por Leonardo Amaral

O homem que não dormia, de Edgard Navarro

 

por Leonardo Amaral

“Abaixo à gravidade!”

Com uma reivindicação, assim termina Superoutro, após Bertrand Duarte saltar do Elevador Lacerda, em Salvador, para transformar uma tentativa de suicídio em uma redenção heróica. O indigente transforma-se em SuperHomem, transmuta-se no herói do cotidiano difícil. Sobreviver, essa é a ordem do filme, e sua alteridade está na lida com o outro: para conviver com esse é preciso o um superlativo, transformar-se em um superoutro, para, a partir de então, alcançar uma unidade redentora.

“Abaixo à gravidade!”

Bertrand Duarte vai novamente de encontro aos seus, vai ter com as nuvens, sobe para a providência divina com balões, em uma espécie de redenção lúdica que coloca fim aos seus pesadelos. Em O homem que não dormia, uma cidade denominada apenas por “Me esqueci” é povoada por uma pequena comunidade que partilha pesadelos de uma mesma ordem. Essa ordem é personificada na figura de um barão (vivido pelo próprio Edgard Navarro), que, por não conseguir dormir, atormenta as pessoas do lugar invadindo-lhes sonhos que mais parecem realidade. O barão deseja dormir, mas não pode, não consegue. Seus pesadelos do passado são simbólicos na representação de cada um daqueles que habita um lugar marcado por vestígios de um passado abissal que se confunde com o próprio passado brasileiro, de dominações do homem branco, da supressão da mulher, do machismo, da condenação dos fracos e da humilhação dos aleijados, loucos e deficientes.

O homem que não dormia é também um filme de personagens, algo que, infelizmente, pouco se vê no Brasil. Dificilmente se vê no cinema nacional personagens como o provocador e contador de histórias Pereba (espécie de brasileiro gozador, invejoso, engraçado, preconceituoso, síntese de várias coisas) e Pra Frente Brasil (simbólico na representação dos reprimidos da ditadura e esquecidos na contemporaneidade). Ele vaga pela cidade, gozado pelos garotos, achincalhado pelo restante da cidadela, ao passo que responde sempre com palavras de ataque. Pra Frente Brasil é a representação alegórica de um país sem memória cujo progresso desenvolvimentista sempre foi uma falácia. O Brasil só caminha para frente para pessoas como o Coronel, outro personagem criado por Navarro, uma espécie de alegoria da dominação. Ele é o responsável pela subelevação do restante dos personagens, é quem representa um coronelismo até hoje tão presente e marcante no país. Ao final, acaba sendo encurralado e sodomizado, como se nessa ação houvesse uma licença poética que possibilitasse o contragolpe do reprimido. A cidade desconhecida e esquecida é a morada desses arquétipos que tão bem representam a sociedade brasileira. A mulher do coronel é subjugada e metaforicamente amordaçada pelo lugar que é dado a mulher na sociedade, mesmo nos tempos atuais. Madalena, aquela que seria a representação da mulher movida por seus desejos e tensões sexuais, traz por vezes a marca de uma objetivação por parte dos homens. Por ventura, ela se deixa levar bem mais por suas pulsões, como tentativa de negar uma história pregressa na qual o sexo era visto como um pecado da carne.

O corpo filmado por Edgard Navarro é a exposição total de seus contornos, defeitos, funcionalidades. Não por menos, a urina torna-se o líquido que é preciso ser posto para fora, escorre pelo corpo, como se ao mesmo tempo aliviasse aquele corpo, mas também o nutrisse. É o líquido que sempre vai e volta, simbolização poética de um ciclo da vida. O corpo também precisa estar sujo, envolvido por barro, retorno a terra. É necessário, portanto, rolar pelo chão, se impregnar de terra. Os personagens de O homem que não dormia vivem por vezes a dualidade da sujeira e da purificação. Vê-se no banho da esposa do coronel as partes intimas quase em contato com a lente. A proximidade e água denotam a imperfeição é também a beleza do corpo e da cena.

O corpo vaga e se transmuta com a natureza. Luiz Paulino dos Santos é o duplo do barão, aquele condenado a andar sem rumo e sem destino, sem dormir e sem se lembrar de quase nada. Não sabe o seu nome, onde exatamente ele está, apenas segue. Os outros vêem nele a figura do barão. A dualidade desse personagem é uma espécie de calvário para o mesmo. Este é o corpo que vaga. Já o jovem atormentado e maltratado pelo pai é aquele que se liga à natureza. Ele se pendura em uma árvore e com ela se configura em uma espécie de estrutura pendular. Fora de casa e em contato com a natureza ele sobrevive. Na volta para a casa, em uma espécie de anti-parábola do filho pródigo, ele se permite fugir junto dos porcos. A agressão ao pai e a soltura dos animais é sua redenção.

E a redenção é uma das grandes motivações do filme e de Navarro. Obra e personagens perpassam por um tipo de pentecostes. Padre Lucas, o personagem de Bertrand Duarte, vai até uma mãe de santo (sincretismo religioso do Brasil muitas vezes escondido), partilha pesadelos com os outros habitantes da cidade e tem sua fé renovada pelos acontecimentos por ele vistos. Ao final, ele segue junto a procissão que transita pela praça, desnuda-se, banha-se nas águas da fonte (outra vez a água como esse símbolo da purificação e do fluxo da vida). Um turista americano que registrava com sua câmera o evento também se converte e canta para que o padre suba aos céus. Empenhado a vencer a resistência da gravidade, com o uso de balões, ele sobe em direção ao cosmos misterioso. Abaixo à gravidade, é tudo o que ele precisa para poder vencê-la.

Visto na 15a Mostra de Cinema de Tiradentes

Filmes citados:

O homem que não dormia (2011/Edgard Navarro)

Superoutro (1989/Edgard Navarro)