Só em São Paulo…
por Marcelo Miranda
Por motivos de trabalho, viajei a São Paulo neste final de semana. Depois de uma sexta-feira bastante corrida e de metade de um sábado idem, decidi relaxar de tarde indo ao cinema. Minha idéia era ver Luz Silenciosa, do mexicano Carlos Reygadas, no Cinesesc. Quando pedi o ingresso pra uma suposta sessão das 17h, o atendente não disse nada. Apenas apontou o dedo para um cartaz que estava ao meu lado, onde lia-se: “Sessão Cineclube: Desejo Humano, de Fritz Lang - 17h20″.

Gloria Grahame e Glenn Ford em Desejo Humano
Há uns quatro anos eu assisti a esse magnífico trabalho do Lang, datado de 1954, numa cópia restaurada que circulou em alguns cinemas por aí. Como já estava no Cinesesc, entrei para rever o filme. E assistir a Lang na tela imensa do Cinesesc é um troço indescritível. Saí de lá maravilhado e até desisti de pegar a sessão seguinte, que seria, afinal, de Luz Silenciosa.
Minutos (e um lanche) depois, caminhando pela rua Augusta em direção à Frei Caneca (onde eu estava hospedado), resolvi entrar no Shopping Frei Caneca e checar o que estava sendo exibido por lá - o multiplex do local tem nove salas. Chego à bilheteria. Fila imensa. Uma passada de olho nos cartazes: Sex and The City, Indiana Jones, As Crônicas de Nárnia, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro…
Peraí. O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro?! E não é que a cópia restaurada desse filme maravilhoso do Glauber estava passando no multiplex do Frei Caneca? A fila pareceu até ficar menor quando imediatamente me posicionei no final dela. Apreensivo de perder a hora (faltavam 10 minutos), fiquei me sacudindo, impaciente. Na hora de pegar o ingresso, o cara me deu um bilhete de outro filme (algo muito sintomático, convenhamos). Será que era apenas pra atrasar mais?
Entrei na sala 8 (piso de cima, só para dificultar). Já rolavam uns comerciais. Sentei na segunda fila. E de repente começa o trailer de Encarnação do Demônio, a volta do José Mojica Marins à direção e ao personagem Zé do Caixão, que o consagrou. Dois minutos depois, impactado pelas imagens de Mojica, entram os créditos do filme do Glauber. E à medida que ele é exibido, mais encantado eu vou ficando não apenas com o filme, mas também com a qualidade da versão: som tilintando (dá para ouvir as letras de todas as canções, algo impossível nas cópias VHS), imagem que brilha e salta (Antônio das Mortes nunca foi tão soturno) e aquelas cores loucas que só o Glauber teria coragem de usar num sertão nordestino seco e sujo.

O sertão colorido de Dragão da Maldade
Quando o filme acaba (”Antôôôôôôôôônio das Moooooooorteeeeeeeeesssss… matadooooooor de cangacêêêêêêêêêroooooooooooooooo…”), fico pensando que foi a maior experiência que tive assistindo a um filme de Glauber. Meu favorito dele é Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas ver O Dragão da Maldade… no cinema, numa versão dessas, não tem igual.
Logo na saída da sala, ao virar o corredor, dou de cara com Paulo Sacramento, que estava na mesma sessão do Glauber. Diretor do brilhante O Prisioneiro da Grade de Ferro, o mais irônico ali na ocasião é que Sacramento é o grande responsável justamente por Encarnação do Demônio, projeto que ele encampou e produziu por amor ao cinema subversivo de Mojica.
Trocando algumas palavras, ele me conta que estava trabalhando em casa exatamente na mixagem de som do filme do Mojica (cuja primeira exibição será dia 9 de julho, num festival em Paulínia, interior paulista). Cansado, decidiu sair para ir ao cinema e entrou no filme do Glauber. Quando se sentou na cadeira para relaxar… entra o trailer de Encarnação do Demônio! “Nem aqui eu consegui me desligar disso”, brinca, antes de nos despedirmos para ele voltar e continuar a finalização do filme.
Tudo isso num sábado, entre 17h e 23h. Só em São Paulo mesmo.
9/06/08 às 10:52
É, MM, esse sábado deu inveja.
9/06/08 às 16:20
Putz,
lang e glauber em telonas de cinema com cópias boas..
poxa, eu adoro antônio das mortes e é possivelmente meu personagem preferido de glauber. inveja… rsrs