- “Mulher à Tarde”, “Os Residentes” e “O Céu Sobre os Ombros”: Des-Ordem de representação como crise da identidade
- Bruna Surfistinha e os limites da obscenidade
- Os desdobramentos do corpo e a política na presença: Passe Livre e a obra dos irmãos Farrelly
- A política da juventude: entre a utopia do caminho e a imagem utópica do pensamento singular
- Afinal, onde está o cinema brasileiro?
- A verdade da memória e a escritura do tempo: a trilogia da Ilha de Coudres
- Dos procedimentos do cinema direto de Wiseman à imagem cínica: quando o cinema vira telejornal e o telejornal incita um cinema precário
- Viagem ao princípio do mundo, de Manoel de Oliveira
- Vale Abraão, de Manoel de Oliveira
- Rogério Sganzerla em seis tempos: “Informação H.J. Koellreutter”, “B2”, “Documentário”, “Irani”, “Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica” e “Linguagem de Orson Welles”
- A Bela Intrigante: o quadro sempre como o limite
- As marcas do passado e o olhar embaçado do futuro: a obra de Lucian Pintilie
- “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert
- A imagem da alteridade: “A Falta Que Me Faz”, “Pacific”, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” e “Morro do Céu”.
- O cinema de artifícios de Martín Mainoli
- Distrito 9: entre os desvios e a autenticidade
- Câmera-olho do delírio cotidiano: o cinema de Martin Scorsese
- Almoço em Agosto
- O Pornógrafo: hora de mudar as regras, vamos colocar as cartas na mesa
- Marguerite Duras: construção / destruição do cinema

por Leonardo Amaral
Estafeta – Luiz Paulino dos Santos
por Leonardo Amaral
Estafeta é um filme-resgate, que, no entanto, não se propõe a incursões passadistas que por vezes funcionam como uma espécie de homenagem. O filme de André Sampaio procura celebrar o presente, está calcado no agora e na forma como ele se dá. Luiz Paulino dos Santos, um dos nomes centrais do cinema nacional, com obra por vezes menos explorada, mas nem por isso não instigante e merecedora de análise. Sampaio busca sim imagens de arquivo, de filmes e fatos da vida de Luiz Paulino, mas esses são muito mais relativos a uma construção do presente, do homem Luiz Paulino, do que para apenas lembrar uma época, uma obra. A obra não mais é do que o próprio autor e, se formos falar de um, necessariamente o outro emergirá.
O filme tem início com um belo plano que parte de um céu, iluminado e recoberto em parte por galhos, para chegar ao tronco, onde está Luiz Paulino. Em conjunção com a viagem da câmera, Paulino canta – relato de uma vida simples de um ser humano complexo. Luiz Paulino nasceu pobre (e continua pobre, como ele mesmo disse pouco antes da sessão), foi estafeta (espécie de entregador de telegramas) na juventudde e nunca fez questão de ganhar muito dinheiro com o que fazia – o cinema é algo maior, é amor, é paixão, é um fundamento de vida.
André Sampaio intercala fragmentos de cinema (dos filmes que Luiz Paulino via na infância e adolescência, como também dos realizados pelo diretor contemporâneo a Glauber Rocha na Bahia) com atividades artísticas e religiosos de Luiz Paulino dos Santos. Na medida em que o filme flui, podemos presenciar a montagem de uma pessoa de rompimentos (o próprio final, bastante imprevisto mas não imprevisível – dado às inquietações de Paulino - com as crenças religiosas do personagem) e de muito vigor artístico. Enquanto acompanhamos cenas de Barravento, escutamos Paulino falar com muita paixão a respeito do filme e do quanto ele e Glauber tiveram uma relação de proximidade e de muita troca. Mesmo em períodos difíceis, nos quais Luiz Paulino precisou abandonar o cinema, essa expressão artística nunca deixou de estar presente na vida desse; é algo quase inseparável.
A vida simples do agora é apenas reflexo de uma trajetória guiada por elementos fundamentais. Sampaio é bastante feliz em sua realização por captar esses momentos, ao mostrar Luiz Paulino em meio as suas atividades artísticas, em contato da natureza, como também pelas imagens de uma pesquisa ‘arqueológica’ (como o próprio André disse antes da exibição). O filme é seu autor e Luiz Paulino é, acima de tudo, vida.
Filmes citados:
Estafeta – Luiz Paulino dos Santos (idem, 2008/André Sampaio)
Barravento (idem, 1962/Glauber Rocha)







