma amarração de cacos e pérolas de arquivo, com embalagem vibrante e cores que saltam aos olhos – e desviam o olhar de algumas fraquezas.

 

*Texto escrito para o 10º Festival Internacional de Curtas

 

Filmes citados:

5 frações de uma quase história (idem, 2007/ Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia)

Os filmes que não fiz (idem, 2008/ Gilberto Scarpa)

Um filme de Cao Guimarães (idem, 2008/Fábio Carvalho)

Eu que nem Sei Francês (idem, 2008/Erly Vieira Jr)

Conceição – autor bom é autor morto (idem, 2007/Daniel Caetano, André Sampaio, Guilherme Sarmiento, Cynthia Sims, Samantha Ribeiro)

Tira os óculos e recolhe o homem (idem, 2007/André Sampaio)