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por Leonardo Amaral
Gillo Pontecorvo: o entrelaçamento entre real e ficcional
Se um dos pilares do neo-realismo italiano é uma câmera capaz de captar uma realidade local e torná-la algo universal, que dialogue com todo e qualquer espectador e o faça sentir o quanto de pujança existe ali, talvez seja Gillo Pontecorvo o cineasta que mais tenha conseguido adentrar a fundo essa questão da imagem que transita entre o que é realidade e o que é ficção, carregando-a de vários significados e questionamentos que somente a linguagem cinematográfica consegue dar conta. A câmera é o seu instrumento analítico capaz de representar diretamente tempo e espaço – pelas propriedades da imagem que consegue dar o frescor de presente àquilo que apresenta, que se sustenta pela própria força, sem necessidades de outros auxílios. Pontecorvo, como poucos, soube fundamentar dialeticamente seus filmes através dessa força da imagem e da realidade: o contexto é apresentado, o entorno estabelecido para a abertura de discussão acerca do ‘objeto’ representado.
Ao contrário de alguns dos cineastas surgidos no neo-realismo que articulavam suas histórias a partir de um personagem central, sendo o mesmo uma espécie de metonímia oprimida pelo sistema, Pontecorvo opta por retratar todo um povo - prefere partir para um todo, lidar com a grandiloqüência sem medo, sem temer cair nas armadilhas em que esse artifício incorre; o diretor italiano sabia a dose certa que devia se utilizar, o discurso era sim emblemático, mas nunca exagerado ou fora de contexto.
Os cenários dos filmes do cineasta são as próprias pessoas, a própria História e o caráter humano; é deles que o diretor consegue extrair, através de uma câmera presente e onisciente, um cinema que por vezes é tratado como uma espécie de realismo radical. Tanto em A Batalha de Argel quanto em Queimada, é notório o quanto ficção e realidade se entrelaçam: assistimos a um filme ficcional que, nitidamente, emerge na linguagem, temática e orientação documental.
Saadi Yacef foi quem, em certo momento, após tentativas inúmeras de levar ao cinema a história que ele gostaria de contar, chegou até Pontecorvo para propor a realização de um filme cuja temática seria retratar a dominação colonial na Argélia. Entretanto, se esperávamos por uma visão de alguém de dentro, logo percebemos a documentação histórica sem prisões a discursos forjados ou a visões ideológicas bastante simplistas: o que se tem é uma retratação da realidade de um país em busca de identidades perdidas e unidade frente a uma opressão realmente existente.
Batalha de Argel é de 1966 e talvez bem nos meados dessa década consolide essa abordagem ficção/realidade que alguns diretores como Jean Rouch também experimentaram e que, mais tarde, acabou influenciando alguns nomes como, por exemplo, Michael Winterbottom e principalmente Pedro Costa – que transita bem dentro dessa fronteira entre documental e ficcional. Já no início do filme nos são dadas informações a respeito do conflito existente no país africano e a luta concentrada em busca de liberdade. O relato é de caráter realista, com planos gerais pelos quais podemos observar a movimentação dentro da capital Argel. Aos poucos, Pontecorvo insere a trilha sonora que remete a combates e fecha os planos para apresentar as pessoas envolvidas na guerrilha – a linguagem é por excelência clássica e ficcional. A estrutura não-linear relata os momentos finais do conflito para a articulação de uma mise en scène que em nenhum momento procura apelos discursivos que tentem romantizar as milícias argelinas ou demonizar o exército francês, mas que quer apenas relatar fatos e apresentar uma parte da História mundial que realmente possui marcas imperialistas e de violência.
Após o inicio, que desvela o quanto houve de devastação física e humana no confronto entre a FNL e o domínio metropolitano, Pontecorvo, por meio de um retrocesso histórico, procura mostrar os vários contornos e ações que foram responsáveis por toda uma luta marcada pela ignorância e pela força bruta e terrorista (de ambas as partes, evidentemente). São nesses vários momentos que o diretor italiano articula a linguagem através dos planos abertos que captam as ações das partes e mostram a alarmância do confronto; a câmera adentra as barricadas ao mesmo tempo em que desmonta e remonta um quebra-cabeça complexo de um mundo politicamente dividido e cheio de interesses externos, sendo que esses acabam por influir em vários lugares e na vida de muitas populações que mal sabem qual orientação seguir – se é que, nesse contexto, existia alguma. Nesse contexto de Guerra Fria a África foi o continente mais afetado.
Pontecorvo procura sempre a ambivalência da circunstância, procura a dialética da situação e faz da mesma seu objeto de adensamento: a câmera denota ao invés de conotar, as peças imagéticas são meticulosamente engendradas de uma maneira a qual possibilita uma leitura que nunca centraliza e sempre procura a realidade em sua forma mais crua e próxima possível. Não existem inferências, mas uma denúncia fiel e realista de um fato histórico. Para tanto, o cineasta italiano faz uso de uma linguagem de planos gerais (como já foram inclusive citados) nos conflitos, para que possamos observar todo o entorno; ao mesmo tempo em que ele articula com as expressões de todos os envolvidos na questão.
Em Queimada há uma extrapolação desse limite, que acaba por embaralhar ainda mais possíveis verdades factuais. Mais uma vez o cineasta lida com a temática da dominação, agora em um país hipotético na América Central – Glauber também faz algo parecido em Terra em transe ao criar Eldorado. A narrativa mais uma vez busca sempre o naturalismo, com alguns planos longos que valorizam a ação dos atores e funcionam quase como registros fiéis de uma realidade que realmente ocorreu, como se aquilo realmente tivesse sido captado de maneira imediata pela câmera. Impressiona a unidade naturalista que permeia todo o filme, de como a estrutura e a linguagem de documentários é capaz de dar uma vivacidade à ação e de fazer com que ela se torne uma discussão complexa do que é real no cinema. Aí retomamos a Bazin e percebemos que a realidade do cinema é aquela que melhor consegue ser um traço fiel daquilo que está em quadro, ou seja, está na articulação da mise en scène o mecanismo capaz de dar suporte a essa realidade. Mas o cinema se constrói a partir dos fragmentos e o sentido fílmico está em cada um desses pedacinhos.
Queimada (assim como, já foi dito anteriormente, A Batalha de Argel também) é ficção, não resta dúvida, ainda que a colonização tenha de fato ocorrido, os fragmentos são encenados, Marlon Brando é ator, o país ali não existe. Mas quando cada quinhão imagético forma um todo há um entrelaçamento de coisas que faz do fictício algo tão crível que passamos a acreditar naquilo como algo concreto, existente. Esse é o principal objeto que Pontecorvo lança mão para construção de sua realidade “radical”: há um estudo profundo e dialético das razões de um conflito, sendo que o diretor italiano consegue apresentar um panorama em que o caráter humano está intimamente ligado à autodestruição, algo como uma idiossincrasia deletéria.
Ao ficar nesse limite do real e o imaginário, Pontecorvo se permite imergir na questão que aborda da forma mais naturalista possível, mas, ao mesmo tempo, tendo uma espécie de controle daquilo que suas lentes captam, algo que por vezes não ocorre em um documentário, pois a vida é incerta e o cinema nem sempre é. Ao mesmo passo que, ao trabalhar no extremo, ele possibilita registrar em película as incertezas do agora. E é quando consegue caminhar no meio dessa estrada que esse italiano se mostra genial.
Filmes citados:
A Batalha de Argel (La Bataille de Árgel, 1966/Gillo Pontecorvo)
Queimada (idem, 1969/Gillo Pontecorvo)
Terra em transe (idem, 1967/Glauber Rocha)







