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por Leonardo Amaral
Crítico: Crítica é análise (ou auto-análise)
Crítica, em suas definições etimológicas, está tanto relacionada a apreciação quanto a depreciação, a censura e maledicência. Em geral, ela se orienta segundo critérios de especificidades, qualitativos ou quantitativos. Julgamento, derivações presentes no cotidiano em relação a objetos, pessoas e conceitos. Quando o homem fala, em tese, ele já estabelece uma opinião, um julgamento e, portanto, tece alguma crítica em relação a algo. Mas o que diferencia a crítica cotidiana do que ficou convencionado afirmar como ‘crítica especializada’?
A partir do momento em que Walter Benjamin discorre sobre a aura da obra-de-arte, sobre sua contemplação, de certa forma, ele incita a necessidade de uma crítica que se baseie em conceitos e técnicas para melhor compreender o objeto de estudo. Mas o cinema, devido ao seu caráter direto e motor, para Benjamin, não possuiria a mesma aura de outras obras-de-arte. O cinema, como fenômeno comunicativo e artístico recente, ainda alimenta um sem número de análise, mesmo com uma história já rica em expressões, tipos e questões suscitadas. A crítica cinematográfica talvez lide com a forma de arte mais complexa, tanto pelo seu caráter agregador de outras artes – como o próprio Benjamin também havia observado – quanto por suas características bastante específicas – o cinema tem a capacidade de guiar, remontar o olhar, além, é claro, de poder lidar com o fora de campo de uma maneira que nem mesmo no teatro é possível; o cinema lida com todas as dimensões imagéticas e sonoras e, em todo momento, lança mão desses artifícios que, de certa forma, foram o grande trunfo de uma arte instigante (o movimento, em seus vários níveis e formas, sempre foram motivo de encantamento para o homem).
Se a crítica cinematográfica já se constitui como algo complexo, o que dirá uma espécie de meta-crítica (se é que essa é possível). O desafio da crítica de cinema talvez seja algo parecido, exatamente por lidar com esferas que estão fora de um plano concreto e estão mais orientadas segundo a impressão, a observação e a sensação. Crítica é análise, como também é auto-análise, ela só existe porque existe uma interlocução carregada de bagagens culturais, de vivências e experiências. O signo crítico talvez só exista de fato a partir do momento em que o diálogo é estabelecido e os conceitos e definições arraigados e enraizados através da análise da obra em questão.
O filme Crítico, de Kleber Mendonça Filho, consegue o mérito de lançar três questões que muitos instigam na relação crítica/filmes/cinema: afinal para que serve a crítica? ela (e o crítico) está presa e orientada segundo um período histórico (seja da humanidade mas principalmente cinematográfico)? e, finalmente, se o cinema se alimenta da crítica ou se a crítica alimenta o cinema? Essas perguntas lançadas não devem, necessariamente, ser respondidas; o mais importante é a reflexão ocasionada pelas mesmas.
O serviço da crítica não existe em um estado concreto, ele é e pode ser visto sob diversas óticas. Há, para um certo público, a crítica como legitimação de uma obra ou trabalho – a crítica da valoração que, em tese, dirá se algo é bom ou ruim, se deve ou não ser visto. Em geral, a crítica das estrelinhas, que, na verdade, pouco importa, é mais insipiente de todas; quase sempre impressionista e rasa, que afirma muito e salienta, explica e argumenta pouco. A crítica dialética, que abre canais de comunicação, que suscita e levanta questões é a que, sob um aspecto mais dialógico, a que melhor responderia a primeira pergunta lançada em Crítico: talvez a função da crítica seja a de dar vazão às várias nuances e questões fílmicas para que essas se encontrem em permanente discussão, seja nos velhos ou nos novos filmes.
Em certo momento do documentário de Kleber Mendonça, em um dos depoimentos, João Moreira Salles afirma que a crítica está diretamente relacionada com o cinema e os filmes de uma época e que alguém só será um bom crítico se estiver ligado a um determinado momento em que bons filmes são produzidos, não adiantando ele ser bom em uma safra ruim. Em tese, bons filmes trazem maiores discussões, suscitam maiores questões de estética e narrativa. Mas a entressafra ou mesmo ausência de um cinema consistente pode ser o ponto de partida para movimentos estéticos e críticos que podem trazer consigo uma nova forma de linguagem ou mesmo de análise. Exemplos históricos não faltam: nouvelle vague na França, neo-realismo na Itália, cinema novo no Brasil. A afirmação de Moreira Salles se transforma, então, em uma meia-verdade.
E da mesma questão surge uma terceira, que é a de que os críticos fazem determinados filmes e diretores realmente acontecerem ou se são esses filmes responsáveis pelo aparecimento das análises realizadas por determinado crítico. Os méritos e artifícios fílmicos podem ganhar nova dimensão a partir de dada interpretação e é papel do crítico o estabelecimento do diálogo entre público/crítica/realizador. Os critérios são múltiplos, e os meandros de cada filme estão lá para realmente serem interpretados ou suscitados – já que há possibilidades apenas sensoriais e líricas, como nos cinemas de David Lynch ou de Andrej Tarkovsky. De certa forma, seria um tanto quanto incoerente dizer, por exemplo, que o pessoal da nouvelle vague fizeram Hitchcock, Nicholas Ray ou que esses ajudaram a sacramentar esses críticos, o que houve foi uma espécie de redescoberta de ambas as partes. A crítica ajuda na recriação de modelos estéticos e narrativos, isso acaba se tornando uma de suas possíveis ‘funções’.
Enfim, mais do que tentar responder ou refletir acerca dessas e outras questões ligadas ao exercício crítico, o que se deve ter como fundamental é a existência da crítica como meio propulsor da reflexão, do surgimento de novas idéias e fomentador do cinema em seus âmbitos todos. Não existe obra-de-arte sem análise, assim como não existe crítica sem uma espécie de auto-análise mesmo; é evidente que há um arcabouço teórico por trás das coisas, existe sempre a técnica e a história como fundamentos do que se vê e analisa, mas há, porque não, o componente daquilo que realmente te toca, que estabelece uma espécie de dialogo interior e isso também é de suma importância para o fazer crítico. A imagem encanta o homem e o encantamento é o principio de tudo.
Filmes citados:
Crítico (idem, 2008/Kleber Mendonça Filho)
Sites de crítica cinematográfica:







