Ele está (quase) entre nós
por Marcelo Miranda

Às vésperas de estrear seu primeiro longa-metragem desde 1987 e a retomada do mítico Zé do Caixão mais de 40 anos depois de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, José Mojica Marins vai exibir Encarnação do Demônio nesta quarta-feira, no I Festival Paulínia de Cinema, no interior de São Paulo.
Este polvo lá estará para acompanhar o histórico acontecimento. Como forma de já esquentar o assunto e homenagear esse retorno em grande estilo de Mojica, republico abaixo entrevista que fiz com ele no final do ano passado, quando esteve em Belo Horizonte para animar uma festa de Halloween (!).
Vale lembrar que a entrevista foi publicada no dia 1º de novembro de 2007, no jornal O TEMPO. Encarnação do Demônio estréia no circuito comercial no próximo dia 8 de agosto.
Em que pé está “Encarnação do Demônio”, a conclusão da trilogia com o personagem Zé do Caixão?
O filme está praticamente finalizado nas filmagens. Entre 15 e 16 de novembro ainda vamos fazer alguns planos a mais de São Paulo e uns takes de mãos e de olhos para determinadas cenas serem reforçadas. Vamos fazer isso para engrandecer a fita, dar mais força. Estamos vendo o fundo (trilha) musical, que acho a coisa mais importante. Em vez de ficar explicando para o compositor o que estou querendo, vou montar uma trilha com trechos de outras músicas de filmes que já vi. Aí faço uma trilha falsa e mostro ao maestro, para ficar mais fácil de explicar o que eu quero. Fazia antes tudo explicadinho, mas quando os compositores criavam as músicas, estava tudo completamente diferente do que eu pensei! A idéia é lançar Encarnação do Demônio no dia 13 de março, quando eu completo 72 anos. Seria um grande presente! Mas se não der, a gente não vai forçar, e aí lança lá para abril. Quero um material bem legal. Já projetamos um pedaço do filme numa sessão em São Paulo, e a recepção, minha mãe do céu, foi ótima! Tive carta branca e fiz o filme que queria. Filmei tudo em película e ninguém teve intromissão em nada. Essa é a fita do meu sonho, a fita que esperei 41 anos para fazer. Vai ficar ótima e não vamos dever nada aos norte-americanos.
Como foi a experiência de voltar ao set mais de 20 anos depois do seu último longa e 43 anos depois de À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o primeiro da trilogia com o Zé do Caixão?
Havia dúvida até dos meus melhores amigos de que eu faria esse filme. Todos estavam torcendo, mas ninguém acreditava que eu chegaria lá. Comecei o primeiro dia de filmagem meio cismado. Eu tinha 70 técnicos dos melhores da área, mas no primeiro filme com o Zé do Caixão, nos anos 60, eram 120 pessoas na equipe inteira! Mas aí, quando peguei o pique, a turma sofreu comigo. Eles não estavam acostumados a trabalhar 15 ou 18 horas por dia, mas eu vinha de um passado em que o cinema não tinha hora para ser feito. Aí o pessoal pensou que eu não aguentaria o ritmo das filmagens nem até a metade. Mas quem não estava aguentando eram eles! Fiz uma reunião e disse: “Pô, vocês têm 30 anos, e eu tenho 70, vocês não aguentam?”. Disse que eles não podiam cansar daquele jeito. Isso deu uma injeção de ânimo, e o filme que eu tinha 90 dias de prazo para filmar foi feito em 40 dias. Teve gente que depois ficou semanas de folga, mas eu não! Já emendei outros trabalhos, como a finalização de A Praga, um filme que comecei a rodar nos anos 80 e precisei parar. O (pesquisador) Eugênio Puppo reuniu verba e finalizou o filme, que vai ser lançado numa retrospectiva da minha obra no CCBB e depois entrar no circuito comercial uns meses depois do Encarnação do Demônio. Tem ainda um curta que começo a fazer de agora até o dia 15, uma coisa bem forte. Digo que 2008 vai ser o ano do Zé do Caixão, vai ter livro escrito nos EUA e uma coleção de quadrinhos em 12 revistas.
Toda essa mobilização no Brasil em torno do seu trabalho pode ser considerada um reconhecimento tardio?
Se me pegou com vida, nada é tardio. Nunca vai ser tardio enquanto eu estiver vivo. Se querem me homenagear, me homenageiem agora, porque depois de morto não adianta nada. O problema é que tem gente se aproveitando disso, fazendo homenagens e querendo que eu participe de graça. Porra, isso tem que ser com quem quiser aparecer! Eu já faço parte do nosso folclore e vivo de participar de eventos. Esse negócio de querer homenagear sem pagar cachê para eu ir, dizendo que vai ter jornalista e não sei o que mais, não dá. Não preciso disso, estou precisando mesmo é de ter o meu cachê. Estou com mais de 70 anos e dependo disso para viver.
O senhor sentiu mudanças na forma de fazer cinema da época que começou para hoje?
Acho que a única coisa que o pessoal ficava apavorado é quando eu dizia que ia usar aranhas reais, ratos reais, baratas de verdade… Temos uma cena com mais de 3.000 baratas, que deve assustar o mundo todo, quando uma personagem morre sufocada pelas baratas. Nessa cena só ficamos eu e a atriz no set, e eu preparei ela (sic) psicologicamente. O resto da equipe ficou longe, com medo. Eles diziam que podiam fazer a cena com computador, mas eu falei que nunca usei computador e não ia usar agora. Se tenho liberdade para fazer da minha maneira, pra que computador? O pessoal se apavora muito quando mexe com inseto e bicho. Numa outra cena, coloquei uma menina costurada dentro de um porco, para depois eu abrir a costura e tirar ela de lá. Isso causou polêmica em todo canto, veio pessoal dos Direitos Humanos reclamar. A atriz precisou falar a todo mundo que ela quis fazer a cena, que ela aceitou como ia ser filmada. Hoje em dia é um troço diferente, tudo tem que ser no computador, ninguém quer fazer uma cena real e original. O valor dessa minha fita é o trabalho artesanal, o trabalho dos maquiadores, dos fotógrafos, dos efeitos especiais, eles tiveram uma chance muito grande. Eu não senti diferença nenhuma para fazer o filme, eu me sentia no meu mundo, parece que eu estava de novo com meus 25, 30 anos.
E isso te deu mais fôlego?
Quando senti a câmera 35mm (eu já tinha usado aquele troço digital, que não gosto), quando vi toda a equipe se preparando e filmando em película de verdade, me senti realmente renovado. Estão dizendo que pode ter uma continuação para o filme. Se pintar, estou pronto.
O senhor continua um diretor de instintos?
Esse negócio de livro eu não mexo desde que ganhei um livro de cinema que depois foi rasgado pelo Person (o diretor paulista Luís Sérgio Person, de São Paulo S.A). Tenho uma linguagem única, só minha. Nos EUA uns caras pediram para usar a minha linguagem. Eles podem, mas será que conseguem? Me lembro do Person dizendo que eu não tenho que ler livro, eu tenho que fazer o meu livro e colocar os outros lendo. A minha linguagem é econômica e vai direto ao público, é um cinema de autodidata. Não sigo regras, não vou pela direita nem pela esquerda. Penso numa maneira de mexer com o espectador, e se sinto que estou mexendo, aí deu certo. Afinal, não faço filme para mim, como muita gente faz. Quem quiser achar mensagem nos meus filmes, que ache por conta própria, mas filmo para os espectadores, para mexer com eles.
Acredita ainda existir cinema popular no Brasil? Você acompanha o circuito de lançamentos?
Só procuro ver realmente recomendações de filhos e amigos. Não perco tempo de ver qualquer coisa. Estou curioso para ver esse Tropa de Elite. Querô é o último que vi, e gostei bastante. Tenho estado ocupado, e o meu tempo corre muito rápido por causa da idade. Tenho me preparado para poder me aposentar. Quanto ao cinema popular, dou muita força, em todos os debates e palestras que faço, para essa juventude pegar e fazer um negócio para o público. Nada de imitar EUA, pois a gente não tem condição. Temos jovens muito criativos que vão nos dar muita satisfação. Eles ainda estão engatinhando, espero que Encarnação do Demônio dê uma força a eles.
9/07/08 às 13:21
Marcelo,
Lembrando que ele fez a sessão sinistra no Cine Santa Tereza, local onde disse ter ficado um final de semana falando pra muitas pessoas na década de 1980 sobre cinema. O público tanto fez que ele prorrogou sua estada. Após contar isso, até perguntou se algum dos presentes ali na “Sessão Sinistra” também estivera naquele local décadas antes. Ninguém se manifestou.
Outro detalhe é a festa de Halloween que ele veio. Foi na Mary in Hell e parece que, pouco após a aparição do Zé, acabou a energia no lugar! Com isso, muita gente saiu do lugar - e mesmo sem pagar…
10/07/08 às 1:18
se manifestaram sim, marcelo. se não me engano, foi nosso polemista preferido, ataídes braga.
e a energia que acabou na mary in hell foi depois de a molecada insistir muito pra ele rogar uma praga. aí deu no que deu, e tooodos sairam sem pagar. rsrsrs.
mojica é uma figura. to doido pra ver o filme dele, então conta aí pra nós que gosto tem.
10/07/08 às 1:20
opa, onde eu disse marcelo eu quis dizer nisiotei. troquei as bolas.