43 anos depois, novo “Augusto Matraga” vai para as telas

por Marcelo Miranda
*publicado em O TEMPO - 27.05.2008

“Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato. E, em casa, sempre fechado em si. Nem com a menina se importava.”

A descrição de Augusto Matraga nas palavras de Guimarães Rosa foi um dos principais motivos para o carioca Vinícius Coimbra, 36, resolver adaptar ao cinema o conto do escritor mineiro. “Eu acho o Rosa um autor muito sentimental e emotivo. E esse personagem é um jagunço duro, forte e ao mesmo tempo extremamente frágil”, conta Coimbra. “O Rosa coloca nele toda a ternura possivel,um cara que, diante de determinado acontecimento, arrepende-se de tudo que fez até então e passa a ter uma gratidão imensa por ter a vida salva.”

O conto A Hora e Vez de Augusto Matraga, um dos textos que compõem a antologia Sagarana (1946), caiu nas graças de Vinícius Coimbra por acaso. A intenção original era adaptar Campo Geral, novela incluída no livro Manuelzão e Miguilim (1956). Porém, Sandra Kogut já tinha adquirido os direitos sobre a obra, o que resultaria em Mutum, lançado no ano passado. “Fiquei inconsolável, mas fui procurar outro trabalho do Rosa”, relembra Coimbra. Foi quando ele “tropeçou” na triste saga de Nhô Augusto. “Foi um contato ainda mais forte do que com Campo Geral, especialmente ao pensar na adaptação.”

Esse processo aconteceu há três anos. De lá para cá, o cineasta - cuja experiência anterior inclui assistência de direção de Walter Salles em Central do Brasil e de Guilherme de Almeida Prado em A Hora Mágica, ambos em 1998 - tem buscado os meios para levar à frente seu primeiro longa-metragem como diretor.


O cineasta carioca Vinícius Coimbra

O orçamento estimado é de porte razoável - R$ 6 milhões, dos quais metade já foi captada pela equipe de Vinícius, via sua produtora, a Pródigo Filmes, em parceria com a Bananeira Filmes (de Vânia Catani, também por trás das estréias de Matheus Nachtergaele e Selton Mello como diretores) e com Roberto Faustino.

Toda essa estrutura se difere bastante da primeira adaptação de A Hora e Vez de Augusto Matraga, levada às telas em 1965 por Roberto Santos. O longa, marco do Cinema Novo e filmado em Minas Gerais com pouco dinheiro, foi devidamente estudado por Vinícius. “O Roberto fez um filme belíssimo e optou pela estética do neo-realismo. Eu seguirei por caminhos diferentes”, adianta. “Será uma interpretação mais ao pé da letra em relação à linguagem roseana, algo muito proximo do que fez Walter Avancini na TV com a série Grande Sertão: Veredas (adaptada do romance de Rosa)”.

Vinícius já tem seu protagonista (vivido por Leonardo Villar no filme dos anos 60). Será o baiano João Miguel, onipresente nas recentes produções brasileiras desde 2005 - e em cartaz atualmente com Estômago, de Marcos Jorge. Presença peculiar será a de Fernanda Montenegro, como uma encarnação do próprio Guimarães Rosa. “Ela será a narradora. É uma atriz que sabe se comunicar e se expressar como o brasileiro do interior”, exalta o diretor.

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