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por Leonardo Amaral
A Fotografia, de Nan Triveni Achnas
por Leonardo Amaral
Visto em sua base narrativa, o que A fotografia propõe é um confrontamento entre passado e futuro. Isso fica evidente nos próprios personagens: a cantora de karaokê Sita trabalha com prostituta com o intuito maior de pagar uma cirurgia para a mãe e para viajar ao encontro da filha, enquanto o fotógrafo Johan não consegue se desvencilhar do passado trágico da morte da esposa e do filho. E o diretor Nan Triveri Achnas vai trabalhar todos os elementos possíveis que possam vir a remeter à sua temática fílmica, isto fica claro na própria idade dos personagens (um bastante jovem e outro que caminha para o fim da vida), nos elementos de cena (como as fotografias que se acumulam na parede da casa – cheia de pó e baratas – do idoso), além, é claro, do próprio equipamento antigo utilizado nos registros fotográficos. É nítido o quanto aquela casa cheira – com a licença sinestésica – a passado, ao passo que as ruas, boates e karaokês são um retrato da contemporaneidade, percebida também nas roupas utilizadas pela jovem moça. O filme é o tempo todo essa contraposição, de como saudosismo de um personagem remete diretamente no futuro do outro: cada elemento colocado em cena se empenha na construção do tema de A fotografia.
No entanto, essa construção cênica é bastante frágil e o filme torna-se escravo dela. O filme, até por lidar com essas questões do tempo, acaba, por sua vez, caindo em várias armadilhas narrativas e mesmo de mise en scène. São muitos os exemplos: no início do filme, Sita sofre pressão e é perseguida por um cafetão; em determinado momento, quando a moça começa a estabelecer uma relação mais sólida com o velho fotógrafo, o cafetão não se faz mais necessário e a opção é eliminá-lo do filme, através do artifício da morte (que se dá de maneira abrupta dentro do ritmo do filme até então). Em geral, a maioria das execuções dos elementos narrativos se dá de uma maneira preguiçosa, como no flash back auto-explicativo da morte da esposa e filho de Johan. As fotos e a trilha já reforçavam a dor da perda, já dimensionavam o sentimento daquele homem, mas Achnas se deixa levar pelo clichê, ao intensificar a trilha, de retornar ao passado (em preto e branco) e de colocar em cena tudo aquilo que o personagem narrava em off. Há, quase sempre no filme, um apelo estético melodramático (em seu sentido negativo): a trilha que funciona com elemento dramático conclusivo, as intensas recorrências às ligações telefônicas de Sita para a mãe e para a filha, que somente têm o intuito de reforçar a necessidade que essa tem de arrumar dinheiro o mais rápido possível.
A fotografia é um filme de bula, em que tudo precisa funcionar como justificativa para a próxima ação, sem dar qualquer espaço para o espectador construir o filme: Sita se prostitui porque precisa de dinheiro, e em todo momento é preciso mostrar essa necessidade, assim como as metáforas das fotos são quase sempre bem óbvias. O filme até busca seus momentos mais delicados, mas seus erros de concatenação, que estão diretamente ligados a uma narrativa mal construída acabam por diluir esses personagens, que, por não terem sustentação, se tornam mais rasos.
Filmes citados:
A fotografia (The photography, 2007/Nan Triveni Achnas)







