Brevíssimos comentários sobre Cannes 2008
por Marcelo Miranda
- A essa altura todo cinéfilo que se preza já sabe dos selecionados ao maior festival de cinema do mundo. E tem brasileiro na parada, desta vez em filme genuinamente do país. Walter Salles e Daniela Thomas disputam a Palma de Ouro com Linha de Passe, cuja temática gira em torno de pobreza e futebol, assuntos que literalmente dominam o país. Há poucos anos Salles esteve na competição com Diários de Motocicleta, de produção estrangeira. A última presença brasileira na seleção fora em 2003, com Carandiru, de Hector Babenco. E claro, aos esquecidos ou desinformados, o Brasil já levou a Palma em 1962, por O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, e o prêmio de direção em 1969, para Glauber Rocha, por O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro.
- Outros latinos na briga pela Palma são Leonora, de Pablo Trapero, e La Mujer sin Cabeza, de Lucrecia Martel - ambos vindos da Argentina e nomes de respeito dentro do cinema contemporâneo mundial.
- Da Europa, os quentes são o francês Arnaud Desplechin, que retorna ao circuito de festivais com Un Conte de Noel, quatro anos depois de sacudir os sentimentos dos espectadores no belíssimo Reis e Rainha, concorrente em Veneza em 2004; outro francês, Philippe Garrel, por La Frontiere de L’aube - e de volta a Cannes após o estrondo de Amantes Constantes (2005) no circuito mundial e ganhador de direção em Veneza; e a co-produção Reino Unido e França The Silence of Lorna, direção dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, donos de duas Palmas de Ouro (por Rosetta em 1999 e A Criança em 2005). Têm ainda o novo de Wim Wenders, que pouca gente parece estar genuinamente interessada, e a produção espanhola Che, sobre o mito Che Guevara, com direção de Steven Soderbergh e composta de dois filmes de duas horas, a serem exibidos em seqüência no festival.
- Da Ásia, nada tão substancial em quantidade e variedade como em anos anteriores, mas um nome compensa tudo: o chinês Jia Zhang-Ke, que exibe seu novo trabalho, 24 City. Depois de O Mundo (2004) e Em Busca da Vida (2006), dois dos melhores filmes recentes exibidos por aí, só podemos esperar o melhor desse mestre atual.
- Dos EUA, dois nomes piscam na relação, por motivos diametralmente opostos. De um lado, o monumento cinematográfico que é Clint Eastwood aparece com Changeling, seu novo filme após o díptico de guerra A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima (2006) e cinco anos depois de sua última participação em Cannes, com o sombrio Sobre Meninos e Lobos. Na outra ponta está a estréia do roteirista Charlie Kaufman na direção, com Synecdoche, New York (no qual obviamente ele também é autor do roteiro). O que o escritor de Quero ser John Malkovich, Adaptação e Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças reserva, nem seus maiores fãs devem ser capazes de prever.
- Nas mostras não-competitivas, destaque para a participação de Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona); do sul-coreano Kim Jee-woon (The Good, the Bad, the Weird), grande realizador de filmaços como o terror A Tale of Two Sisters (2003) - rebatizado no Brasil com o genérico título Medo - e o policial A Bittersweet Life (2005), por aqui chamado Gosto da Vingança; do bósnio Emir Kusturica (Maradona); e da inusitada presença de Jennifer Lynch (Surveillance), filha do tresloucado David Lynch.
- Há ainda outro brasileiro, Matheus Nachtergaele, com sua estréia na direção, A Festa da Menina Morta. O filme passa na mostra “Um Certo Olhar” (a mesma que, ano passado, foi encerrada por Mutum, de Sandra Kogut) e tem montagem do mineiro Cao Guimarães (Andarilho).
- Ainda falando de brasileiros, estão participando os curtas O Som e o Resto (RJ), de André Lavaquial, na mostra “Cinéfondation”; Areia (SP), de Caetano Gotardo e A Espera (RJ), de Fernanda Teixeira, na “Semana da Crítica”; e Muro (PE), de Tião, na “Quinzena dos Realizadores”.
- ATUALIZADO - Agora parece ser oficial: Cegueira, do brasileiro Fernando Meirelles, está na seleção oficial de Cannes. O filme é adaptado do livro Ensaio sobre a Cegueira, do português José Saramago, e tem Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Danny Glover e Gael Garcia Bernal no elenco. Outros dois nomes confirmados para o festival são o americano James Gray, que levará seu quarto longa, Two Lovers (e após disputar a Palma por duas vezes, com Caminho sem Volta, em 2000, e Os Donos da Noite, no ano passado); e o francês Laurent Cantet, exibindo Entre les Murs.
- Último comentário: neste ano, Cannes terá nos seus trabalhos de cobertura a presença de tentáculos jamais vistos por lá. Aguardem novas informações.
29/04/08 às 13:55
Parece cada vez mais confirmada a notícia de que o filme de um brasileiro, baseado no livro de um português, irá abrir o expressivo festival francês
perto da notícia de o filme sequer havia sido selecionado, essa me parece bem mais animadora em relação ao que vem por aí!
http://cinema.uol.com.br/ultnot/2008/04/29/ult831u3809.jhtm
29/04/08 às 17:44
É, vi aqui também… Parece certo.
http://cinema.terra.com.br/interna/0,,OI2856539-EI1176,00.html
29/04/08 às 22:30
E não apenas abrirá Cannes como competirá à palma de ouro. o que é incomum a filmes de abertura. Parece que o distribuidor não queria que ele abrisse porque achava que merecia competir; e acabaram negociando e conseguindo as duas coisas. Agora só resta esperar…. esperar…
30/04/08 às 9:11
Vejam só:
Além do Cegueira, mais dois filmes entraram na lista “em competição”
na última hora: “Entre les murs” de Laurent Cantet (França) e o
americano “Two Lovers”, de James Gray.
Também entraram dois membros novos no júri, uma francesa e um iraniano.
Pergunto ao MM, que é mais antenado que eu: estas mudanças de
última hora são usuais e eu é que não acompanhava com a devida atenção
pôlvica nos outros anos? Ou é coisa nova mesmo? Se for coisa nova, é
uma decisão de cunho mais comercial, mais política, mais estética? Como se explica o fato?
1/05/08 às 10:46
Leo, esses acréscimos são bastante comuns em festivais grandes. Costuma acontecer, inclusive, de filmes serem acrescidos às competições no meio do festival, tipo faltando alguns dias pra acabar. Sobre o “Cegueira”, o Meirelles divulgou ontem que o filme ia apenas abrir Cannes, mas o distribuidor francês pressionou e ameaçou proibir a exibição do filme se ele não competisse. Parece que a organização cedeu - o que pode ser temerário, se pensarmos que “Cegueira” só vai competir por pressão, e não necessariamente por ter sido escolhido pela comissão. Bizarro…
1/05/08 às 11:39
Estranho, ne… Parece que a coisa é bem política. Acho que o povo também fica na correria pra terminar o filme em cima do festival e mandar. Mas como é feita a seleção de Cannes?
1/05/08 às 12:50
Como todo grande festival internacional de grande porte, Cannes tem um diretor artístico (atualmente, Thierry Fremaux), responsável pela seleção. Não sei se existe uma comissão que o ajuda a avaliar os filmes (deve ter), mas especificamente Cannes já costuma puxar alguns queridinhos que norlmalmente tenham finalizado seus filmes próximo ao festival. Caso de Wong Kar Wai (que exibiu “2046″ em cópia ainda quase bruta, sem estar totalmente montada e mixada), por exemplo, ou Gus Van Sant (que disputou com seus três últimos consecutivamente). Recentemente James Gray parece estar em definitivo na seleta lista de “garantidos”, vide seu “Two Lovers”, recentemente finalizado e devidamente selecionado.
Claro que há política, mas também preocupação com qualidade mesmo. Cannes sabe que tem visibilidade e prestígio e, mesmo quando coloca um “Código Da Vinci” pra abrir, é consciente do que está fazendo. E sabe descobrir e valorizar pérolas, especialmente nas mostras paralelas (que exibiram em anos passados “A Morte do Sr.Lazarescu”, “Madrugada dos Mortos”, que depois se popularizou no circuito, e “Bug”, do Friedkin).