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por Leonardo Amaral
Amigos de Risco, de Daniel Bandeira*
por Leonardo Amaral
O corpo inerte é o objeto maior e representativo da narrativa entrecortada e ágil de Amigos de risco. Há uma forte recorrência da relação corpo/fardo no cinema – no debate, Marcelo Miranda fez citações de obras como Tragam-se a cabeça de Alfredo Garcia, Gosto de Sangue e Três enterros de Melquíades Estrada -, de como ele infere na própria linguagem do filme. Daniel Bandeira traz o corpo como elemento estético e de linguagem. O baixo orçamento é o cerne de uma discussão que envolve questões narrativas e de plasticidades: o filme recusa uma ordem certinha e contínua, Bandeira dá uma fruição maior ao não se preocupar com elementos de continuidade e raccord e isso dá uma maior liberdade e sinceridade à própria obra, diretamente relacionado às incertezas e falibilidades dos três personagens erráticos.
A proposta estética de Amigos de risco é simples, consciente de suas limitações, o que contribui diretamente para que o filme ganhe em sua elaboração narrativa. A agilidade da câmera na mão, o enquadramento quase sempre inquieto expõe a situação de risco criada pelo corpo inerte. O intervalo temporal é de apenas uma noite, noite esta rica em recriações da cidade de Recife como um local obstáculo. Há uma liberdade poética no tratamento do intermezzo homem/cidade, há uma recriação do espaço urbano como lugar de impossibilidades das coisas serem resolvidas, algo que lembra, de certa maneira, a ‘Nova York enclausurante’ de Depois de Horas, de Martin Scorsese.
Na medida em que os dois amigos carregam o corpo do terceiro pelas ruas de Recife, o caráter do mesmo vai se deteriorando, sua moral se desgasta a cada esquina. Os planos gerais, os travellings laterais, apresentam um corpo que agora pesa mais, o fardo torna-se ainda mais dispendioso. Esteticamente, as impossibilidades dos fatos são retratadas pela articulação de uma mise en scène minimalista – são raros os planos-seqüência e a rigidez do enquadramento -, que prioriza a ação e a situação.
O que seriam defeitos do filme acabam por criar uma unidade entre personagem e espectador, a imagem ‘suja’ dá uma impressão amadora que acaba por nos inserir dentro da própria narrativa e passamos a ser cúmplices dos atos e confissões dos três amigos. A câmera é o elo, o corpo o objeto cênico e a diegese compreende um sentido de não abandono até o final em que o fardo já é suficiente para que a ligação câmera/corpo não mais prossiga. Seguimos, dentro do último plano, junto dos personagens, o corpo permanece inerte e só.
Filmes citados:
Amigos de risco (idem, 2007/Daniel Bandeira)
Depois de Horas (After Hours, 1985/Martin Scorsese)
Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974/Sam Peckinpah)
Gosto de Sangue (Blood Simple, 1984/Joel e Ethan Coen)
Três enterros de Melquíades Estrada (The three burials of Melquiades Estrada, 2005/Tommy Lee Jones)
*Texto escrito na 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes







