Rápidas considerações da premiação de Cannes 2008
por Marcelo Miranda
- Salvo engano, texto ou publicação alguma destacava a atuação de Sandra Corveloni, atriz brasileira ganhadora do prêmio por Linha de Passe. Ela era invisível absoluta até ser anunciada pelo francês Jean Reno como a vencedora (ironicamente, ela continuou invisível até aquele momento, pois não pôde comparecer ao festival por problemas pessoais). Grande sacada do júri do Sean Penn, que literalmente revelou a atriz, agora procurada, assediada e entrevistada por tudo quanto é veículo daqui. Legal ver Brasil de novo ganhar a categoria (ainda mais de forma tão surpreendente) exatos 22 anos depois de Fernanda Torres por Eu Sei que Vou Te Amar, do Arnaldo Jabor.
Sandra Corveloni, 43, em cena de Linha de Passe: não mais invisível
- Outro brasileiro premiado foi o cura Muro, do pernambucano Tião. Levou o Regard Neuf (Olhar Novo), pela Quinzena dos Realizadores. Elogiadíssimo pelo diretor artístico da mostra, Olivier Pére, que o louvou “pelo drama humano, pela comédia, por um exercício radical de linguagem e também sob o signo da animação, sinalizando grandes promessas para o futuro em cineastas que nos fazem querer ver logo seus longas” - como nos conta o colega Kleber Mendonça Filho.
- Benicio Del Toro como melhor ator por Che, mesmo sem eu ter visto o filme, me cheirou a um certo reconhecimento pelo filme-evento de Soderbergh, talvez mais do que ao evidente talento do ator. Ainda assim, bom pra ele, que já merecia levar algo de peso há algum tempo e agora está sob os holofotes.
- Prêmio de carreira a Clint Eastwood cheirou consolação e despedida. Me pareceu esquisito e, ouso dizer, desnecessário, ainda mais pra ele que, dias antes, dissera que gosta de competir em festivais porque estar em mostras especiais ou paralelas soa como se fosse algo em tom maior, acima dos demais. Júri foi menos humildade do que o próprio premiado.
- Melhor roteiro para os Dardenne - logo eles que lidam com enredos quase desgarrados de qualquer sentido de “história” - talvez ateste que seu O Silêncio de Lorna seja mesmo o filme mais “narrativo” da dupla.
- Palma de Ouro para Laurent Cantet, cujo último filme (Em Direção ao Sul) eu acho bem ruim e questionável. Mas pelo que os colegas “canneanos” escreveram, Entre le murs é bastante forte. Então fiquemos na expectativa. Curiosidade fundamental: faziam duas décadas (!) que a França não faturava a Palma. O último fora Sol o Sol de Satã, do Maurice Pialat. Quebraram o jejum, enfim.
- Não, o Steve McQueen ganhador do Camera D’or por Hunger, não tem qualquer relação com o ator morto em 1980. Até onde eu saiba, pelo menos.
- Pouco conhecido fora do circuito cinéfilo no Brasil, o turco Nuri Bilge Ceyla, que levou direção por Three Monkeys, é veterano em premiações de Cannes. Com exceção de seu curta Koza (1995), que “apenas” concorreu, seus demais trabalhos selecionados na competição sempre saíram agraciados: Uzak (2002) ganhou prêmio do júri; e Iklimner, ou Climates (2006), o Fripesci (dado pela imprensa estrangeira).
Agora aguardemos notícias do correspondente-polvo Leonardo Sette, que deve estar na correria louca nesses momentos finais de festival.