por Leonardo Amaral

Fim dos Tempos: cinema de apostas ousadas

Fim dos Tempos

“Então, a história do MacGuffin é a seguinte. Você sabe que Kipling costumava escrever sobre a Índia e os britânicos que lutavam contra os nativos na fronteira do Afeganistão. Todas as histórias de espionagem escritas nesse ambiente eram invariavelmente sobre o roubo dos planos da fortaleza. Isso era o MacGuffin. Portanto, MacGuffin é o nome que se dá a esse tipo de ação: roubar...os papéis; roubar...os documentos; roubar...um segredo. Na prática, isso não tem a menor importância, e os lógicos estão errados em procurar a verdade no MacGuffin. No meu trabalho, sempre pensei que os papéis ou os documentos de construção da fortaleza devem ser extremamente importantes para os personagens do filme mas sem nenhuma importância para mim, o narrador.”
(entrevista de Alfred Hitchcock a François Truffaut)

 

Em Pássaros, Hitchcock faz uma revoada de aves atacar os personagens sem qualquer razão ou motivação. São corvos, melros e gaivotas que, em rajadas, descem do céu em ataques mortais a pessoas de uma pequena cidade litorânea. Os ataques dos pássaros são, nesse caso, o MacGuffin de Hitchcock, pouco importa o porquê deles ocorrerem; muito mais importante é o que eles implicam. O MacGuffin é o pretexto, os ataques não mais são que isso, apenas dão vazão suficientes para que Hitchcock possa fundamentar uma narrativa em que imperam situações limites – desde limites espaciais a limites psicológicos. No filme, todos os personagens estão em perigo, os pássaros realmente os preocupam, mas para o espectador o que importa, na verdade, nada mais são do que os temores dessas pessoas, suas situações limites.

 

Hitchcock constrói um filme a princípio estranho (em que pássaros arrancam os olhos das pessoas) para mostrar o quanto o cinema é um dispositivo potente – tanto para narrar quanto para nos fazer embarcar em uma história como essa. É na ousadia, na experimentação que reside o verdadeiro cinema, que deve ser muito mais uma relação de imagens, daquilo que é posto na tela, do que somente a narração de uma historinha qualquer, seja instigante ou não. Aparentemente, o que se esperaria de um filme em que pessoas são atacadas por pássaros sem qualquer motivo, alteração genética ou outras fórmulas que muitos outros cinemas (confesso, menos interessantes) insistem em recorrer? A resposta está no próprio Hitchcock e em sua crença na força da imagem e em sua articulação. O cinema, quando usado para dar respostas, não tem graça alguma, ele é realmente bom quando lança porquês, discute imagem e deixa uma pulga atrás da orelha de cada um dos espectadores.

 

A mesma pergunta pode ser refeita, mudando-se algumas coisas: o que esperar de um filme em que pessoas, atingidas por alguma substância química inoculada por plantas, começam a se suicidar? E mais uma vez a resposta está na articulação e na crença em um cinema sem fórmulas, sem aprisionamentos. O interessante é que na mesma entrevista de onde foi retirado o fragmento inicial, Truffaut brincou com Hitchcock ao dizer que ele poderia fazer um filme em que plantas envenenassem as pessoas, sendo que o diretor britânico respondeu que preferia que essas pessoas fossem devoradas por essas plantas. M. Night Shyamalan não fez com que pessoas servissem de comida para vegetais, mas encontrou neles, ou melhor, na Natureza, seu MacGuffin.

 

Fim dos tempos é um filme de apostas, de rupturas com esquemas: não se vê e não se sabe quem é o perigo – plantas, homens, vento; as ações se dão na tela sem que possamos perceber quem necessariamente é o motivador delas -, quem pode se salvar ou mesmo o que realmente se passa. Mais uma vez Shyamalan lida diretamente com a contração de espaços, com o confinamento e redução de seus personagens. Há, com o passar do tempo diegético, uma redução dos microcosmos, parte-se da cidade até chegar a um quartinho isolado no meio de um prado na Pensilvânia; os personagens vão se prendendo, tanto espacial quanto metafisicamente. Isso ocorre em diversas situações dos filmes de Shyamalan: em Sinais, com a fusão de um microcosmo familiar (como também existe em Fim dos tempos). Porém, nesse último filme, não há qualquer tipo de artifício narrativo que traga a surpresa, a descoberta, o desvendamento, o desvelar de alguma situação chave; durante todo o tempo vemos apenas reações aos estímulos imbricados aos fenômenos que ocorrem sem premissas ou prenúncios. Se em Corpo Fechado, Sexto Sentido, Shyamalan buscava cruzar as informações, fechar sua narrativa, amarrar fatos, a partir de A vila, mas principalmente em Dama da água, ele não recorre mais a esse tipo de artifício, o que realmente importa são relações imagéticas e o que essas implicam ao espectador. Isso tudo alcança seu ápice em Fim dos tempos, hermético, mas com uma aparente simplicidade que joga diretamente com o público, seja pelas ironias evocadas (como o término dos suicídios pouco antes do ato ‘heróico’ do professor Elliot Moore, vivido por Mark Wahlberg), seja (principalmente) pelas dúvidas lançadas à medida que a narrativa se desenvolve.

 

Ao contrário de Pássaros ou mesmo de Sinais, Fim dos tempos já começa dentro de sua proposta, não existe qualquer tipo de preparação, de estabelecimento de narrativa. Nos próprios créditos já é possível perceber a alteração nas nuvens, que se escurecem, para que, em poucos minutos, já possamos presenciar os primeiros suicídios e dilacerações. Não existe uma concatenação do envoltório, o envoltório é o próprio filme e sua aparente tentativa de não-comunicação – vemos, a todo o tempo, informações cruzadas, pessoas morrem ou se organizam em grupos sem, no entanto, sabermos (nem eles também sabem) qual é a melhor das alternativas, fugir, se trancar, se agrupar, se isolar, a todo instante há alguém buscando alguma dessas soluções, quase sempre sem sucesso algum. Comparando-se com uma peça musical, o filme de Shyamalan se estabelece apenas com suas tensões, não há espaço para relaxamentos: o longa opera em uma espécie de regime atonal e, para embarcar nessa ‘atonalidade’, é preciso que a entendamos como tal.

 

Entendendo o regime de funcionamento do filme, é preciso compreender as peças desse e como elas trabalham dentro do mecanismo. Shyamalan assume, sem receio, uma encenação que vai do exacerbado ao quase zumbi, incursões lado b do cinema, aqui, em Fim dos tempos, coerentes e, sob determinada ótica, até mesmo orgânicas. Tanto Mark Wahlberg quanto John Leguizano são professores, trabalham com números, funcionam como uma espécie de racionalidade dentro do filme, o guia; mas essas características funcionam de maneira inversa, eles são algo como anti-heróis, não conseguem evitar nada, são como variáveis das pesquisas que lecionam no início do filme. Aliás, Wahlberg, em sua primeira aparição, fala, para sua classe, acerca do desaparecimento das abelhas. Shyamalan cria um mundo pessimista em que pessoas são como as abelhas em processo contínuo de extermínio e nesse mundo não há qualquer tipo de esperança, para o renascimento (gravidez) há o reinício de tudo, o vento nas folhas está de volta.

 

Shyamalan vai buscar no abstrato e no extracampo o seu fim dos tempos. O apocalipse shyamalaniano não está na destruição, mas no flagelo passivo operado pela mente. Se em Sinais ou mesmo em Sexto Sentido tínhamos, ao final, a materialização do abstrato, aqui ele simplesmente não existe; estamos, ao fim, tal qual o espectador do telejornal, escutando a explicação do inexplicável. Shyamalan limita o território de seu acontecimento (aliás, é esse seu título original, The Happening) mas não há saídas, a câmera é barreira, o medo está por trás dos vidros, se aproxima da fresta no teto do carro  - Shyamalan nos aproxima, o olhar de Leguizano é também nosso olhar, sabemos que não há saída, o impacto do carro é seco, como seco também é o tiro que o garoto recebe no crânio. O medo está por trás das portas e Shyamalan quase não nos deixa abri-las e quando o faz, ele traz a tensão para o interno, para dentro do carro onde está John Leguizano, para o interior da casa rústica onde vão parar Mark Wahlberg, Zooey Deschanel (que no filme chama-se Alma) e Ashlyn Sanchez. O isolamento não é sinônimo de segurança, até mesmo a velha sra. Jones, residente nessa casa rústica e totalmente autista em sua realidade, está à mercê dos fatos. Os personagens são quase bonecos – como a boneca de sra. Jones, como a casa ideal (toda plastificada) onde, interessantemente, foi o local mais seguro por onde Elliot, Alma e Jess perpassaram.

 

Não por menos, o artifício mais fascinante (e que se liga a tudo o que foi dito anteriormente) de Fim dos tempos está em sua artificialidade, calcada nos pilares de sua câmera passiva e os sons do extracampo, além de sua proposta e uma encenação cara aos filmes B do gênero horror (os olhos arregalados de Deschanel, a expressão espantada e desesperada de Wahlberg, o jeito neurótico de Leguizano, sem contar o estado zumbi das pessoas durante suas paralisias pré-morte, são todas representativas da situação artificial, mas ao mesmo tempo aterradora, criada por Shyamalan). O diretor destrói qualquer tipo de possibilidade dentro desse universo: a gravidez, que seria símbolo da recriação é filmada, por uma câmera observadora, ao ritmo do vento chacoalhando levemente as plantinhas da rua, nem mesmo o cientificismo apresentado nos programas de televisão são sequer capazes de explicar o fenômeno dos suicídios em massa – as hipóteses são lançadas, alterações climáticas, ataques terroristas; Shyamalan circunda seu filme como se esse fosse seu método científico e as personagens suas variáveis (mas não há hipóteses certas, a pesquisa não encontra resultado).

 

O tom artificial da encenação – que chega a ser, paradoxalmente e ao mesmo tempo, divertido, assustador e estranho – é reforçado por uma câmera em plena passividade, que observa e não dá qualquer possibilidade de interferência. Assistimos passivos aos suicídios, vemos as pessoas abaixando, pegando a arma no chão e se levantando novamente. A câmera, no entanto, fica na mesma posição, sabemos o que vai ocorrer, mas não o vemos, apenas o escutamos. Os estampidos são sempre escutados, o vento também, Fim dos tempos é um exercício experimental de escuta e de extracampo. À medida que o cerco se fecha, o mal se aproxima, mas não sabemos onde está, apenas o sentimos passivamente. Em Fim dos tempos o mal é invisível e pior, nós sabemos muito bem disso.

 

 

Filmes citados:

Fim dos tempos (The Happening, 2008/M. Night Shyamalan)

Pássaros (Birds, 1963/Alfred Hitchcock)

O Sexto Sentido (The Sixth Sense, 1999/M. Night Shyamalan)

Corpo Fechado (Unbreakable, 2000/m. Night Shyamalan)

Sinais (Signs, 2002/M. Night Shyamalan)

A vila (The village, 2004/M. Night Shyamalan)

Dama na água (Lady in the water, 2006/M. Night Shyamalan)

 

Livros:

Hitchcock – Truffaut: Entrevistas (Companhia das Letras, edição definitiva/François Truffaut)