por Leonardo Amaral

Joy Division, de Grant Gee

por Leonardo Amaral

 

Grant Gee, em seu documentário, não teme em instante algum mesclar o procedimento padrão das cabeças falantes – do procedimento jornalístico de enquadrar a figura que fala, dando grande importância ao discurso -, alguns elementos mais estéticos, que envolvem a manipulação dos constituintes plásticos da própria imagem. E o grande mérito do filme está em não negar, em momento algum, sua intenção principal de traçar a existência da banda, percorrendo seus fatos e obras mais contundentes. Mesmo que tente estabelecer um paralelo com o desenvolvimento da cidade de Manchester – de onde surge o Joy Division -, os próprios depoimentos dos ex-membros vão reforçar o caráter de reconstrução histórica empenhando por Gee. Aliás, talvez uma das poucas coisas realmente sacadas dentro do filme seja esse paralelo entre banda e espaço urbano – existe sim uma ligação entre ambos, isso fica nítido, principalmente pelos relatos dos entrevistados e mesmo pelas letras das músicas, no entanto, a abertura e o final do filme acabam por se mostrar algo um pouco forçado, mas que não chega a incomodar.

 

As falas dos antigos integrantes vão ajudando a construir e a constituir os elementos fundamentais do surgimento da banda pop, além de relatar a convivência, processo produtivo e fatos que culminaram para o destino da banda, como, por exemplo, o suicídio do vocalista, líder e principal letrista da banda Ian Curtis. O diretor intercala as entrevistas com paisagens, imagens de arquivo, fotografias e traços sonoros que fizeram parte da história do Joy Division. Mas, ao mesmo tempo, ele lança mão de artifício de cores, movimentos e distorções dessas imagens que remetem diretamente a uma certa inquietação de uma banda que procurava, em suas músicas, dizer bastante do espaço e do universo que a circundavam.

 

Mas como já poderia se esperar, o documentário acaba por centrar-se bastante em relação a figura de Ian Curtis, menos até por conta de seu destino trágico e seus problemas de depressão e epilepsia e mais pelo seu caráter ambíguo que reforçam o personagem que ele acabou se tornando dentro do universo pop. O filme consegue adentrar, por meio de palavras, mas principalmente pela imagem e pela utilização da trilha sonora, o universo dúbio de uma espécie de poeta moderno que procura captar os sentimentos e aprisionamentos citadinos que o cercam. Além disso, Gee consegue dar uma boa dimensão da influência da banda e seus dois álbuns – Unknown Pleasures e Closer – trouxeram para o universo da música pop, sem que, no entanto, esse pareça um simples programa sobre bandas da MTV, é bem mais que isso, muito em conta da própria estética adotada pelo diretor e suas apostas na exploração da própria textura das imagens e das experiências musicais. É possível citar o exemplo do momento em que ele apresenta a música Dead souls: Gee vai apresentar a peculiar dança realizada por Curtis, ao mesmo tempo em que sua câmera irá percorrer e distorcer os espaços da cidade de Manchester, enquanto a canção, em quase toda sua totalidade melodia, é tocada, até seu final, sem que isso pareça um mero videoclipe.

 

Joy Division é um documentário digno no que procura construir e, ao mesmo tempo, ousado em algumas de suas perspectivas estéticas. Ele vai recortar imagens e falas com um intuito discursivo que, de certa forma, rompe um pouco com a inscrição do corpo na imagem. No entanto, para uma banda que sempre funcionou na base de sua ambigüidade, de seu caráter fragmentário – e até pelo término trágico da banda -, nada mais coerente que apostar nessa proposta mais recortada, que procura reconstruir uma trajetória de maneira linear, mesmo que isso incorra em alguns riscos de se cair nas armadilhas de um certo didatismo e padronização. Mas o filme de Grant Gee passa ileso em grande parte de sua constituição.

 

 

Filmes citados:

Joy Division (idem, 2007/Grant Gee)