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por Leonardo Amaral
I'm not there e Shine a light: acordes filmados em tom maior
O início das estréias de 2008 no cinema americano tem, entre outras marcas, a do registro musical. Os projetos envolvem o não-convencional para se documentar nomes como os de Bob Dylan, Rolling Stones e Beatles – na esteira os respectivos I’m not there de Todd Haynes, Shine a light de Martin Scorsese e Across the universe de Julie Taymor. É a música indo para a tela em consonância com os impactos que cada uma dessas figuras emblemáticas são capazes de causar. São personagens marcados pela excentricidade, logo, a melhor maneira de filmá-los talvez seja por meio do rompimento de ordens: a subversão de certas formas se torna necessária.
O cinema norte-americano tem uma forte tendência ao registro histórico e à recorrência a vedetes políticas ou do show business. Existe sim a cultura do espetáculo nos EUA e os filmes tendem a explorar as várias nuances existentes. A questão é de abordagem, há, em muitos casos, uma espécie de convencionalismo de imagens, do retrato, quase sempre não condizentes com as próprias figuras retratadas: casos, por exemplo, de Ray e Johnny e June ou mesmo no cinema nacional como no caso de Cazuza, propostas comuns e pouco ousadas de personas arredias a esse convencionalismo social. A grande diferença – reforço aqui – de I´m not there e Shine a light está na forma: o primeiro centrando-se na ‘biografia’ e o segundo no próprio espetáculo em si.
Bob Dylan e Rolling Stones. Para muitos as letras talvez sejam o grande trunfo de Dylan, enquanto que, no caso dos Stones, o grande mérito provavelmente esteja na explosão de suas músicas (ao contrário de bandas como Beatles, Pink Floyd e Velvet Underground e suas propostas musicais bem mais elaboradas), nos solos de guitarra de Keith Richards e Ron Wood, na batida ritmada da bateria de Charlie Watts e, como não poderia ser diferente, na presença marcante de Mick Jagger. Mas qual a melhor maneira de retratar modos expressivos tais quais Bob Dylan e Rolling Stones? No direction home, também de Martin Scorsese, já havia dado a dimensão de um Dylan fora do show (dentro também, claro), mas não da maneira interiorizada (digamos assim) que Todd Haynes aborda o cantor folk. E o próprio Scorsese resolveu mostrar o quanto uma banda de rock ‘n roll é capaz de explodir diante de seu público – o filme é uma construção de um show, de uma relação rock star/fã, mas principalmente de um processo fílmico, mediado por imagens de arquivo que dialoga sempre com o que explode na tela.
Se No direction home busca o registro da imagem existente, I’m not there constrói imageticamente esse registro por meio da fragmentação, das mil faces do outrem, buscado em referências, fatos, imaginação do personagem. Haynes trabalha com as ambigüidades da imagem para obter a dialética do ser humano: as músicas compostas por Dylan funcionam como a representação máxima de um artista em suas várias facetas e dimensões.
Não estou lá é o título no Brasil (tradução literal): e é exatamente o que Haynes busca, um ídolo, um gênio, um recluso, um homem falível, um ser humano, todos em um só e ao mesmo tempo em lugar algum. Não há espaço definido, tempo estabelecido, a força está na própria imagem e naquilo que ela implica. Se há poesia na canção, há uma imagem capaz de captar o registro disso, do trem que trafega e cruza os EUA (“How many worlds must the man walk down”), com a faceta ídolo/fã encarnada no garoto negro desbravador de territórios, que não sabe quantos mundos necessita percorrer. Uma mente e suas perturbações, com o personagem que olha direto para câmera e dialoga diretamente com o extracampo fundamental: o espectador. Ou então nas afetações e na invasão da privacidade, das excentricidades que, em boa medida, trazem a reclusão; do homem que tenta se mascarar diante do diálogo no franco, de alguém que caminha em sociedade extemporânea – o homem fora de seu próprio tempo. E a construção do filme se dá exatamente nessa espécie de subversão de tempo e espaço, da não localização, do exato não estar lá entretanto – e daí a ambigüidade – de nunca deixar de ser (por isso o título em inglês traz uma complexidade intransponível para o português e sua diferenciação dos verbos ser e estar).
Todd Haynes, para recriar Dylan, lida com as artificialidades das relações e da representação – aliás, faz isso desde os seus primeiros curtas, como nas experimentações midiáticas e de idolatria de Dottie gets spanked ou mesmo nas atribuições do segmento ideológico de uma certa época como no longa Velvet Goldmine. E é exatamente na idéia da representação que Scorsese constrói o documentário (ou o processo em documentação) Shine a light. O início do filme é a formatação de todo o projeto que seria a filmagem de um show da banda inglesa em Nova York. Scorsese e os Stones discutem posicionamentos de equipamentos. Em certo momento, Mick Jagger pergunta se o público não ficaria assustado com tantas câmeras colocadas. É realmente ‘assustadora’ a estrutura montada para captação dos movimentos de cada músico no palco, do som emitido por cada instrumento ou mesmo as vozes nitidamente perceptíveis graças à captação de áudio. O espetáculo torna-se grandioso, cada contre-plongée ganha em duas dimensões: a do ídolo que Jagger é, como também a visão de uma câmera subjetiva, como se ela também fosse público; ela está, a todo instante, dentro do show, participa, dubiamente, como espectador e parte do espetáculo, capta cada movimento, cada acorde e solo tocado, cada expressão emitida.
Na sociedade de hoje dita como a do espetacular por alguns teóricos, Scorsese filma o espetáculo do espetáculo. A câmera de baixo para cima apresenta Mick Jagger grandioso para depois, em novo corte, outra câmera apresentar a anterior, numa metalinguagem em uma espécie de transe cognitiva. Logo depois, novo plano, próximo aos rostos, capaz de captar a expressão de cansaço de Charlie Watts. Não é somente um filme do filme, longe disso, o que há é uma formatação dos processos, da relação câmera/personagem. Enquanto no show existe a explosão de estados, cores e sons, as imagens de arquivo, em preto e branco, imergem no caráter íntimo, mas, paradoxalmente, o que se vê é a continuação do próprio espetáculo e da persona artística – todo o documentário é uma verdadeira análise da performance: todos, de um modo geral, cumprem seu simulacro social diante da câmera – a mesma configura movimentos, expressões, estímulos e sensações, ou seja, ela cria e constrói um modo de ação de seu objeto de retratação (isso desde a fotografia e o ato de se posar para a câmera fotográfica). Já no início do filme – bastante hilário – há performances do próprio Scorsese junto de sua equipe, eles discutem o projeto e a imagem é, nitidamente, de uma qualidade bastante inferior ao do registro do show. O velho diretor americano brinca com o ‘make movies’, como no final em que ele aparece novamente diante das câmeras para definir o movimento das mesmas, algo que tenta lidar com a própria relação de ic et nunc (aqui e agora) da situação fílmica.
O amigo polvo Marcelo Miranda definira (e muito bem) em dado momento que em I’m not there há uma implosão de Bob Dylan enquanto em Shine a light o que se tem é uma explosão espetacular. A afirmação é bastante feliz na medida em que dimensiona o caráter da forma e sentidos fílmicos das duas obras. O Bob Dylan de Todd Haynes é um monte de todos e na verdade ninguém, o ídolo folk é multifacetado e recriado pelo diretor americano em suas idiossincrasias, anseios, tudo mediado pelos versos do próprio cantor. Já Shine a light é um material explosivo, como já dito, o espetáculo do espetáculo, da produção e configuração do mesmo, impossível de ser contido, como a câmera em seu movimento final: ela sai junto com os Stones, percorre o corredor, chega à rua, Scorsese aponta para que o painel do show seja filmado e logo após o movimento sai do Teatro Beacon, percorre a Baía de Manhattan e pára no céu iluminado pelas luzes de Nova York, mundo dos Stones naquele dia. Implosão de Dylan, explosão de um show a la Stones.
Filmes citados:
I’m not there (idem, 2007/Todd Haynes)
Shine a light (idem, 2008/Martin Scorsese)
Across the universe (idem, 2007/Julie Taymor)
Johnny & June (Walk the line, 2005/James Mangold)
Ray (idem, 2004/Taylor Hackford)
Cazuza (idem, 2004/Sandra Werneck e Walter Carvalho)
No direction home (idem, 2005/Martin Scorsese)
Dottie gets spanked (idem, 1993/Todd Haynes)
Velvet Goldmine (idem, 1998/Todd Haynes)







