Carlosmagno: impossibilidades possíveis

por Marcelo Miranda
* publicado em O TEMPO no dia 29.7.2008


Foto de Léo Fontes/O Tempo

Numa das sessões do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte do ano passado, uma figura vestida com macacão amarelo e um discurso estranho sobre política e arte chamou atenção do público. Os cinéfilos locais, porém, sabiam bem de quem se tratava. Era Carlos Magno, videomaker celebrado como um dos nomes mais criativos da produção audiovisual mineira e dono de personalidade ímpar.

Um ano depois, o nome é outro - Carlosmagno Rodrigues -, mas a verve crítica e irônica continua a mesma, agora sendo pulverizada: o festival organizou uma retrospectiva completa do diretor. São 21 trabalhos, desde suas primeiras incursões no vídeo até as realizações mais recentes. Para o próprio Carlosmagno, ver toda a sua obra reunida transmite sobre o que, afinal, fala seu cinema. “Na impossibilidade de transformar a idéia original num produto audiovisual, na tentativa de tornar explícito o que eu realmente gostaria de fazer, nascem os meus filmes”, define o diretor.

Todo esse processo do impossível, portanto, é o que chega à tela, em vídeos mesclando ficção e documentário, muitas vezes incômodos e cheios de ícones e símbolos intercalados com a imagem e o som - como em Imprescindíveis, Antes de Tudo, Kalashnicov e Anticristo - Um Vídeo sobre a Minha Morte. Carlosmagno chama seu processo criativo de “revelações decepcionantes”. “Antes eu tangenciava isso, agora estou explicitando. Meus últimos quatro vídeos são assumidamente sobre eu não conseguir criar naquele momento”, conta Carlosmagno. “O tipo de cinema que me interessa é o de coisas subjetivas que atingem as pessoas fora da sintonia do que é o filme.”

Com postura variando entre o escrachado e o iconoclasta, o polemista e o debochado, o intelectual e o popular, Carlosmagno Rodrigues se define como um “monstrengo”, ou simplesmente “alguém que não se encaixa na sociedade de consumo e nos padrões estabelecidos”, em suas próprias palavras. “Sou o que costumam chamar de ‘freak’.”

Não à toa, portanto, Carlosmagno louva na literatura Os Miseráveis, de Victor Hugo, e Crime e Castigo, de Dostoiévski. “São livros sobre a impossibilidade de ser bom”, diz ele. E vai mais longe: enxerga em Jean Valjean e Raskólnikov personagens precursores do que viriam a ser ditadores como Hitler e Stálin. “São homens que sonharam com um modelo de sociedade, mas tentaram não construir e, sim, implantar suas vontades. E se não se constrói junto, não dá certo.”

O cineasta de (quase) 36 anos se assume autêntico comunista. Levanta para o repórter do Magazine os dois punhos fechados, onde se vêem estrelas tatuadas nas dobras dos dedos, e afirma: “Para mim, cada ponta dessas estrelas representa a união dos continentes ao redor do mundo.”

O filho. Carlosmagno Rodrigues é isso. Uma figura cheia de contradições, fábrica constante e efervescente de idéias e conceitos sobre política, arte, cinema, sociedade, quase sempre transmitidos de maneira perturbadora em seus projetos audiovisuais. “Embora eu tenha sonhos, acredito que o mal sempre vence. E me identifico com os perdedores, com os românticos, revolucionários, poetas, aqueles que tentaram, ousaram e se deram mal.”

Ele se formou na Escola de Belas Artes da UFMG (”passei a maior parte do curso dentro da biblioteca”) e não poupa palavras contra a instituição. “Os professores da Belas Artes, com exceções, prezam a mediocridade.” Antes mesmo de completar o curso, Carlosmagno fez parte de uma antologia de videoarte. Enveredou pelo formato logo em seguida. Seu primeiro vídeo chama-se Michelangelo Antonioni (1995), feito a partir de suas reações aos filmes do diretor italiano.

Ainda no começo da carreira, passou a colocar o filho, Bruno, para atuar nos vídeos. “Percebi que, interagindo com meu filho, eu teria chance de uma relação saudável com ele”, conta. “Antes éramos distantes. Quando comecei a fazer os filmes e mostrá-los, ele ficou empolgado.” Bruno tem hoje 11 anos - o nome vem do personagem de Stroszek, de Werner Herzog. O primeiro vídeo a ter sua presença, Targa Stalker, data de 2001, quando ele tinha apenas 4.

Controvérsia. Um dos filmes mais polêmicos e instigantes de Carlosmagno Rodrigues é Igreja Revolucionária dos Corações Amargurados (2006). O diretor foi ao Alto Vera Cruz (periferia de Belo Horizonte) e montou uma falsa igreja na comunidade. Espalhou o boato de que haveria cultos, com slogans como “aqui você não paga dízimo, você recebe” ou “é preciso ganhar dinheiro”.

Os novos fiéis recebiam, de fato, um pagamento para acompanhar a cerimônia. Vestidos com roupas cor de laranja e com discursos fascistas, os “pastores” pregavam a vitória financeira em cima da elevação espiritual. “O filme é uma ação performática sobre a violência. Eu queria provocar. Se possível, até tomar um tiro”, brinca o diretor.

Foram quatro dias instalado num galpão do Alto Vera Cruz – com direito a visita da polícia, alegando “perturbação da ordem”. Tudo devidamente documentado por Carlosmagno e levado à tela como um curta-metragem de linguagem anárquica que dialoga justamente com mídias fascistas. “O que fiz foi exatamente o que as instituições religiosas fazem nas comunidades pobres: infiltram-se, oferecem uma imagem e a possibilidade de prosperar.”

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