por Leonardo Amaral

Tropa de Elite: quem rói o osso – discurso ou imagem?

Fui, se não me engano, o último polvo a assistir a Tropa de Elite. Vi o filme após uma semana de estréia, com comentários pipocando aos meus olhos e eu, armado tal qual um oficial do BOPE, resistia aos ‘ataques’ de informações, opiniões, discussões, ou aulas de política e sociologia. Tentei, de certo bravamente, tapar os ouvidos, filtrar até a última gota para chegar à poltrona do cinema sabendo o mínimo possível acerca da primeira ficção do José Padilha – é claro que isso foi impossível após o bombardeio de teses e teses do ‘fenômeno cinematográfico do ano’ (no cenário nacional).

Sentei-me atrás de um monte de adolescentes que pelos comentários já haviam visto a cópia pirata que circulou antes do lançamento pela Internet, camelôs e quiçá padarias e açougues. Um deles, em especial, ria de algumas cenas de torturas e ações do BOPE e principalmente de quase tudo o que Wagner Moura dizia. Sistematicamente, ao final da sessão, não hesitou e falou logo aos colegas: “Acho que vou entrar para o BOPE para poder dar porrada em marginal”. São vários os jovens como ele que querem dar a tal porrada e não deixam, ao chegar em casa, de acender um baseado para dar força ao pensamento. E é exatamente o que pensa o Capitão Nascimento acerca daquilo que o tempo todo ele arrebata com o nome de sistema (implícita e inconscientemente uma certa orientação foucaultiana que está presente de maneira direta ou não no filme de Padilha): a moçada se droga e financia o tráfico, que, por sua vez, suborna e sustenta uma corrupção dentro da polícia e essa segura a barra dos traficantes e bilateralmente dá suporte ao comércio de narcóticos. É um circulo vicioso de uma sociedade com micro-poderes (novamente Foucault), sendo esses viciados, viciantes e, em certo sentido, ultrajante e ultrajado. As narrações em off de Nascimento chegam a ser explicativas, o caráter é sim reacionário (mas não o filme, como tem sido pregado por certas opiniões que, ao meu ver, são apressadas – e como muito bem aponta Marcelo Miranda em texto desta mesma edição) e são essas palavras que delineiam a narrativa e garantem muita coisa ali. Para alguns há excesso em off – vejo isso como o menor dos problemas – e que ele é por vezes óbvio – percebo-o muito mais como um guia que, ao contrário, pode ser perigoso devido as sutilezas do emparelhamento som/imagem.

Há, tanto nas teorias e para os teóricos formativos e realistas, uma convicção da imagem. Cinema, para uma grande maioria, é fundamentalmente imagem. Tanto que praticamente tudo em cinema foi articulado naquele que ficou conhecido como período mudo – isso é tal que, com a inserção sonora, veio junto um embaralhamento das coisas e quem teve de se adaptar não foi o cinema ao som, mas sim a técnica sonora ao modo do fazer cinematográfico.

Estou quase no ponto aonde quero chegar, para tanto, necessitamos falar da direção em Tropa de Elite: há, sem sombra de dúvidas, um alto teor de ultra-realismo cru e seco, desde os tiros a queima-roupa, aos corpos queimados vivos à câmera suja com o sangue do baleado e o suor que transborda e escorre sutilmente pela lente. O filme é marcado pelo realismo, mesmo com dois momentos de congelamento da imagem (no escudo da caveira do BOPE e em Wagner Moura)–, sim, meu caro, é realidade carioca, brasileira, mas também é – principalmente - cinema.

O treinamento dos oficiais do BOPE por vezes nos remete aos Marines de Nascido para matar – está lá o homem bestializado e sempre em tensão, produto do meio (agora Rousseau), máquina de guerra pronta para a mesma. Mas, apesar das semelhanças, as articulações recorrem a contingências diferentes. O discurso em off utilizado por Padilha rearranja as ações, a situação imagética enquanto Kubrick mantém uma espécie de autocontrole da imagem, a manipula de sua maneira e a coloca em consonância com aquilo que principalmente diz o Sargento Hartman. Há uma inversão clara: enquanto Kubrick busca na imagem o fundamento para a verborragia bomba-relógio do Sargento Hartman, Padilha adapta, em vários momentos, sua imagem ao discurso de Capitão Nascimento.

E é exatamente aí que as pergunta não mais se calam: A Tropa de Elite é osso duro de roer por causa da imagem ou pelo discurso? De quem é a força? Se o discurso abre várias discussões de caráter sócio-político, há um esvaziamento cinematográfico? Não faltam evidências para a força desse discurso: desde as discussões de jornalistas, cientistas políticos e sociais, acadêmicos e mesmo críticos de cinema até o rapaz, que após balançar minha cadeira o tempo todo na sessão, afirma o que já foi supracitado. O filme causa impacto, anestesia e abre reflexão – mas as imagens seriam o que são se não fossem as palavras de Capitão Nascimento que as pontua, orienta e ‘reforça’? A questão toda gira em torno do velho paradigma discurso/imagem (o que chamo de discurso aqui é aquilo que existe pré-filme, o que se pretende dizer, ainda fora do como foi dito), de quem sobrepõe a quem, se há sobreposição. Eu tendo sempre a ficar com a imagem, acho que o José Padilha também, pelo menos talvez tivesse essa intenção - acredito eu.


Filmes referência:
Tropa de Elite (idem, 2007/José Padilha)
Nascido para matar (Full Metal Jacket, 1987/Stanley Kubrick)