“Meu Nome é Dindi” nos cinemas em agosto
por Marcelo Miranda
Djin Sganzerla em pessoa confirma: “Meu Nome é Dindi”, estréia do carioca Bruno Safadi em longa-metragem e ganhador do prêmio de melhor estreante na Mostra de Cinema de Tiradentes em janeiro, vai estrear no circuito comercial no dia 29 de agosto, distribuído pela Riofilme. Grande notícia aos entusiastas do moderno cinema de invenção e, especificamente, a este trabalho de tanto frescor e tesão pelo cinema.
Para celebrar a chegada do filme, reproduzo abaixo um perfil que escrevi sobre o Safadi após a vitória em Tiradentes. O texto foi publicado no jornal O TEMPO no dia 8 de fevereiro deste ano.
Por um cinema de invenção
Com longa de estréia, “Meu Nome É Dindi”, jovem diretor Bruno Safadi aponta caminhos de uma carreira promissora
Quase no final da 11ª Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro, um filminho de R$ 55 mil, cheio de cenas sem cortes, de tom absolutamente indefinido nos seus pouco menos de 90 minutos de duração e protagonizado por uma atriz de rosto desconhecido do grande público deixou a platéia do evento razoavelmente perturbada. No dia seguinte, o júri da crítica premiou a produção com o Troféu Aurora, dedicado ao melhor longa de diretor estreante na mostra. O filme era Meu Nome É Dindi; o diretor, Bruno Safadi; e a atriz, Djin Sganzerla. O rapaz de 27 anos subiu ao palco para agradecer o prêmio e louvou o reconhecimento ao chamado cinema de invenção.
Safadi é um talento prematuro. Meu Nome É Dindi nasceu quase como um vômito cinefílico. É a reação de uma vontade irresistível de fazer um filme. “Era necessidade, urgência, vontade de realizar imediatamente”, define Safadi, em conversa por telefone diretamente do Rio de Janeiro, sua cidade natal. “Quero ter uma carreira no cinema. Quero enxergar cada trabalho como o projeto do momento e, não, da vida toda.”

Safadi em Tiradentes, em foto de Leonardo Lara
Pressa é o que moveu Bruno Safadi em Meu Nome É Dindi. Mas quem pensar que isso significa trabalho malfeito estará radicalmente enganado. O filme, fruto de uma semana de filmagens num bairro carioca e de detalhado processo de finalização no decorrer do ano passado, é pouco preocupado necessariamente com a trama. Importa a Safadi o exercício de colocar na tela série de referências que marcou sua formação, desde o Stanley Kubrick do começo de carreira em A Morte Passou por Perto, passando por Roman Polanski de Repulsa ao Sexo e chegando até Orson Welles e Jean-Luc Godard, para narrar o triste cotidiano de uma garota de classe baixa à beira da falência total. Mas o que inexoravelmente move o filme é mesmo o tributo a Rogério Sganzerla e Julio Bressane, dois nomes que literalmente conquistaram Safadi no começo de sua faculdade de cinema, na Universidade Federal Fluminense (UFF), que mantêm aceso o interesse e a vontade de seguir sendo diretor.
Safadi tinha 18 anos quando tornou-se membro da reduzida equipe de Dias de Nietzsche em Turim (2001), dirigido por Julio Bressane. “Eram umas sete ou oito pessoas apenas, tudo bem pequeno. Isso permitiu grande proximidade com todo mundo, inclusive com o Julio”, relembra Bruno. O contato se solidificou quando ele organizou, ainda durante o curso na UFF, uma mostra dedicada aos filmes da produtora Bel-Air, fundada em 1970 justamente pela dupla Bressane e Sganzerla e responsável por filmes emblemáticos como Sem Essa, Aranha (1971) e O Abismu (1977). “Tivemos uma enorme empatia, a ponto de o Julio me convidar para acompanhar a montagem do filme dele na época. Foi quando comecei a trabalhar profissionalmente com cinema”, conta.
Braço direito. Enquanto montava Dias de Nietzsche em Turim ao lado de Bressane, Safadi passou a se dedicar aos próprios projetos, entre eles os curta-metragens Gosto que me Enrosco (2001), Na Idade da Imagem ou Projeção das Cavernas (2002) e Uma Estrela pra Iô-Iô (2003). Logo foi convidado para ser assistente de direção dos trabalhos seguintes de seu tutor, Filme de Amor (2003) e Cleópatra (2007) - ambos deram a Bressane o Candango de melhor filme no Festival de Brasília em seus respectivos anos. “Eu descobri que, para ser um bom diretor, era preciso ter boas experiências: acompanhar os problemas que eles enfrentavam, como pensam seus filmes, qual é a relação com o produtor…”
Toda essa carga deu a Safadi a confiança de mergulhar fundo no primeiro longa, mesmo remando contra as recusas ao projeto. “Cansei de receber ’não’ e fui fazer por minha conta. Tinha juntado algum dinheiro com meus trabalhos como assistente, reuni gente que também acreditava na urgência de realização e fomos fazer”. Safadi articulou uma cooperativa para levantar fundos suficientes para o filme, em processo semelhante ao de Heitor Dhalia e Selton Mello para O Cheiro do Ralo” Somou a isso o salário recebido como assistente de direção da telenovela da Globo O Profeta e lá estavam as tais condições criadas para dar forma a Meu Nome É Dindi.

Djin Sganzerla protagoniza Meu Nome é Dindi
O diretor é contundente na sua ânsia por cinema. Sonha em finalizar um, dois, até três filmes por ano. Porém, sabe das limitações impostas pelo mercado brasileiro de produção. Até por isso, assumiu ele mesmo os riscos (principalmente financeiros) de pegar a câmera e tornar reais suas idéias para Meu Nome É Dindi. “A partir da própria vontade, é preciso criar as condições para fazer o que foi pensado”, conta.
Claro que não é trabalho dos mais fáceis, e Safadi não é nada cínico de achar que basta querer para poder. O que ele defende é a quebra das “regras” existentes nos famigerados mecanismos de incentivo à cultura característicos do país para, a partir daí, algo novo nascer. “Tenho visto uma nova geração surgir, e são pessoas ávidas por fazer, tanto através do dinheiro público das leis quanto de outras formas e do jeito que for. Essa geração reflete justamente a nova realidade brasileira do período que foi a Retomada, quando surgiram as leis, pois só se pode buscar alternativas se o meio oficial já existe.”
Bruno Safadi tanto acredita nas duas possibilidades de realização - a lei e a fora-da-lei - que seu segundo longa-metragem (em parceria com Noa Bressane, Rosa Dias e Moa Batsow) tem sido desenvolvido com verba de R$ 600 mil conseguida em edital da Petrobras. “A lei é um caminho, mas não pode ser o único caminho. Há dez anos, nada do que está sendo feito seria possível, mas agora, mesmo de forma árdua e trabalhosa, existem as chances. Há os quem têm pressa, outros nem tanto, mas todos devem aproveitar as circunstâncias.”
Invenção. Foi com tais circunstâncias surgidas no seu caminho que Bruno desenvolveu Meu Nome É Dindi tendo como mote a filiação ao cinema de invenção que ele tanto defende e enxerga como possibilidade de recriação da vida a partir de idéias extremamente particulares. “Como diz Jean-Luc Godard, a gente enxerga a vida a 24 quadros por segundo. O cinema é uma visão muito ampla da vida e proporciona formas de recriá-la do jeito que quisermos”, afirma. “O cinema de invenção é aquele em que tudo é verdadeiro e liberto de qualquer tipo de prisão de estilo ou gênero.”
Meu Nome É Dindi serve de ponte ao novo filme de Safadi - aquele que está sendo feito com orçamento, sem precisar de cooperativas. Trata-se de um documentário justamente sobre a Bel-Air, a produtora de Bressane e Sganzerla dos anos 1970. “É uma história tabu dentro do cinema brasileiro. Existe interesse muito grande nos filmes desse período, mas as pessoas não conhecem a produtora porque sua importância foi abafada.”
Curioso é que Safadi parece até concordar - ou melhor, compreender - os motivos que fizeram da Bel-Air algo tão maldito. “É uma trajetória bastante pesada e não foi silenciada à toa. O documentário servirá para colocar o nome da Bel-Air onde ele merece estar.”