Alerta vermelho (1): cinema brasileiro em crise?
por Marcelo Miranda
Às vésperas do ano novo, os números do cinema brasileiro mexem com a minha cabeça. Salvo engano e atualização numérica, serão 30% a menos de espectadores (em relação a 2007) que se dispuseram a ir assistir a um filme feito no país. São sete milhões de pessoas, contra dez milhões do ano passado. Segundo o Filme B, assombrosos 81 longas-metragens passaram pelas salas comerciais de janeiro a dezembro.
A queda é culpa do público, dos filmes ou de alguma crise universal? Enigma indecifrável. Mas, por mais que seja delicado apontar dedos ou mesmo achar respostas de supetão, tenho tido a sensação de que o espectador brasileiro está pouco interessado no que seu cinema lhe oferece. Basta trocar uma ou duas palavras informais com colegas, amigos, parentes, desconhecidos. Dos que foram ao cinema, poucos escolheram um brasileiro. Mesmo quando isso aconteceu, a empolgação raramente é das maiores. Somente Meu Nome não é Johnny alcançou bilheteria minimamente razoável em 2008 (pouco mais de 2 milhões de espectadores). O restante não chegou a 1 milhão, com vários filmes mal alcançando 100 mil.
É estranho pensar que o cinema brasileiro precise de fenômenos isolados (Carandiru, Cidade de Deus, 2 Filhos de Francisco, Tropa de Elite) para seguir existindo aos tropeços diante de seu público. O ingresso está caríssimo, de fato, isso ninguém pode negar. O acesso às salas também não é dos melhores, com a esmagadora maioria localizada em shopping centers das regiões centrais das cidades.
Porém, há um detalhe muito pouco lembrado na equação: o freqüentador de cinema que pode pagar e que possui bom acesso à sala de exibição tem o direito de escolher a qual filme assistir. No cardápio que se coloca à sua frente, ele pode investir seus R$ 15 no que lhe der vontade de ver. E enquanto filmes brasileiros não se tornarem o foco dessa vontade, vai ficar difícil.
Vale recorrer, aqui, às palavras de Eduardo Escorel, cuja importância e talento como montador e diretor se somam à sua clareza e firmeza de pensamento. Na antologia Adivinhadores de Água, publicada pela Cosac Naify, assim ele escreve, concluindo determinado raciocínio:
É esse o quadro sombrio que nos leva a indagar se o cinema brasileiro é necessário. Se a televisão supre as necessidades de ficção de milhões de espectadores, quem precisa dele? Com livre acesso à visão do original importado, quem se interessará pela imitação nacional? Afinal, uma cinematografia não pode ser o resultado apenas do desejo de quem faz filmes. Ela só será necessária se for uma expressão cultural legítima; quando estabelecer um vínculo profundo com o público e não puder, por isso mesmo, ser liquidada por decreto; quando, para existir, não depender de favores fiscais e da boa vontade dos governantes.
É mais ou menos por aí: se o brasileiro não aprender a amar o seu cinema, como ele, o cinema brasileiro, poderá existir?
1/01/09 Ã s 14:23
Marcelo, eu já afirmei isso em outras ocasiões: essa questão é enganosa. O grande público vê filmes na TV? Então não se pode cobrar que os filmes façam sucesso de bilheteria nos cinemas - eles têm é que passar na TV! Não adianta querer ir contra a mudança na sociedade. É preciso então diferenciar “o cinema” no sentido de produção de filmes e “o cinema” no sentido de exibição em salas comerciais. Misturar isso é uma confusão dos diabos, inteiramente equivocada, que só serve pra botar a faca na garganta de quem quer fazer filmes em Terra Brasilis.
abraços aos polvos!
3/01/09 Ã s 15:47
concordo com o caetano, apesar de crer no que diz marcelo também. acho que está na tv a melhor forma de fazer o brasileiro ver (e posteriormente gostar) do seu cinema.