Paulínia: um novo reduto para o cinema

por Marcelo Miranda
*publicado em O TEMPO - 11.06.2008

Paulínia (SP) - “O cinema também pode ser um bom negócio.” A frase é dita e repetida várias vezes pelo crítico Rubens Ewald Filho durante visita guiada ao pólo cinematográfico de Paulínia, na sexta-feira dia 6. Ao lado da secretária de Cultura da cidade, Tatiana Quintella, Rubens é o principal nome por trás de uma verdadeira revolução que tem ocorrido neste município do interior paulista de 73.014 habitantes, distante 118 km da capital. O projeto tem nome pomposo - “Paulínia Magia do Cinema”.

A ambição é transformar a cidade numa referência de formação de profissionais e de produção ligados ao cinema. Para tanto, um verdadeiro templo está terminando de ser erguido no local. Há a construção de um teatro, de um estúdio de filmagens, de uma escola preparatória, de salas de pós-produção, de um museu e - a cereja desse grande bolo - um festival.

A administração não esconde a fartura de condições e intenções. “Paulínia é muito rica. O prefeito decidiu usar o dinheiro gerado aqui em outras atividades e diversificar nossas fontes de receitas”, afirma Tatiana. O administrador atual é Edson Moura (PMDB), e o investimento total destinado ao pólo bate na casa dos R$ 100 milhões num período de quatro anos. O projeto, iniciado há três, está em sua fase final. Mas, mesmo ainda em construção, o pólo está à toda.

Por meio de concurso, uma comissão selecionou no ano passado nove produções a receberem incentivo de Paulínia. Entre elas, algumas se sobressaem - casos de Ensaio sobre a Cegueira, filme que levou Fernando Meirelles à competição do Festival de Cannes, em maio; Budapeste, adaptação do romance de Chico Buarque, com direção de Walter Carvalho; e Hotel Atlântico, retorno de Suzana Amaral às câmeras após sete anos. Os selecionados - escolhidos pelas pomposas Comissão do Fundo Municipal da Cultura e Comissão do Mecenato - recebem incentivos fiscais e liberação de infra-estrutura para a realização de suas produções.


Set de filmagem de O Menino da Porteira, sendo realizado em Paulínia

Como “moeda de troca”, e na tentativa de investir também na população local, o agraciado deve cumprir uma série de exigências. Cada filme precisa ter em sua equipe dez estudantes da escola de formação do pólo, como estagiários; contratar um mínimo de 50% de figurantes que sejam residentes no município; e gastar um mínimo de 40% do valor recebido pelas comissões no comércio da cidade. “Com isso a gente pretende formar mão-de-obra qualificada no município para os filmes que vierem a ser feitos aqui”, destaca a secretária de Cultura. Rubens Ewald completa: “Vai ser um reduto de bons profissionais de cinema”.

Riqueza. Tudo relativo ao Paulínia Magia do Cinema é grandioso. Numa cidade cujo PIB per capita é de R$ 106,082 mil (o oitavo maior do país), ter um teatro de R$ 53 milhões, com cinco elevadores e capacidade para 1.350 pessoas, não é surpresa. Ou de oferecer aulas gratuitas aos estudantes da escola, em cursos que demandam equipamento e estrutura de primeira linha. E ainda distribuir R$ 650 mil em prêmios aos ganhadores do I Festival Paulínia de Cinema, a ser realizado entre 5 e 12 de julho.

Paulínia é rica por sediar a Replan - Refinaria do Planalto Paulista, a maior da Petrobras e que paga anualmente ao governo federal aproximadamente R$ 10 bilhões em impostos. Não é à toa que um passeio pela área próxima ao pólo de cinema permita que o visitante se depare com longas plantações de cana-de-açúcar e imensos cartazes, frente a terrenos totalmente verdes, onde se lêem convites irresistíveis para a compra de um lote num futuro condomínio a ser construído ali. Os nomes desses condomínios dão noção da grandiosidade - um vai se chamar “Índia”; outro, “Yucatan”.

Hipérboles. O Theatro Municipal de Paulínia é todo hiperbólico. Área de 12 mil metros, palco de 400 metros quadrados, 30 salas internas (entre camarins, espaço de entrevistas, sala de aula e montagem de cenário), cinco elevadores (três do público, um dos artistas e outro de carga), tela de cinema de 15m x 6,5m, fosso de orquestra para 80 músicos, mais de 1.300 lugares, 500 refletores de luz, intercomunicação sem fio entre palco e camarins, via fones, câmeras e monitores LCD. Para estrear em tão grande estilo projeto grandioso como esse, só mesmo um festival de porte semelhante.


O teatro municipal: quase cenário de um filme de David Lynch

A ambição do I Festival Paulínia de Cinema, entre 5 e 12 de julho, é justamente atrair mídia e público e chamar atenção tanto ao pólo quanto, principalmente, às suas capacidades e potencialidades. Dentro da proposta, a principal forma de atrair filmes e diretores para um primeiro evento de uma cidade do interior é colocar dinheiro no processo. Nada que incomode ou não seja assumido. “Os filmes que se inscreveram estão, claro, interessados nos prêmios que vamos distribuir. Até por isso conseguimos alguns títulos de muita força”, diz Rubens Ewald Filho, curador e diretor do festival, ao informar da premiação total de R$ 650 mil – sendo R$ 60 mil ao melhor longa de ficção (só o Festival de Brasília paga mais: R$ 80 mil).

De fato, as competitivas do evento estão tentadoras. Doze filmes (entre ficção e documentário) disputam, entre eles duas estréias mundiais – uma de veterano, outra de estreante. A primeira é o aguardado “Encarnação do Demônio”, retorno de José Mojica Marins à direção após mais de 21 anos afastado e quatro décadas depois de “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”, segundo filme de uma trilogia até então nunca terminada com o personagem Zé do Caixão.


Mojica: retornando primeiro em Paulínia

O outro destaque é “Feliz Natal”, primeiro longa-metragem dirigido pelo ator Selton Mello. Além destes, participam do festival outros nomes de prestígio do cinema autoral, como Walter Lima Jr. (“Os Desafinados”), Guilherme de Almeida Prado (“Onde Andará Dulce Veiga?”) e o mineiro Carlos Prates Correia (“Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais”). Minas também estará representada por Helvécio Ratton (“Pequenas Histórias”). Na categoria curta-metragem, 14 produções competem, sendo sete da região de Paulínia e outras sete de âmbito nacional.

Ainda não se sabe se a pretensão do Festival Paulínia de Cinema seja se aproximar mais da força criativa de Brasília ou do glamour propalado e valorizado por Gramado – ou mesmo um híbrido de ambos. “Vai ter tapete vermelho e fotógrafos, porque não deixa de ser uma atração turística”, diz Tatiana Quintella, secretária de Cultura. Aguardemos, então, Mojica em meio aos pipocos fotográficos.

Sucessão. Os ânimos estão em polvorosa por conta do pólo cinematográfico em Paulínia. Porém, politicamente, tanto a secretária de Cultura, Tatiana Quintella, quanto Rubens Ewald Filho são reticentes quanto à continuidade do projeto Magia do Cinema após as eleições municipais de novembro.

É que o prefeito Edson Moura já está em seu segundo mandato consecutivo e não poderá se reeleger novamente. Como ainda é mistério se ele conseguirá colocar no posto algum sucessor aliado, está em suspenso o que será do pólo a partir do ano que vem. “As pessoas vão ter que lutar”, diz Tatiana.

7 respostas para 'Paulínia: um novo reduto para o cinema'

  1. Mariana Souto Diz:

    Impressionante…

  2. Nisio Teixeira Diz:

    Seria uma nova Vera Cruz…

  3. Nisio Teixeira Diz:

    … com a diferença de tentar estruturar melhor sua cadeia produtiva cinematográfica!

  4. VANDMARY SMARJASSI Diz:

    O prefeito Edson Moura, fez um trabalho otimo na nossa cidade, e que tenha continuidade do projeto Magia do Cinema após as eleições municipais de novembro.

  5. VANDMARY SMARJASSI Diz:

    É com enorme satisfação, ver nossa city crescer e ter coisas que traz cultura de grande importancia a nossa cidade.

  6. VANDMARY SMARJASSI Diz:

    Impressionante…o pólo de cinema de nossa city é o resultado de um dos maiores investimentos da historia do mercado do audiovisual brasileiro

  7. VANDMARY SMARJASSI Diz:

    ERA UMA VEZ…A CIDADE PEQUENA POBRE EM CULTURA….AGORA..VOCÊ ENTRA COMO ESPECTADOR E SAI COMO CRITICO…ISTO DESENVOLVE MUITO NOSSO POVO.

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