John Carpenter: o início

por Marcelo Miranda

Ainda que não seja muito lembrado como tal, o primeiro longa-metragem de John Carpenter foi o quase-exercício de ficção científica Dark Star, lançado em 1974 (dois anos antes de sua “verdadeira” estréia nas telas, com o impressionante Assalto à 13ª DP). O filme é cercado de histórias curiosas, a começar por sua origem. Era um curta-metragem filmado em 16mm pelo então estudante de cinema Carpenter. O trabalhinho chamou atenção do produtor Jack H. Harris, que topou pagar dinheiro adicional para transferi-lo à película 35mm, filmar novas cenas e transformá-lo num longa-metragem a ser exibido nos cinemas.

Mas o mais curioso dos bastidores de Dark Star é a participação de Dan O’Bannon, autor do roteiro junto com Carpenter. Ele foi responsável também pelos primários efeitos especiais e pela interpretação de um dos personagens (o sargento Pinback). O nome de O’Bannon pode soar familiar: poucos anos depois de Dark Star, ele escreveu o roteiro do seminal Alien - O 8º Passageiro, utilizando diversos elementos de seu filme com Carpenter para a composição do suspense espacial dirigido por Ridley Scott em 1979.

De fato, em Dark Star, há seqüências bastante semelhante a Alien, como quando um dos ocupantes da estação orbital que dá título ao filme anda pela escuridão da nave atrás de um alienígena. A diferença é que o filme de Carpenter desenvolve-se com muito humor e ironia, desde as primeiras palavras de “consolo” aos astronautas, logo no início, até o desfecho hilariantemente surreal. No meio disso, Carpenter já demonstra noções de ritmo, narrativa e concepção de imagens que marcariam seu trabalho ao longo das décadas seguintes.

Dark Star tem algumas tiradas marcantes - o alienígena que mais parece uma bola de gás com perninhas (na foto), a cena em que o astronauta fica preso no poço de um elevador, as conversas dos personagens e especialmente as falas do computador central da nave (uma espécie de Hal-9000 gente boa). São esses diálogos, aliás, que geram alguns dos momentos mais gozados do filme. Exemplo é a troca de palavras reproduzida abaixo, que se dá entre o tenente Doolittle e uma bomba (!). Esta prepara-se para explodir em poucos minutos, mesmo à revelia das ordens dos comandantes da nave. Doolittle resolve apelar para a filosofia na tentativa de convencer o artefanato teimoso a não se acionar.

Tenente - Qual o seu único propósito na vida?
Bomba - Explodir, é claro.
Tenente - E você só pode explodir uma vez, certo?
Bomba - Certo.
Tenente - E não vai querer explodir baseado em informação falsa.
Bomba - Claro que não.
Tenente - Você já admitiu não ter prova concreta da existência do universo. E não tem prova de que Pinback ordenou que você explodisse.
Bomba - Eu me lembro bem da ordem de detonação. Sou bom nessas coisas.
Tenente - Mas tudo que você lembra é meramente uma série de impulsos sensoriais que você percebe agora não ter ligação concreta com a realidade exterior!
Bomba - É verdade. Mas, se é assim mesmo, então não tenho prova concreta de que você está mesmo me dizendo tudo isso.

3 respostas para 'John Carpenter: o início'

  1. João Toledo Diz:

    hahahahahaha… hihihi.. hihi… aiai

  2. Mariana Diz:

    Muito bom, isso. Deu vontade de ver.

  3. João Toledo Diz:

    vi ontem. totalmente excelente!
    bicho, esse filme é bom demais. é uber precário, mas isso é usado com um cinismo extremo, e o humor é inteligentíssimo. é o tipo de filme que eu sempre animarei de rever. destaque para o final. foda.

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