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por Leonardo Amaral
Desconstruindo Harry Potter
Há no fenômeno de Harry Potter uma pretensão de ser mais do que realmente é, de querer aclamar-se em um patamar que não lhe cabe. Essa tentativa de elevação parte logicamente de muitos leitores da saga do bruxinho. E esses mesmos leitores querem trazer todas essas expectativas para o cinema – muito em conta do fascínio que a imagem acalenta ao homem desde seus primórdios. Para muitos, Harry Potter deve ser trazido à tela grande tal qual está na literatura – a velha discussão sobre literatura/adaptação/cinema, como João Toledo expôs em Corte Seco. As linguagens são diferentes, o texto pressupõe articulações descritivas que são colocadas diretamente através da imagem. Enquanto a literatura suscita a imaginação e faz da simbiose leitor/palavra seu principal mecanismo de interação, o cinema se articula por meio da imagem, que tem a capacidade de sugestão, de enganar, brincar e lidar com a percepção do espectador. As experiências artísticas (literatura e cinema) são completamente diferentes, por mais que essas sejam referenciais. Não há como – e nem se deve – cobrar semelhanças, há coisas que somente cabem à literatura e outras ao cinema. Querer que uma fosse espelho da outra é o mesmo que inferiorizar um em detrimento do outro.
O filósofo francês Alex de Tocqueville, já no século XVIII, fazia o alerta dos males da igualdade em que o fraco tenta trazer ao seu nível o mais forte, em uma vã tentativa de nivelamento por baixo. Os fãs da obra de J.K. Rowling argumentam que o cinema não é capaz suficientemente de dar conta de toda a potencialidade dos livros – possivelmente porque Harry Potter é uma fantasia que funciona muito mais por seus atributos literários (sem entrar no mérito qualitativo, isso pouco importa), mas muito provavelmente por esses mesmos não observarem as características fundamentais de cada filme e de como cada um dos diretores articularam tudo isso. A repercussão midiática de Harry Potter é muito mais interessante do que a própria obra. Discutir o mérito da adaptação do livro para o cinema seria nivelar assaz por baixo; isso é óbvio e completamente fora de questão.
Harry Potter parte de uma miscelânea de lendas, mitologias, fantasias para trazer a simpatia do público e para, de certa maneira, introduzi-lo naquele mundo. É notória a influência de Harry Potter em todo o mundo, principalmente em um público especificamente mais jovem. Em A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta, há um ar inocente (e até certo ponto sincero) e juvenil dado por Chris Columbus. Há ali mais uma tentativa de apresentar aquele mundo fantasioso do que alimentar os conflitos dos personagens – são retratados em uma abordagem apenas necessária para que a narrativa aconteça. Há uma câmera ‘encantada’ com o que apresenta, não muito mais do que isso: são poucas as ousadias de Columbus.
Em O Prisioneiro de Azkaban, Alfonso Cuarón articula a narrativa de forma antagônica à de Columbus. O encantamento dá lugar ao movimento, a um estado performático dos ambientes, há uma mise en scène que a todo instante busca mostrar as inquietações dos personagens e da Escola Hogwarts – são os quadros que se movem e participam da ação, as escadas sem um destino certo. O filme ganha com esse tom misterioso, obscuro, mas perde um pouco no diálogo com o público que não reconhece exatamente o mundo ali criado – como se tudo aquilo, em determinado momento, se tornasse um frankenstein ou uma colcha de retalhos.
Já em O Cálice de Fogo, a narrativa é impregnada de grandiloqüência. Tudo ali é exagerado, são vários os planos abertos, tudo em busca de um espetáculo, entretanto, que acaba se tornando o do excesso. Mike Newel quis dar um tom operesco em momentos nos quais isso não cabe – a dimensão espetaculosa tende a sufocar os personagens, fazendo-os apenas fantoches naquele mundo, coisa que não está em concordância com uma obra com contornos de heroísmo; o herói não deve ser ‘sacrificado’ dentro dessa história. Newel não conseguiu captar o espírito sutil que está presente em todo esse quarto filme do consórcio. Não entendeu muito bem a transição que seria necessária ali e que será retomada somente no quinto longa. Newel parece estar sempre atrás do bonde, parece querer sempre discursar sobre algo que já passou – vide O Sorriso de Monalisa – e nesse Harry Potter ele apenas diz o que já foi dito, a impressão é a de já ter visto esse filme antes.
Finalmente, em A Ordem de Fênix, a maldade chega à franquia Harry Potter. Cuarón prenunciara isso em seu filme, sendo então consolidado por David Yates na atual Harry Potter. Se há um mérito nesse último trabalho, esse é o de abandonar bastante o ar juvenil de outrora e de quebra fazer da maldade a tônica de suspense – agora ela realmente existe – do filme. As inquietações do personagem Harry Potter ganham maior força agora e uma novidade surge em A Ordem de Fênix: a dúvida. Há oscilações de caráter, um certo questionamento de morais e principalmente dúvidas de comportamento. Os personagens agora são mais complexos e isso acarreta uma narrativa quase paralela ao restante dos outros filmes, tanto que esse último é o mais diferente de todos os outros, principalmente pela maldade que impera no ar – Voldemort pela primeira vez ganha a complexidade que em todo momento queria se conseguir, mas que sempre imergia.
Harry Potter deve ser visto pelo fenômeno midiático ao qual se constitui. Seu objeto de análise não se encontra na densidade fílmica, mas sim na repercussão daquilo que é colocado na tela – seus impactos. É aí que residem os principais interesses da obra, que não se está nivelando por baixo, muito pelo contrário, se ganha em complexidades. Querer ver uma cópia fiel da literatura ser projetada é uma tentativa de rompimento com tudo isso.
Filmes citados:
Harry Potter e a Pedra Filosofal (Harry Potter and the Sorcerer Stone, 2001/Chris Columbus)
Harry Potter e a Câmara Secreta (Harry Potter and the Chamber of Secrets, 2002/Chris Columbus)
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisoner of Azkaban, 2004/Alfonso Cuarón)
Harry Potter e o Cálice de Fogo (Harry Potter and the Globet of Fire, 2005/Mike Newell)
Harry Potter e a Ordem de Fênix (Harry Potter and the Order of the Phoenix, 2007/David Yates)







