por Leonardo Amaral

Almas Passantes

Almas Passantes


Á une passante

(Charles Baudelaire)

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d'une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l'ourlet;
 

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l'ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.
 

Un éclair... puis la nuit! — Fugitive beauté
Dont le regard m'a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l'éternité?
 

Ailleurs, bien loin d'ici! trop tard! jamais peut-être!
Car j'ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j'eusse aimée, ô toi qui le savais! *
 

Baudelaire, em seu poema À une passante, fala da fugacidade existente na cidade. O poeta bem tenta encontrar novamente sua diva momentânea, mas ele sabe que há momentos eternizados apenas na memória. A Paris de Baudelaire não mais existe, assim como o Rio de Janeiro de João do Rio; o que se tem são rastros de memória, ruas e formas que remetem ao passado ao mesmo tempo em que são transpassados pelo presente. São hiatos temporais que ali se encontram e se perdem, assim como estão perdidos, em meio à multidão, esses poetas-amantes. O curta-metragem Almas passantes, de Cléber Eduardo e Ilana Feldman quer falar do instante, de como as coisas, de uma certa forma, se esvaem: “tudo que é sólido desmancha no ar” dissera outrora Karl Marx. Deslocada de seu contexto, a frase também serve para dizer de uma cidade em que faces se misturam e onde tudo é passageiro, até mesmo a passante, a musa poética agora representada por Helena Ignez, que por um instante pára, há um momento de contemplação – em uma cidade em que tudo se funde em uma massa só, agora podemos ver por alguns momentos o rosto – para um retorno ao movimento.

 

O encontro anacrônico de Charles Baudelaire e João do Rio é também a ação complementar de três tempos e três espaços: temos a Paris do início do século XIX e o Rio de Janeiro do princípio do XX que são representadas, em um tempo e espaço presentes, pelo corpo e pela palavra dos poetas em suas tentativas de sincronia com a cidade. As representações sólidas, como os camelôs nas ruas, as pessoas nos bares e ruas, estão sempre em movimento transitório, assim como estão os sons, seja do funk em francês – tentativa de sincronia – ou na narração do jogo de futebol. Os personagens-poetas-flâneurs em suas tentativas de encontro acabam por se desencontrar: isso ocorre fisicamente, a partir do momento em que o encontro em si termina, como simbolicamente, representadas pelas palavras de ambos acerca do olhar em choque com a cidade.

 

Mais uma vez, tudo que é sólido acaba por se desmanchar no ar, o instante é único e acontece muito rápido: Helena Ignez surge e caminha. Por um momento breve, nós, na posição do voyeur citadino, podemos vê-la. Ela pára, o tempo agora é cinematográfico, a relação entre os cortes são agora nosso olhar. Após o momento, ela volta a caminhar e se misturar no meio da multidão. Baudelaire e João do Rio souberam muito bem representar a solidão, a margem, em meio à multidão. E no filme de Cléber Eduardo e Ilana Feldman o espectador, mediado pela câmera, também passa pela condição de flâneur, sendo guiado pelos dois escritores e se constituindo também como uma alma passante por aquele espaço e tempo.

 

Filmes citados:

Almas passantes (idem, 2008/Cléber Eduardo e Ilana Feldman)

 

Poesia citada e traduzida:

* A uma passante (tradução de Paulo Menezes)

A rua em derredor era um ruído incomum,
longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! — Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado — e o sabias demais
!