Mostra reflete o olhar cinéfilo de Marcelo Gomes
por Marcelo Miranda
Complementando o material reproduzido pelo amigo Nísio no post abaixo, seguem mais informações a respeito.
*Que Cinema, Aspirinas e Urubus é um filme que parece exalar diversas influências, isso é facilmente perceptível. Mas uma das sutilezas deste primeiro longa do pernambucano Marcelo Gome é não deixar que o diálogo travado com obras de outros realizadores suplante o próprio trabalho deste cineasta. É justamente do mergulho analítico no que o diretor absorveu para seu primeiro grande projeto que nasce a proposta da Mostravídeo Itaú Cultural deste mês, que toma o Cine Humberto Mauro a partir de hoje e por todas as terças-feiras até o dia 23 de julho, em Belo Horizonte.
“Fazer um paralelo entre a figura do Marcelo como cineasta ao lado do cara que é essencialmente um espectador, um cinéfilo, permitiu que eu mergulhasse nos filmes que faziam a cabeça dele e com os quais ele dava atenção a pequenos detalhes”, diz a produtora e roteirista Daniela Capelato, curadora e idealizadora do projeto “O Cineasta-Espectador”, cuja primeira investida é em Gomes - que, aliás, coordenou um videoclube quando mais jovem, ainda em Recife. “A mostra reflete o olhar muito pessoal sobre como o mundo é enxergado a partir de outras obras. Nesse caso, o Marcelo se deixou tomar por obras muito abertas e que possibilitaram ao Cinema, Aspirinas e Urubus ser ele também um trabalho em aberto.”
Referenciais. Os títulos dos filmes participantes da mostra esclarecem bastante a que tipo de “abertura” Daniela se refere. O próprio Cinema, Aspirinas e Urubus terá presença do diretor, que debaterá com o público após a projeção. Na semana que vem, Iracema, uma Transa Amazônica, de Jorge Bodansky e Orlando Senna, explicita o diálogo com a realidade que caracterizou este filme de 1974 e está muito presente no longa do pernambucano.
Em seguida, na outra semana, uma sessão dupla e bastante peculiar: o iraniano Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami, e o norte-americano Vinhas da Ira, de John Ford. O primeiro, um ensaio reflexivo sobre o deslocamento e o suicídio; o segundo, uma das maiores obras-primas de um eterno mestre, que trata a questão da pobreza e do desemprego com total franqueza e dor. Dois trabalhos de impacto, que deram a Marcelo referenciais de buscas e anseios dentro de um espaço que, apesar de infinito (natureza, deserto, sertão), parece oprimir os personagens.
Por fim, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, representa a analogia da secura presente em Cinema, Aspirinas e Urubus. “Marcelo queria chegar a uma cor do sertão e pensava em como tratar essa cor próxima a Deus e o Diabo sem ser igual a ele”, comenta Daniela Capelato.
Confira a programação completa aqui.
*publicado no jornal O TEMPO em 02.07.2008