- “Mulher à Tarde”, “Os Residentes” e “O Céu Sobre os Ombros”: Des-Ordem de representação como crise da identidade
- Bruna Surfistinha e os limites da obscenidade
- Os desdobramentos do corpo e a política na presença: Passe Livre e a obra dos irmãos Farrelly
- A política da juventude: entre a utopia do caminho e a imagem utópica do pensamento singular
- Afinal, onde está o cinema brasileiro?
- A verdade da memória e a escritura do tempo: a trilogia da Ilha de Coudres
- Dos procedimentos do cinema direto de Wiseman à imagem cínica: quando o cinema vira telejornal e o telejornal incita um cinema precário
- Viagem ao princípio do mundo, de Manoel de Oliveira
- Vale Abraão, de Manoel de Oliveira
- Rogério Sganzerla em seis tempos: “Informação H.J. Koellreutter”, “B2”, “Documentário”, “Irani”, “Viagem e descrição do Rio Guanabara por ocasião da França Antártica” e “Linguagem de Orson Welles”
- A Bela Intrigante: o quadro sempre como o limite
- As marcas do passado e o olhar embaçado do futuro: a obra de Lucian Pintilie
- “É Proibido Fumar”, de Anna Muylaert
- A imagem da alteridade: “A Falta Que Me Faz”, “Pacific”, “Viajo porque preciso, volto porque te amo” e “Morro do Céu”.
- O cinema de artifícios de Martín Mainoli
- Distrito 9: entre os desvios e a autenticidade
- Câmera-olho do delírio cotidiano: o cinema de Martin Scorsese
- Almoço em Agosto
- O Pornógrafo: hora de mudar as regras, vamos colocar as cartas na mesa
- Marguerite Duras: construção / destruição do cinema

por Leonardo Amaral
As horas vulgares, de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize
por Leonardo Amaral
“Senhor, perdoai-nos, porque somos os eleitos ou somos os cães.” Diante do altar de uma igreja, a personagem expatriada faz a prece que se acentua ao longo daquilo que As horas vulgares vai apresentar como uma espécie de dialética pendente. Na clássica dialética agostiniana entre fé e razão, o ser se constitui por suas ações movidas pela esfera de uma redenção que se dá em um equilíbrio entre os atributos de fé e razão. Logo, nesse primeiro instante visto no primeiro plano do filme, Clara, a musa inspiradora, procura um equilíbrio que jamais acontece. Os eleitos são aquelesredimidos, enquanto que os cães percebem que o projeto por eles disposto se apresenta como um fracasso da criação e um vazio inexplicável. Esse vazio e melancolia são sintomáticos de uma situação geracional do cinema brasileiro, que se apodera desses sentimentos a fim de representá-los nos filmes como a expressão do ato da criação. A diferença do longa de Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize talvez esteja na possibilidade que eles encontram de corresponder toda essa angústia através de uma pendência. Por isso mesmo, uma dialética pendente, sempre orientada pela fé dos personagens em algo, em uma amizade que eles têm como apoio para enfrentar seus monstros e expatriação sempre presente.
Diante disso, se o filme se apega aos seus afetos e referências de Philippe Garrel e Jean Eustache, ele consegue se desvencilhar de uma reverência simples a partir do momento em que opta por se arriscar em uma encenação por vezes grandiloquente, mas ao mesmo tempo consciente de seus riscos e escolhas. Portanto, o traçado errático dos personagens é também o do filme. Ele encontra nos erros sua tentativa de risco. Em certos instantes, a câmera se concentra em planos mais fechados como proposta de buscar uma entonação e fisionomia dos personagens que até certo ponto se diferencia de outras produções brasileiras recentes, que se elabora a partir de planos mais abertos e duradouros que procuram a representação do vazio através de uma inação.
Ao mesmo tempo, As horas vulgares se vale de um artifício comum de um certo tipo de cinema que se constrói por uma representação muitas vezes icônica. Os enquadramentos são quase quadros estáticos, como aquele que apresenta o corpo de Lauro, personagem central da narrativa, junto dos amigos que o acompanham em uma espécie de velório figurativo. Outra cena que diz bastante sobre essa representação é do suicídio de Lauro: um enquadramento frontal e um plano médio se fixa no rosto do personagem enquanto ele se mata. Não vemos o método, mas percebemos a sua expressão grafada na face de Lauro. Nesse instante, está transposta em imagem a solução encontrada para se lidar com o esgotamento de uma situação-limite e inexplicável. Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize não escondem, mais uma vez, suas filiações, e se permitem buscar em suas matrizes os seus ícones de representação claramente expostos no quadro.
Durante o debate do filme em Tiradentes, Rodrigo disse algo bastante interessante: ao falar dos personagens, ele afirma que esses são pessoas em quem podemos nos identificar, mas eles, ainda assim, são representações do próprio cinema. Portanto, personagens cinematográficos que traduzem um sentimento comum, uma partilha de um mesmo sensível. Essa é a melhor das definições na tradução dessa representação icônica. Algo que se traduz também na imagem recorrente do barco da partida e na inalcançável tentativa de se expatriar. No entanto, há sempre uma volta e um encontro iminente. Não à toa, os amigos se reúnem em noites significativas ritmadas pelo jazz, que é trilha em grande parte do filme. O rompimento se dá, nessa mesma construção de uma festa, no instante em que os personagens dançam um rock e extravasam um sentimento sufocado.
“Nós somos tantos, e não somos bons”. Dita por Théo, amigo confidente de Lauro, que é uma espécie de representação do irmão preocupado, aquele que se concentra no amigo e busca compreender o incompreensível. É ele sempre quem vai se deparar com as ações e descobertas. Encontrará o corpo do amigo morto encostado na porta, irá ao encontro de Clara na cena final e mostrará a ela o retrato feito dela por Lauro. E esse é o último plano do filme, o retrato na mesa, ícone expressivo de um momento anterior. Uma espécie de representação da inevitável morte. Sentimento romântico que marca o filme.
Filmes citados:
As horas vulgares (2011/Rodrigo de Oliveira & Vitor Graize)







