Renascido das cinzas

Em sessão histórica, José Mojica Marins lança em Paulínia Encarnação do Demônio, sonhado fecho da trilogia com Zé do Caixão 

por Marcelo Miranda
Enviado especial a Paulínia
(matéria originalmente publicada em 12.07.2008, no jornal O TEMPO)

Dia 9 de novembro de 1964: após um filme inacabado (a atriz principal morreu de congestão numa piscina) e dois outros de pouca expressão na época (o faroeste A Sina do Aventureiro e o melodrama Meu Destino em Tuas Mãos), o diretor José Mojica Marins lança no cine Art Palácio, em São Paulo, À Meia-Noite Levarei sua Alma. O terror, filmado em 13 dias com orçamento quase inexistente e à base da camaradagem, leva milhares de pessoas à sala de exibição e apresenta ao público o mitológico coveiro Zé do Caixão.

Dia 9 de julho de 2008: após mais de 20 anos sem filmar e 42 anos depois do segundo filme protagonizado por Zé do Caixão (Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver), Mojica exibe no 1º Festival de Cinema de Paulínia (SP), para mais de mil espectadores, Encarnação do Demônio, fecho de uma trilogia. Diferente de 1964, o filme de agora teve orçamento de R$ 1,3 milhão (o maior da trajetória do cineasta), abre com fanfarra e logotipo da Twentieth Century Fox, que topou distribuí-lo, e contou com supervisão e produção de dois nomes de peso do mercado - Paulo Sacramento, da Olhos de Cão, e Fabiano Gullane, da Gullane Filmes.

“Minha missão está cumprida. Mais do que um filme, Encarnação do Demônio se tornou, para mim, uma lição de vida”, disse um emocionado Mojica no palco do Theatro Municipal de Paulínia, na última quarta-feira. Trajado de Zé do Caixão e aplaudido de pé, ele retirou do bolso uma folha contendo alguns escritos. “Peço a todos pequena paciência”, solicitou, para logo ler o papel, sempre mantendo o tom de voz fúnebre do personagem.

Falou resumidamente sobre os problemas que acometeram a realização do filme desde 1966, quando o roteiro foi escrito, e a respeito dos momentos mais difíceis de sua trajetória, especialmente quando passou a ser estigmatizado como simplesmente uma figura folclórica. “Paguei o carma da evolução. E como paguei caro!”, vociferou. “Fui perseguido por todos, mas também, de certa forma, por mim mesmo”, continuou, referindo-se às escolhas que fez para sobreviver (programas na TV, produções pornográficas, participação em festas). Curioso foi perceber o quanto, nas falas que até agora pronunciou em Paulínia, Mojica parece demonstrar que todo o seu caminho ao longo dos anos era para chegar a Encarnação do Demônio.

Impressão confirmada por Paulo Sacramento. “Esse é o filme que ele sempre quis fazer.” Fã ardoroso de Mojica, Sacramento foi instigado pelos falecidos amigos Jairo Ferreira e Rogério Sganzerla a assumir a responsabilidade de trazer o cineasta de volta às telas em grande estilo. No ano de 2000, nas filmagens de seu documentário O Prisioneiro da Grade de Ferro, ele contou com o ânimo de seu assistente, Dennison Ramalho, outro aficcionado pela persona de Zé do Caixão e por toda a carreira de Mojica. Juntos, armaram o projeto de literalmente desenterrar o personagem e trazer à luz a tão sonhada conclusão da trilogia. Com a entrada da Gullane e os apoios conseguidos no caminho (principalmente o edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura), finalmente Encarnação do Demônio foi se tornando verdade.

“Demos total liberdade ao Mojica pra fazer o filme do jeito dele”, garante Sacramento. A função de Dennison Ramalho era aparar o roteiro original e adequá-lo ao atual contexto do gênero de horror no cinema. “A gente sabia da necessidade de preservar as características originais do Zé do Caixão, mas não podia deixar de inseri-lo no cenário atual, sempre na tentativa de deixá-lo superar o que tem sido feito”, relembra Dennison. “A idéia era que, atingindo todos os limites, faríamos com que o Mojica ressurgisse da mesma forma como foi nos anos 60: com o pé na porta, transgredindo mesmo.”

E transgressão foi a palavra de ordem na realização de Encarnação do Demônio - que tem estréia nacional no dia 8 de agosto, com previsão de lançamento de 40 a 60 cópias no circuito. Quem conhece os dois primeiros capítulos da saga de Zé do Caixão vai encontrar agora um ápice de brutalidade, desespero e delírio. O filme começa justamente quatro décadas após Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, apresentando o coveiro sendo libertado de uma prisão paulista. Mojica, assim, acompanha a reinserção de Zé na sociedade, agora circulando por uma metrópole cheia de “novidades” - pobreza, violência policial, corrupção, vilanias. Mesmo assim, lá está ele com a obsessão eterna: gerar o filho perfeito para a perpetuação de seu sangue. Na ânsia de atingir tal intento, atormentado pelos crimes do passado e perturbado pelo caos da metrópole, o coveiro está mais selvagem e sádico. “Eu e o Paulo Sacramento passamos boa parte dos nossos dias pensando em quais atrocidades podíamos colocar na tela”, diverte-se Dennison.

VIOLÊNCIA. De fato, o público vai se deparar com um filme bastante diferente de um certo tipo de cinema comportado que tem vigorado no Brasil - ou, mais ainda, nos multiplexes, onde ele terá lançamento forte por conta da Fox. Há todo tipo de violência física e psicológica, de escalpelamentos a corpos costurados e estripados, de purgatório à base de canibalismo às já famosas cenas com bichos asquerosos (cobras, baratas, ratos). “O que mais tem marcado o cinema de horror hoje é a idéia de desintegração física e mental do corpo, tanto no cinema norte-americano industrial, com filmes como Jogos Mortais e O Albergue, a trabalhos mais artísticos, feitos especialmente na Ásia. Buscamos nos inserir nisso”, conta Dennison.

 

Mojica, claro, está encantado com tudo. “Quando criei o Zé do Caixão, eu queria apenas fazer um personagem que ficasse famoso e fosse lembrado como algo importante para a nossa cultura. Jamais imaginei que um dia fosse fazer o filme dessa forma”, diz. “Eu só me senti realizado quando subi no palco em Paulínia e apresentei a fita àquele público ansioso. Agora pode acontecer qualquer coisa comigo, posso ir para outro mundo amanhã até, porque já estou satisfeito.” Três batidas na madeira, Mojica.

Ainda que vá funcionar (e muito bem) aos fãs do horror, Encarnação do Demônio evoca elementos muito além do gênero, fazendo do sangue e das tripas que surgem aos montes na tela quase um desfecho poético e incrivelmente bem filmado para criação tão sádica como Zé do Caixão. É ao mesmo tempo um emaranhado de grandes cenas de violência gráfica e a derrocada de um personagem trágico por natureza, figura que, para além de toda vilania, misoginia e sadismo, guarda senso moral muito próprio e de acordo com a crença de que o sangue é a única forma de perpetuação do ser humano.

Na sessão do 1º Festival Paulínia de Cinema, na noite de quarta-feira, a fanfarra da Fox que abre o filme soou num som estridentemente alto para dar espaço a algo que passa longe do que se espera de uma produção com tal logomarca. Encarnação do Demônio é um emaranhado de grandes seqüências que vão deixar tanto o mais profundo entendedor de terror quanto os “leigos” em polvorosa, devido à visceralidade e antropofagia no trato com a imagem e com a história. “Sugiro às mulheres grávidas que se retirem da sala”, brincou o diretor, antes da projeção.

MITOLOGIA. Num respeito à mitologia do personagem e à contextualização histórica de sua trajetória enquanto verdadeiro ícone cultural tipicamente brasileiro, há diversas cenas retiradas diretamente de À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver (1967), que ilustram diversas passagens e delírios do personagem. Nudez feminina (elemento primordial do bom terror dos anos 60 e resgatado aqui, segundo Dennison Ramalho, co-roteirista) e tortura das mais incômodas e sem efeitos especiais vão se acumulando de forma sempre impactante.

O público se depara também com longa cena passada numa espécie de purgatório, em que o Zé do Caixão é levado por uma figura estranha (interpretada por Zé Celso Martinez Corrêa) e se depara com centenas de pessoas sofrendo chagas e se canibalizando de forma perturbadoramente explícita.

Filme realmente carnívoro, que parece engolir a tudo e a todos, dar uma banana a qualquer politicamente correto e inventar soluções de dramaturgia e encenação bastante pertinentes ao estilo primitivo e artesanal do modo Mojica de fazer cinema. “Ele se reinventa a cada novo plano”, exalta Paulo Sacramento, produtor. “Nas filmagens, o Mojica reagia de acordo com as necessidades dele. Nunca houve uma maneira única dele dirigir. Tudo ia de acordo com o que era preciso no momento das cenas.”

Na medida em que se divulgavam os apoios e a produção que Mojica receberia para realizar Encarnação do Demônio, existiu o temor de que o filme sairia fora do estilo mais selvagem e artesanal do diretor. Pelo que se vê na tela, não. Está lá um Mojica legítimo.

O repórter esteve em Paulínia a convite da organização do festival.

Uma resposta para 'Renascido das cinzas'

  1. Blog do Polvo » Blog Archive » O mal em Veneza Diz:

    […] Encarnação do Demônio, novo trabalho de José Mojica Marins, foi selecionado para a mostra Midnight Movies do Festival de Veneza. Será Zé do Caixão azarando e assustando os incautos freqüentadores de um dos eventos mais prestigiosos do cinema mundial. […]

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