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por Leonardo Amaral
Cure, de Kiyoshi Kurosawa
por Leonardo Amaral

O estranhamento em Cure não vem do realismo fantástico que se imprime no filme, mas sim da maneira como é filmado. Já de cara, vemos um homem que caminha entre os carros, dentro de um túnel em Tóquio. Em seguida, uma montagem que mostra um cano que é arrancado, uma lâmpada fluorescente que se apaga e volta a acender. Posteriormente, um plano conjunto em um quarto de hotel. Sobre a cama, uma mulher nua. Um homem invade a cena, e, secamente, bate com o cano na cabeça da mulher e desfere, ainda, novos golpes. O corte seguinte nos oferece um plano dentro de um carro, onde se encontra o policial Takabe, que será responsável pela investigação de assassinatos brutais que envolvem cidadãos comuns na cidade. Os peritos chegam ao local e mostram que a vitima possui um “X” na garganta, letra essa feita por algum objeto cortante. Saindo do local do crime, Takabe torna a casa e lá podemos perceber que sua mulher (que no primeiro plano do filme lia o livro Barba Azul em um hospital psiquiátrico) é depressiva e que seus problemas familiares afetam seu cotidiano.
Em poucos minutos, Kiyoshi Kurosawa nos envolve totalmente em uma trama policial. Aparentemente, uma trama comum, como as outras, em que um crime se sucede a outro, cabendo ao investigador descobrir o criminoso. No entanto, existe algo a mais, há uma atmosfera própria que compreende aquelas ações. Ao contrário de outros filmes do gênero, nesses primeiros momentos, ainda estamos desorientados, não somente pela brutalidade e pela violência que transcorre na tela, mas pela forma como ela se apresenta, pela passividade das coisas, pelo minimalismo das ações e pela ausência total de evidências em cada um dos personagens. Assim como o investigador Takabe, pouco sabemos.
Logo após o primeiro dos crimes, vemos um plano aberto de uma praia, onde um homem escreve algo enquanto outro se aproxima. Eles conversam e o jovem que havia chegado se encontra perdido e parece sofrer de amnésia. O homem, um professor do primário, leva o rapaz para sua casa e, durante à noite, é hipnotizado pelo mesmo. Em um corte seco, vemos um corpo defenestrado. Os crimes subseqüentes terão sempre a presença do rapaz, sabemos agora que ele é uma espécie de válvula-motor das mortes: será assim como o policial que mata o colega de trabalho, da médica que assassina um homem em um banheiro público para arrancar-lhe a pela da face. Todos os crimes guiados pelas mesmas características, ou seja, o “X” cortado em algum lugar do corpo, a brutalidade, e a falta de explicação e lembrança por parte dos ‘assassinos’. De alguma forma, Takabe chega até o jovem e descobre que ele era estudante de psicologia e que estava um método conhecido como ‘mesmerismo’, advindo de uma técnica de hipnose criada e utilizada por um psiquiatra austríaco chamado Mesmer.
Ao descrever o que seria a trama do filme, parece-nos que existe uma concatenação de fatos e descobertas como nos vários filmes policiais. Todavia, não ocorre exatamente assim em Cure. Mais do que as revelações, a conjunção dos fatos, existe uma exposição de um estado das coisas. A investigação que se busca passa muito mais por um entendimento do que acontece do que necessariamente uma procura por provas e evidências. A cura não está em investigar o que acomete a cabeça do jovem lunático, mas sim uma cura de cada um dos personagens. A hipnose guia-os em seus instintos mais primários, trazem revelações de suas vidas e uma incapacidade de lidar com certas situações e marcas da vida. O policial que mata o colega o faz por não gostar dele, assim como todos os crimes trazem consigo um desejo mais íntimo.
Pensaríamos aqui se tratar de um filme policial fortemente marcado por um psicologismo e um jogo de personagens complexos, como, por exemplo, O Silêncio dos Inocentes. Ledo engano, pois, o que temos é um esvaziamento das causas. Temos os fatos: o mesmerismo, a hipnose, os instintos, mas tudo isso não passa de evidência. Tanto é assim que o investigador passa a viver os próprios medos e anseios em casa. Kurosawa explora bastante o som e o extracampo do filme: é no fora de quadro que está a descoberta de uma espécie de cura, mas nunca se tem acesso a esse exterior. A maneira de se curar é talvez a mais primária, instintiva e brutal de todas, eliminar aquele que potencializa e catalisa todas as barbaridades que ocorrem durante o filme. Após isso, Takabe toma café e aparentemente se mostra aliviado. No entanto, um simples movimento de câmera revela, ao fundo, uma garçonete com uma faca na mão. O corte para o preto não nos oferece o que ocorrerá dali para frente. Cure é um filme de consequências e evidências fortes; as causas de tudo, ele delega ao espectador, impactado pelas imagens.
*Visto no Indie 2010.
Filmes Citados:
Cure (Kyua, 1997/Kiyoshi Kurosawa)
O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs, 1991/Jonathan Demme)







