por Leonardo Amaral

Destino Traçado, de Conrad Clark

por Leonardo Amaral

 

O título em português não dá totalmente conta do real significado desse filme: provavelmente seu título em inglês, Soul carriage, algo como ‘carregador de alma’, funcione melhor na tradução do que realmente vem a ser o filme do estreante em longa-metragem Conrad Clark. Conduzir um corpo-fardo por uma grande trajetória de ascese não é novidade no cinema, recentemente o longa pernambucano Amigos de risco apostou nesse tipo de narrativa. No entanto, Destino traçado se assemelha mais ao filme de Tommy Lee Jones, Três enterros, na relação que estabelece entre o corpo e o personagem, de como a presença de um vai culminar fundamentalmente na caminhada do outro. Ainda se pode dizer que existe uma forte relação estética com Jia Zhang-ke, principalmente na relação que a câmera estabelece com o espaço, de como esse é um olhar de descoberta de um mundo.

 

O primeiro plano do filme apresenta operários em uma construção: os créditos são apresentados ao som de uma música eletrônica enquanto personagens e máquinas trabalham no canteiro de obras. Um único plano, primeiras informações que somente serão entendidas a posteriori, mas que conseqüentemente remetem a um confronto com a modernidade. Xinren, um jovem trabalhador, em cena seguinte, pede ao patrão um adiantamento para que possa comprar bebidas e comemorar seu aniversário com amigos: o pedido, primeiramente negado, será a peça fundamental para o chefe  pedir para o subordinado fazer uma viagem até uma aldeia com a missão de entregar o corpo de um funcionário morto em serviço. Sem qualquer alternativa de negação, Xinren parte em viagem por toda a China na tentativa de encontrar a família do falecido.

 

A narrativa é simples, mas a construção imagética vai buscar nas várias formas de contato (físico, psicológico, de olhares) uma espécie de representação para uma China que se depara, a todo instante, entre o arcaico e o moderno. Dentro da van, Xinren só possui o corpo inerte como sua companhia, ao mesmo tempo em que precisa abandoná-lo, cria um elo que aumenta a cada não encontro. Não é possível encontrar os parentes, as informações são intermitentes - há uma necessidade de se livrar do fardo, mas uma espécie de dignidade humana impossibilita o seu abandono. Assim como Em busca da vida, a viagem não é simplesmente a trajetória em si, com paisagens apanhadas em planos abertos; mais do que isso, a travessia se torna um processo, como também uma mudança na forma de se enxergar o mundo e as pessoas. O jovem operário não consegue deixar para trás seu corpo-fardo não somente porque não encontra alguém que o tenha conhecido (ou que possua algum tipo de ligação), mas também por não perceber um lugar seu dentro dessa China contemporânea. Destino traçado tem nas paisagens, nas ruínas, nas construções a reconstrução do próprio olhar do sujeito em relação ao seu lugar, ao seu pertencimento: não achar quem queira receber o corpo e dar a esse um sepultamento digno e humano é uma metáfora do homem que não se insere dentro daquilo que vê e observa.

 

Conrad Clark faz uso de dois artifícios para construção de seu filme: a câmera subjetiva que mista a contemplação e a inquietação do olhar diante da paisagem, numa espécie de paralisia frente ao novo, àquilo que se constrói, a um processo irreversível de modernização, no qual os corpos são o fundamento e a mão de obra. O segundo elemento construtivo são os travellings que perpassam o espaço, colocando os personagens e dando-lhes o seu lugar (ou não-lugar). O cineasta só rompe um pouco com essa construção no momento de catarse e definição de Xinren, quando esse, embriagado pelo álcool e por todo o trajeto realizado, resolve abandonar o corpo, lançando-o as águas de um rio. O personagem se purifica nas lágrimas e na chuva e atinge o seu momento de anábase, de retorno após toda a sua trajetória.

 

No entanto, assim como ocorre em Três enterros, o corpo já afetou o personagem de tal forma que esse não mais consegue se desvencilhar completamente: ao final, a câmera, em movimento descendente, mostra, em primeiro plano, pessoas em um prédio ao lado, que estouram foguetes em sinal de comemoração; ao fundo, a cidade, em seu processo interminável de modificação, afetando o olhar da câmera, o olhar do novo.

 

 

Filmes citados:

Destino traçado (Soul carriage, 2006/Conrad Clark)

Três enterros (The Three Burials of Melquiades Estrada, 2005/Tommy Lee Jones)

Amigos de risco (idem, 2007/Daniel Bandeira)

Em busca da vida (Still life, 2006/Jia Zhang-ke)