Do palco à Palma
por Marcelo Miranda
*publicado em O TEMPO - 02.06.2008

Sandra Corveloni, em foto de Tiago Queiroz (Agência Estado)
O telefone chama por apenas duas vezes. A assessora atende do lado de lá e já avisa: “Vou ter que ser rigorosa no tempo. São dez minutos”. Apreensivo, o repórter aciona um cronômetro do lado de cá assim que Sandra Corveloni diz “alô”.
Era quarta-feira, dia 28 de maio. No domingo anterior, Sandra tinha realizado um imenso feito. De posse de um envelope em mãos, o francês Jean Reno anunciou o nome dela como sendo a melhor atriz do 61º Festival de Cannes, o maior e mais importante evento cinematográfico do planeta. O papel de Sandra em Linha de Passe, realizado pela dupla Walter Salles e Daniela Thomas, conquistou o júri presidido pelo ator e diretor Sean Penn. Daquele domingo, às 14h30 (horário de Brasília), até o final da semana passada, Sandra não faz idéia de quantas entrevistas concedeu. “Ih, já perdi a conta”, confessa.
A voz parece bastante cansada - é possível até mesmo imaginar Sandra sentada numa cadeira, com o rosto abatido, o olhar algo perdido, as palavras relativas ao filme saindo quase automaticamente de seus lábios, sempre com muita simpatia. A assessoria havia avisado que ela estava “estafada”, o que, só de escutá-la, é imediatamente perceptível .
O estado da atriz de 43 anos é comprensível. Ela venceu Cannes, mas sequer estava presente na premiação. Cancelou sua ida à França por conta da interrupção de uma gravidez de cinco meses. Incidente inesperado para ela, que já aguardava Ana Clara com ânimo e pompa. Dias depois do choque, ainda de resguardo, veio a notícia da Palma em Cannes. Como processar tudo ao mesmo tempo?
Sandra estava em sua casa, em São Paulo, no domingo fatídico. Acompanhava o resultado da premiação ao lado do marido, pela Internet. De repente, toca o telefone. “Era alguém da assessoria, me informando que eu tinha acabado de ganhar”, relembra. “Aí foi aquela festa. E começaram a me ligar do mundo inteiro.”
4′25”. O cronômetro segue correndo. Sandra permanece falando pausadamente, ainda que claramente emocionada. O primeiro riso surge quando ela conta a relação que estabeleceu com os jovens atores de Linha de Passe. No filme, ela é a mãe de quatro garotos de perifeira que sonham melhorar de vida - seja tornando-se jogador de futebol ou ligando-se à igreja evangélica, ou mesmo apenas encontrando o pai desconhecido.
O envolvimento do elenco foi bastante além do que está na tela. “Tivemos três meses intensos de preparo antes de ligar a câmera. Na casa onde se ambienta o filme, também passamos muito tempo concentrados”, diz. “Os meninos viraram meus filhos adotivos.” O tom risonho vem quando ela conta uma conversa tida com a mãe do ator mais jovem, Kaique de Jesus Santos, horas antes da entrevista. “Na hora de chamá-lo ao telefone ela disse: ‘Kaique, vem falar com a mãe Sandra’”. E Sandra ri.
Com exceção a quem acompanha a cena teatral (especialmente a paulista), Sandra Corveloni literalmente nasceu na mídia brasileira com o prêmio em Cannes. Salvo engano, nenhuma resenha havia chamado atenção especificamente para sua presença em Linha de Passe durante o festival. Nem mesmo o CD de divulgação do filme, distribuído pela produtora Videofilmes, trazia alguma imagem da atriz. Ela estava “invisível” até seu nome e sobrenome - este, de ascendência italiana, herdado dos bisavós - ser entoado.
8′55”. Mas, claro, Sandra não é nenhuma iniciante nas artes. Formou-se em teatro na PUC-SP e integra o Grupo Tapa desde 1998. Na equipe, atuou em diversas peças e assumiu a direção de uma delas - Amargo Siciliano - ao lado de Eduardo Tolentino, fundador da trupe. “A experiência no Tapa foi fundamental para o Linha de Passe. A gente trabalha os pequenos gestos, os olhares, o pensamento, a verticalização da busca da personagem, que foi necessária também ao filme.” Até no cinema ela já havia aparecido. Sandra esteve em dois curtas-metragens, bem no começo da carreira: Flores Ímpares (1992), de Sung Sfai, e Amor (1993), de José Roberto Torero.
O tempo vai se esgotando no cronômetro. Ainda dá para perguntar se Sandra acompanha o cinema brasileiro. “Claro, sempre vou quando posso. Adorei O Céu de Suely, Cinema, Aspirinas e Urubus e A Casa de Alice“, enumera, sem pestanejar. “Estou louca para ver Estômago“.
Fim da conversa, o relógio marca 9′57”. Agora, só no lançamento do filme, no segundo semestre.
4/06/08 às 9:35
Parabéns pela entrevista, Marcelo… acompanhamos aqui seu “calvário”.. muito bom, viu? ; )